Há alguns assuntos sobre os quais gostaria de dizer algumas palavras. A dificuldade de aceitar o fato de que um pastor supostamente evangélico (o que há de menos cristão do que a discriminação? Lembrar a parábola do bom samaritano) agrida constantemente o direito de ser e de viver das pessoas homo-afetivas.
Não penso que possa ser por acaso que alguém tão desumano possa ter sido escolhido para presidir uma comissão de Direitos Humanos. Soa a provocação, ou seria apenas incompetência? Em todo caso, é inaceitável.
Sobre tudo, em momentos em que a cidadania brasileira começa a despertar e a reagir contra as agressões vindas desde o poder. Resta saber como poderemos nos livrar desta anomalia.
Na contramão deste desvio antissocial, um gesto verdadeiramente comovedor: o Papa Francisco nos exorta a que oremos com insistência. A que falemos com Deus de maneira até inconveniente, se for o caso, para sermos atendidos nas nossas súplicas.
Não basta orar por alguém e em seguida se esquecer. Há que conversar cara a cara, diretamente, com Deus. As palavras de Francisco chegam em boa hora, e não é por acaso que nos fazem bem. Elas vão dirigidas a todas as pessoas, até a aquelas que se dizem ou são ateias.
Um gesto de amor universal nos toca a todos os seres humanos. Sempre admirei e continuo admirando as pessoas que tem a coragem de serem elas mesmas, que se atrevem a remar contra a correnteza. Mas não por apenas contradizer à maioria, e sim por atendimento a um apelo interior, a um chamado da sua consciência.
As palavras do Papa Francisco me tocam profundamente, porque creio que o mundo estava necessitando de uma presença amorosa e carismática, a serviço do bem e da unidade do gênero humano.
Neste momento, sinto que a possibilidade de vivermos em Deus, de sermos Deus, está aberta mais do que em outros tempos. Isto é a exortação de Jesus: vós fareis coisas maiores ainda. Mas tudo que é humano é construído, dá trabalho.
Não é tempo de exclusões ou fundamentalismos separativos. Todo ser humano tem a possibilidade de superar a morte, se se dá ao trabalho de construir a imortalidade enquanto está vivo.
O Reino de Deus não é uma possibilidade aberta a alguns poucos, mas a qualquer pessoa que se disponha a trabalhar em si mesma para dissolver as barreiras da ignorância que a fazem crer que está separada do Todo.
No hinduísmo, existe a afirmação radical de que o trabalho espiritual consiste em alcançar a consciência de que “Tú es Aquilo”. Uns irão pelo caminho do trabalho ou da oração, outros pelo da arte e a estética, outros pelo serviço.
Da minha parte, creio que existem ações que cada um, cada uma de nós pode executar, para ir se unificando com o divino no aqui e agora. Nestes últimos anos, isto tem se tornado algo cada vez mais evidente na minha vida.
Pequenas ações, de ir limpando o meu mundo interior, de ir varrendo os preconceitos, as falsas ideias sobre mim mesmo e sobre as demais pessoas, sobre tudo que há. Assim, progressivamente, passamos da morte para a vida, para a vida eterna.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
