O desafio da integração na América Latina

simposioA América Latina passa por um processo de transformações geopolíticas bastante intenso. É fácil perceber o crescente nível de mobilização popular, uma participação de maior destaque nas discussões globais e a rápida recuperação pós-crise. O “III Simpósio de Comunicação e Cultura da América Latina”, realizado pelo CELACC ( Centro de Estudos Latinos Americanos de Cultura e Comunicação), entre os dias 29, 30 3 31 de março, no Memorial da América Latina (SP), colocou em pauta esse importante momento histórico e propôs, no seu próprio tema, uma nova forma de se observar essa realidade: “Integrar para além do mercado”.
O professor doutor Dennis de Oliveira(ECA/USP), um dos responsáveis pelo Simpósio, explica que é bom perceber o maior peso econômico da América Latina no mundo e a aproximação entre os seus países. Porém, lembra que a vida das pessoas não se limita à índices da economia: “devemos pensar em uma integração dos povos, não queremos somente integrar as economias, mas levar em consideração as demandas dos movimentos sociais, dos direitos humanos”.
O pensamento mais humanístico e abrangente que leva em conta o passado, as raízes culturais, o desenvolvimento social e as relações culturais foram temas sempre lembrados nos grupos de trabalhos e mesa-redonda do encontro. De acordo com Oliveira, “somos ( América Latina) mais parecidos do que pensamos”, o conhecimento das diferentes expressões culturais dos países latinos colabora para essa aproximação.
Integração e Novos Horizontes
Na palestra de abertura realizada pelo professor Emir Sader,  foi feito um recorte das novas experiências da América Latina apresentando uma visão muito positiva: “Somos a única região do mundo que oferece alternativas ao neoliberalismo, só aqui é feito algo de diferente”.
Na visão do sociólogo, para se entender as transformações políticas e sociais devemos trazer à lembrança dois fatores: a onda dos governos neoliberais e a ação isolada e autoritária da única superpotência do mundo, os EUA.
Sader aponta que a sequência de governos defensores do estado mínimo, de uma maior participação do setor privado na sociedade e da liberalização econômica, foram os responsáveis por criar uma situação de tensão no continente. Pois pequenos grupos, muitos deles estrangeiros, enriqueciam com o desmonte do estado e a população não recebia políticas sociais adequadas.
O acúmulo dessa insatisfação foi determinante para que lideranças que pregavam um valor de políticas públicas voltadas para as classes mais carentes conseguissem chegar ao poder.“Os povos sentiram necessidade de governos voltados para todos e não só para os poucos detentores do capital, o sucesso deles é que fez os antigos governos sejam tão mal avaliados hoje”, explicou Sader.
O fim da União Soviética e assim da bipolarização do mundo, deu aos Estados Unidos da América a liberdade necessária para agir de acordo com os seus interesses e de interferir em qualquer parte do mundo. As intervenções militares, de forma direta ou indireta, colaboraram para a desestabilização de governos e acabou sufocando os movimentos sociais contrários aos seus interesses.
Além da presença por meio da força física, outro artífice usado foi a indústria cultural- comunicacional estaduniense. Ao englobar a cultura à lógica do mercado de consumo eles conseguiram disseminar os seus valores e idéias e, mais do que isso, transformá-los em pensamento único, verdades absolutas. Sader aponta dois exemplos dessa substituição de conceitos: “ Democracia liberal, que é a que temos na maioria dos países, virou sinônimo de democracia, tanto que nem se usa mais a palavra liberal. O mesmo aconteceu com economia capitalista, a impressão que se tem é que economia capitalista é a única economia possível”
Os governos mais progressistas da América Latina são, portanto, importantes não só para os seus povos, mas, também, para todos os países que querem construir projetos de sociedades mais preocupados com as pessoas do que com os lucros. Questionado se a América Latina vive só uma fase ou processo estável de transformação, Emir Sader responde: “em alguns casos o processo vai continuar, como Bolívia e Uruguai , Argentina e Brasil são os próximos. O povo vai decidir se o governo Lula é um parênteses ou uma ponte para se sair desse modelo. A decisão de continuidade cabe aos povos”.
Proximidade cultural
O bom momento econômico da América Latina e a preocupação dos seus líderes em estabelecer políticas e parcerias comuns têm proporcionado uma aproximação e mais diálogo entre os seus países.  Oliveira (USP) acredita que é importante aproveitar essa oportunidade para conhecermos melhor os novos vizinhos. “Um dos lemas do CELACC é ‘conhecer para transformar’, o simpósio tem esse objetivo de produzir a troca de experiências de produção cultura e social”
Para o professor da USP, esse distanciamento se deu, principalmente, por causa das elites que controlaram os países desde o período colonial. Elas sempre tiveram um “olhar para fora, para a elite dominante da vez”. Ao alinharem os seus interesses aos das nações mais poderosas, as relações intercontinentais eram ignoradas ou relegadas.
Esse posicionamento político e econômico acabou interferindo negativamente na relação cultural entre os países da América Latina, porque também nesse assunto as elites privilegiavam a Europa ou Estados Unidos. Quanto a isso, Dennis Oliveira considera que “esse olhar para Europa que as elites possuem é um olhar de submissão e não é possível você olhar uma cultura que é totalmente diferente e que foi opressora no processo de integração.”
A nova postura dos atuais governos latinoamericanos, pelo menos aqueles que se posicionam como antiliberais, tem colaborado na criação de relações não só econômicas como também culturais, sociais e educacionais.
Quanto à relação do Brasil com o restante da América Latina, Oliveira concordou com a ideia de que os brasileiros não se sentem latinoamericanos. Segundo ele, isso de fato acontece e se deve a preferência dos grupos dominantes em consumirem e reproduzirem a cultura européia e, ultimamente, estadunidense. No entanto, esse quadro tem mudado nos últimos anos, principalmente pelo papel de líder do continente que o Brasil tem assumido.
A média da comunicação
O debate da comunicação foi apresentado como extremamente importante para a compreensão do continente. A veiculação e produção cultural dentro da lógica de mercado, a função da mídia no debate público e o quadro de disputa dos grupos hegemônicos com o governos foram alguns dos pontos debatidos.
A professora doutora Mariângela Haswani Furlan (ECA/USP), disse ter percebido uma abordagem muito interessante da indústria cultural. Os trabalhos apresentados no Simpósio não se limitaram a criticar a relação, algumas vezes perversa, da cultura e indústrias, mas souberam perceber que ela pode ser um importante meio de divulgação e consumo dos bens culturais.
Para o professor Dennis Oliveira a grande concentração dos meios midiáticos na América Latina é a responsável por tirar do público o direito de se manifestar, de ter voz. Os governos progressistas, os quais estão sendo acusados de desejo de controlar a mídia e restringir a liberdade de expressão, na verdade, buscam garantir, através da regulamentação, a participação dos grupos sociais dentro dos espaços públicos de comunicação que, por serem concessões, pertencem a nação e não a pequeno grupos.
Próximos Passos
Tanto Emir como o Dennis julgam como bastante interessante e com um grande potencial o atual momento do continente. Porém, de acordo com os professores, é preciso observar com atenção esse processo, pois há forças externas contrárias a ele.
O professor Dennis confessou ter se surpreendido com a participação do público e com o grande número de trabalhos inscritos, ambos os números praticamente duplicaram, sendo que nesse III Simpósio foram apresentados 200 trabalhos e feitas 600 inscrições.
Segundo ele, isso é um indicador que a temática da América Latina vem atraindo um interesse maior tanto dos pesquisadores como do público em geral. Talvez, no futuro tenhamos uma América Latina para latinoamericanos.
(*) Paulo Pastor de Carvalho é estudante de jornalismo. Colaborou Alessandra Possebon.

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