“O EVANGELHO NÃO É BENEVOLENTE COM AS TITULAGENS”: NOTA MIÚDA SOBRE CARLO MARIA MARTINI, CRISTÃO CATÓLICO.

A frase acima vem da pena do Cardeal católico emérito da diocese de Milão, Carlo Maria Martini em um diálogo notável com o escritor Umberto Eco e que foi publicado com o sugestivo titulo de “Em que crêem os que não crêem?” (editora Record, 2000). Começo com este titulo por entender ser ele um ponto de partida emblemático para dizer algo sobre este Cardeal católico e intelectual de rara sensibilidade mística e que faleceu a pouco ou como costuma afirmar os místicos: “viveu a sua Páscoa”.

Houve uma expectativa grande quando morreu o Papa João Paulo II de que seria o momento da Igreja Católica ter como seu “pastor maior” o emérito Cardeal de Milão. Frustradas as expectativas, pois, veio o atual “pastor alemão” de conhecida linha doutrinária e notório oponente da teologia da libertação, o atual Bento XVI. Isto em nenhum momento nos impede de refletirmos sobre o que perdeu a Igreja Católica Romana ao não ter o Cardeal Martini como Papa. Numa última entrevista concedida em 8 de agosto, Carlo Maria Martini afirmava categórico: “A Igreja esta atrasada 200 anos. Ela esta exausta, na Europa e na América… Somos como o jovem rico que foi embora triste, quando Jesus o convocou para ser seu discípulo” (Revista Cartacapital, N. 174, Setembro de 2012). Por uma afirmação desta natureza podemos calcular o que perde o catolicismo contemporâneo em não ter tido um homem desses como pastor.

Percebe-se um balanço honesto e convicto de um homem de fé e de seu tempo. Não adianta escamotear a crise profunda porque passa o mundo católico em pleno século XXI. Um clero altamente conservador e maníaco por dinheiro; uma Igreja fechada as mulheres na sua liderança; um discurso afiado em defender famílias em abstrato e incapaz de encontrá-las na sua concretude pelo mundo de hoje; uma igreja rica em movimentos pentecostais e pobre em mística coti diana; Uma Igreja atrelada aos poderosos e incapaz de uma solidariedade profunda com os “preferidos de Cristo”, os pobres; Uma Igreja sem profecia e com muito discurso vazio; Uma Igreja que se perde em bobagens pequeno burguesas e sem força para o enfrentamento ao niilismo do Capital, em fim, uma Igreja de adesão e de muito pouca conversão.

Triste situação para uma milenar instituição! O Cardeal falecido a pouco sentia na pele e no seu pastoreio tias situações. Dialogava com intelectuais ateus, cristãos e de vários credos diferente do seu. O Cardeal descia de suas vestes pomposas para encontrar-se com as pessoas concretas, de carne e osso e ter com as pessoas sentimentos comuns. Entendia o prelado Martini que era necessário uma mudança urgente (quem sabe um Concílio Vaticano III?) dentro da Igreja e para fora dela. No livro que dialoga com Umberto Eco, Martini afirma: “No momento dramático da ação importam mais as coisas do que o nome, e nem sempre va l e a pena levantar uma quaestio di nomine quando se trata de defender e promover valores essênciais para a humanidade” (P.23). Quanta grandeza numa afirmação destas! Num momento dramático porque passa a Igreja, importava bem mais defender o humano das garras de um sistema impiedoso do que perder tempo com “firulas doutrinárias” que a nada levam, a não ser ficarmos debatendo irrelevâncias dogmáticas. Martini é certeiro na sua crítica e desconcerta seu patrício no diálogo.

Penso que Eco esperava uma reposta mais moderada advindo de um prelado famoso na Europa e de relevante poder no meio católico. Ledo engano, Martini sentia o descompasso da sua Igreja em relação aos problemas concretos do mundo para além de documentos elaborados por cardeiais mal acostumados com a dinâmica da vida. Existem “valores essênciais” (isto é básico para um Cristão) que têm de ser promovidos e defendidos num mundo que a tudo mercantiliza e a tudo volatiliza. Ganharia muito mais a Igreja em testemunho se falasse aos que sofrem e aos desvalidos deste planeta com voz firme e coerente, com “santidade de propósitos” na linha de uma longa tradição de defesa de tantos desvalidos da história. Ganharia a Igreja se viesse ao encontro da mulher e do homem concretos de nosso tempo sem tanta doutrina desconcertante e sem efeito na vida real das pessoas. Ganharia a “causa de Jesus” se tivesse uma Igreja profética para os nossos dias e que não se preocupasse tanto com seu poder e seus dogmas.

É possível ainda perceber nas palavras de Martini uma segurança fora do comum ao referir-se a questões delicadas. Afirma ele: “Uma coisa é falar da vida humana e de sua defesa do ponto de vista ético, outra é perguntar de que maneira concreta uma legislação poderá defender da melhor maneira estes valores em determinada situação civil e política” (P. 36). Essa segurança é percebida ainda mais nas cartas trocadas com o escr ito r Umberto Eco e na desenvoltura com que o Cardeal Martini comenta temas como: existência ou não de Deus; fundamentos da ética; mulheres e o sacerdócio; aborto e repeito a vida; a existência ou não de uma esperança comum a crentes e não crentes.

Ao lermos o livro hoje, ficamos com um duplo sentimento de perda: primeiro, de que a humanidade perde hoje um grande intelectual, um pastor e um humanista de marca maior. Segundo, de que a igreja perdeu em muito não ter tido Martini como Papa nessa travessia de milênio. Talvez possa ficar ainda mais marcante o significado da ausência de Carlo Maria Martini ao citarmos as suas próprias palavras ao encerrar uma carta a Umberto Eco: “Existe uma esplêndida metáfora que diz laicamente o quanto há de comum, no âmago, entre católicos e não católicos: a metáfora do rosto. Levinas falou dela em termos acurados, como uma instância irrefutável” (p. 41).

Um cardeal católico que cita um filósofo judeu na sua justifi cati va de encontrar um caminho comum para os que buscam o diálogo e a justiça. Uma Igreja que não toma consciência do que perde, não pode ter consciência do que é e do que pode representar no mundo. Habemus Papam!

O autor é docente no Departamento de Filosofia da UFS

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