Não apenas os europeus, asiáticos e africanos têm os seus motivos para sair às ruas em grandes manifestações de protesto e de luta. Nas últimas semanas, as explosões de protestos pipocaram pelo mundo. Marchas, passeatas, concentrações – pelos mais variados motivos, mas, no geral, para defender liberdade, democracia, direitos, enfim, a demanda por um mundo melhor do que o atual, que tem sido degradado por modelo econômico predador e políticos e governos autoritários, omissos, decadentes ou simplesmente indiferentes às demandas populares.
Aqui, no Brasil, também temos manifestações: desde o começo de janeiro que estudantes e trabalhadores – de São Paulo e de outras capitais – protestam contra os aumentos dos serviços públicos de transportes. As passagens dos ônibus e de metrô foram reajustadas muito acima da inflação e dos reajustes salariais. Andar de ônibus e de metrô nas principais cidades brasileiras representa um peso inaceitável para quem precisa estudar e trabalhar. A privatização do transporte coletivo tira o pão da boca de muitas famílias.
A luta para a redução de tarifas tem sido tratada – pelas autoridades municipais, estaduais e federais – como caso de polícia, alvo de forte repressão. O Brasil todo viu – pela TV e pela Internet – como a Guarda Civil Metropolitana e a Polícia Militar utilizaram a truculência para reprimir uma dessas manifestações, quinta-feira, dia 17 de fevereiro, no centro de São Paulo, em frente à sede da Prefeitura Municipal, com o espancamento de populares, jornalistas e de três vereadores do PT.
Nesses dias, também, moradores de Belo Horizonte (MG) e do Rio de Janeiro (RJ) realizaram manifestações de protestos contra o despejo de comunidades que estão no caminho das obras viárias da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016). A especulação imobiliária fala mais alto do que o direito de moradia dos cidadãos. E as autoridades usam a truculência típica das ditaduras para “limpar” ocupações, assentamentos e bairros pobres – em nome do progresso e, particularmente, do lucro que alguns grupos terão com os megaeventos esportivos.
O Brasil e os brasileiros têm outros bons motivos para sair às ruas, protestar, lutar, fazer manifestações que sejam capazes de mudar essa história (pre)determinada pelos interesses econômicos das elites e do capital nacional e internacional. É claro que em cada cidade, região, comunidade, existe uma agenda específica de lutas que justifica a realização de protestos e manifestações, desde colocar o prefeito corrupto na cadeia, até exigir que as escolas públicas funcionem verdadeiramente com qualidade.
Da mesma forma, o País tem inúmeros motivos de dimensão nacional que justificariam a união do povo brasileiro, o fim da apatia e o surgimento de uma onda de manifestações. Alguns motivos para protestar são:
– A defesa dos povos do Xingu contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, que é uma obra faraônica que vai consumir uma quantidade enorme de recursos públicos para um retorno energético pífio, sem contar o estrago ambiental e a destruição do acervo cultural e antropológico dos povos indígenas que habitam aquela região do Pará.
– A luta contra a aprovação do projeto de lei do novo Código Florestal, em tramitação no Congresso Nacional, e que possibilita a aceleração do processo de destruição da floresta amazônica, do cerrado e das matas protetoras dos rios e dos morros. O projeto do código, do jeito que está só serve aos interesses da especulação imobiliária, do agronegócio e dos destruidores da natureza.
– A luta pela nacionalização do petróleo do pré-sal e sua exploração racional conforme as necessidades do Brasil. Não permitir que esses importantes recursos dos brasileiros sejam entregues para o capital estrangeiro, e nem que a riqueza do pré-sal seja retirada a toque de caixa para manter o padrão de vida e o modelo energético dos Estados Unidos. Defender a exploração racional do pré-sal é algo estratégico para reduzir as desigualdades e construir um Brasil mais equilibrado econômica, social e ambientalmente.
– A democratização dos meios de comunicação; a universalização do ensino médio e superior público e gratuito; sistema público de saúde com excelente atendimento de qualidade; a imediata reforma agrária com amplo apoio estatal; acabar com o déficit habitacional, especialmente das populações que vivem em áreas de risco; promover a geração de empregos com aumento real dos salários.
Algumas dessas demandas são velhas conhecidas do povo brasileiro. Elas têm sido cantadas em prosa e verso desde o início da República, há mais de cem anos. Todos os governos as colocam no rol das promessas. Poucos conseguiram realmente avançar nas realizações. A paciência dos brasileiros tem sido muito maior do que a de outros povos – na Europa e na América Latina. Agora, a onda de protestos atinge países que também estavam em aparente acomodação social.
Não será surpresa que venham a ocorrer grandes manifestações populares aqui, convocadas por diferentes meios, apesar da passividade de partidos políticos e de entidades sindicais institucionalizados e domesticados pelos interesses dos grupos econômicos que mandam no País. A onda de protestos pode estar apenas começando – é o grito legítimo dos que clamam por outro rumo para a humanidade.
(*) Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor. Artigo publicado originalmente na página da Caros Amigos.

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Temos acompanhados nesses últimos dias uma onda de protesto em vários cantos do mundo. Queda de ditadores que há anos estavam no poder. Uma onda crescente que está influenciando nos quatro cantos do planeta.
No Brasil também acompanhamos os estudantes, trabalhadores e sindicalistas sofrendo uma forte repressão policial na manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus, no Estado de São Paulo.
“Engraçado” é ver as nossas autoridades condenando o uso da violência na líbia, como se aqui não fosse feito uso da violência para reprimir a manifestação popular.
Se os manifestantes respondessem a altura do tratamento recebido, certamente seriam executados em meio ao movimento.
Vergonha Nacional essa falsa democracia.