O aleijado às avessas

Zarathustra, o solitário profeta que um dia desceu da montanha, comenta, espantado:

“Desde que vivo entre os homens, porém, o que menos me importa é ver que a este falta um olho, àquele um ouvido, a um terceiro a perna, ou que haja outros que perderam a língua, o nariz ou a cabeça.

Vejo e já vi coisas piores: e as há tão espantosas, que não quereria falar de todas elas nem também calar-me sobre alguma, a saber: há homens que carecem de tudo, conquanto tenham qualquer coisa em excesso – homens que são ùnicamente um grande olho, ou uma grande boca, ou um grande ventre, ou qualquer outra coisa grande. – A esses chamo eu aleijados às avessas” (Friedrich Nietzsche, Assim falou Zarathustra).

O treinamento perceptivo unilateral, próprio do capitalismo, levou a um superdesenvolvimento do sentido intelectual, do pensamento lógico racional que interpreta para calcular, prever, controlar ou reprimir o que desconhece, o que o amedronta, ou o que é inútil.

E nada apavora mais o inseto intelectualista do que as emoções, a intuição, o imprevisível.

Aprendendo a pensar sobre tudo, instala-se no sujeito uma mediação intelectual lógica como equivalente geral de toda percepção (intuitiva, emocional, sensorial, onírica, etc.). A
pessoa pensa em vez de agir. Esse contínuo pensar sobre tudo é chamado de “diálogo interno”.

A perda de sentidos referida na fala de Zarathustra, é também uma perda de percepção, uma diminuição na capacidade de nos apropriarmos do mundo, de nos apropriarmos sensorialmente (através dos nossos sentidos físicos, emocionais, intelectuais, espirituais) da realidade.

Numa prisão solitária, uma pessoa perde a noção de realidade, por perder a possiblidade de se relacionar com o mundo físico e social. Experiências traumáticas criam bloqueios corporais, diminuindo a mobilidade física e a sensibilidade, bem como a capacidade respiratória. Tente ter pensamentos depressivos respirando fundo. Tente ficar alegre sem respirar.

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