Já há algum tempo que o Brasil vive um certo clima de otimismo: bons níveis relativos de crescimento econômico, atração de investimentos estrangeiros, ascensão das classes C e D, Copa do Mundo, Olimpíadas e pré-sal são alguns dos aspectos que vêm sendo incansavelmente destacados pelo governo e pela mídia, tanto em âmbito nacional quanto internacional, sustentando o sentimento de euforia.
No entanto, muitos problemas do velho Brasil – aquele país do futuro, como cunhado por Stefan Zweig, que nunca deslanchava – parecem perdurar, sem dar indicativos de que não mais serão parte inerente da estrutura do país. São aspectos negativos clássicos, velhos conhecidos de nossa sociedade, tais quais péssima distribuição de renda, corrupção, falta de planejamento urbano, analfabetismo funcional, entre tantos outros.
Um deles, porém, ganhou mais um lamentável capítulo esta semana, o que mostra seu ainda forte enraizamento no espectro da segurança pública brasileira. O capitão Dennys Bizarro, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, aquele que foi FILMADO tirando os pertences do coordenador do grupo AfroReggae, Evandro João da Silva, das mãos do bandido que o acabara de MATAR, está fazendo um curso de reciclagem na PM, podendo ser,inclusive, promovido a Major.

Isto é, um profissional que deveria, por ofício, proteger um cidadão, não faz o serviço pelo qual é pago, não prende o bandido, ROUBA os pertences da vítima e, depois de tudo isso, não só está em liberdade; não só não foi expulso da PM, como poderá assumir o posto de Major.
Embora este pareça ser, à primeira vista, um problema pontual e, apesar da corrupção e violência das polícias militares brasileiras não configurarem uma questão que, em termos macroeconômicos e políticos, tenha tanta relevância, o caso do Capitão Bizarro é simbólico por exemplificar, com muita propriedade, o modo como se dão as relações entre autoridades e a sociedade no Brasil (neste caso, metaforicamente), e do abismo que separa esses dois mundos.
Neste país, repete-se a velha história do corporativismo que permeia as relações internas das instituições, órgãos e repartições públicas nacionais. Não importa o malfeito que se tenha cometido, seus colegas estarão sempre a seu lado. Não por acaso, o discurso da maioria dos deputados e senadores durante as midiáticas comissões parlamentares de inquérito (CPIs) é, via de regra, de natureza apaziguadora, em defesa da honra do político acusado,que, afinal, é só mais um vítima da mídia golpista e de uma oposição tresloucada.
Enquanto isso, ao passo que o representante político desvia milhões de reais, experimente você, reles cidadão, roubar uma caixa de leite no supermercado. Se for pego, dormirá na cadeia. Se for pobre, apodrecerá ali.
Mas, voltando ao caso Bizarro (não poderia ser mais significativo, neste contexto, o nome de guerra do sujeito), um dos indicativos de que o país não evolui no que se refere à formação e atuação, em termos gerais, dos policiais militares brasileiros, ou melhor, da instituição “Polícia Militar” – a maior culpada, junto ao governo federal e governos estaduais, pelo comportamento de cada profissional que ingressa na corporação –, pode ser constatado a partir da leitura do livro Rota 66, do jornalista Caco Barcelos.
A obra, baseada num trabalho de investigação de oito anos, mostra que as chamadas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), os grupamentos de elite da Polícia Militar de São Paulo, funcionavam basicamente como grupos de extermínio, tendo provocado milhares de mortes de inocentes ou, quando não era o caso, de pequenos infratores que não ofereciam maiores riscos à sociedade e, mesmo assim, ao invés de serem presos, era mortos covardemente, geralmente com tiros pelas costas, na cabeça ou à queima-roupa.
Barcelos mostra que os policiais tinham um método para encobrir seus delitos: após matar as vítimas, eles retiravam os corpos da cena do crime, os colocavam no camburão e os largavam em qualquer hospital. Assim, dificultavam qualquer tipo de investigação, já que a cena do crime era totalmente alterada.
Todo esse esforço, contudo, não bastaria para que saíssem impunes, não fosse o tal do corporativismo. Isso porque, nas poucas vezes em que familiares das vítimas conseguiam pressionar as autoridades para que fosse instaurado um Inquérito Policial-Militar (IPM), o veredicto final era quase sempre o mesmo: o policial era considerado a vítima, pois apenas reagira aos tiros do criminoso (o qual, em muitos casos, como Barcelos constatou, sequer portava uma arma) e, portanto, era inocentado.
Pois bem, nosso simpático Capitão Bizarro acaba de ser absolvido pelo Conselho de Justificação (CJ) da Polícia Militar, que deve, por certo, ter encontrado “ótimas” justificativas para não condená-lo. O interessante aqui é a forma pela qual o oficial chegou até o CJ: tudo começou com mais um dos prestigiosos IPMs, o qual foi despachado, no ano passado, para uma auditoria da Polícia Militar. Ou seja, “tudo em casa”, ou melhor, “você é nosso e nós somos teu”, certo Vacarezza?

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