Nova Friburgo: “Existe falta de coordenação e informação para a sociedade”

Foto: Nelson Alvarez

Em entrevista ao Fazendo Media, o presidente da Associação de Arquitetos e Engenheiros da Nova Friburgo, José Augusto Spinelli, fala como está a situação do município depois do temporal no início do ano que matou 451 pessoas. Na semana passada os moradores ficaram apavorados com as chuvas que deixaram a cidade alagada.
Segundo alguns engenheiros da região, ainda falta informação à população. Eles relataram que uma sirene foi instalada e no dia do ensaio não aconteceu nada. Apenas colocaram um carro de som informando precariamente: “Foi uma frustração, e no meio da semana tocou sem aviso nenhum”, disse outro engenheiro, observando que ainda estão previstos outros testes.
Spinelli diz que as obras em andamento não chegam a 1% do que está previsto para Friburgo, e adverte que as chuvas de verão podem trazer novos problemas.
Qual e a situação atual de Nova Friburgo, após o desastre?
Falta os projetos entrarem em pauta. Aumentaram as dificuldades, os rios estão assoreados, a chuva do último sábado (22) subiu um palmo de água nas ruas, e os bueiros estão obstruídos. A população fica apavorada. Mas a prevenção tem avançado, inclusive com a iniciativa privada.
Além da esperança, temos quase certeza matemática que não haverá uma chuva como aquela. Houve uma chuva que na meteorologia é estatisticamente impossível de acontecer, segundo o especialista Paulo Canedo. Esquecendo o passado, no ano que vem em janeiro é 1/500 para acontecer a mesma quantidade de chuva. Se você considerar o histórico, dois anos seguidos é 1/250 mil em termos de precipitação pluviométrica no mesmo local e intensidade. Chuva de verão vai haver, então a nossa preocupação é a prevenção dos locais que já eram de risco e outros que passaram a ser.
Está havendo uma movimentação de ONG’s, ou seja, estão cadastrando as pessoas da área de risco, distribuindo celulares para os líderes locais, rádio amador, aviso do rádio de Friburgo e rotas de fugas para abrigos em cada localidade. Há uma preocupação de evitar mortes, porque possivelmente vai ocorrer algum acidente geológico no verão. Mas em lugares que já estão muito ruins pode vir a piorar. A primeira preocupação, já que as verbas federais, estaduais e municipais são muito demoradas por causa das explicações que têm que ser dadas aos tribunais e ao Ministério Público, é que tudo é muito lento.
A ideia é diminuir ao máximo o número de possíveis vítimas, ou seja, diminuir o risco para cada localidade que sabidamente é área de risco. Naquele centro meteorológico feito pela prefeitura do Rio, que é considerado supra-sumo do Brasil, baseado em tecnologia da Nasa, agora tem 3 técnicos à disposição da região serrana. Ou seja, eles vão conseguir monitorar isso com mais precisão, porque o equipamento é de última geração. Isso melhorou o alerta para avisar a população. Tem grupos se formando, o Codenf (Comissão de Desenvolvimento de Nova Friburgo) foi criado para pensar o município por 10 anos.
Como você avalia a reconstrução da cidade, do ponto de vista da engenharia?
A secretaria de Meio Ambiente levantou 2.400 e poucas áreas de riscos eminentes ou acidentes. O governo do Estado levantou 741 de riscos maiores, dessas 2.400. Tem cento e poucos projetos sendo feitos, e dessas 741 exigências tem 8 obras em andamento no centro da cidade. Do que aconteceu para agora, se você for considerar por percentual de execução de obra, é 1%. Por enquanto as prioridades são essas obras no centro da cidade, mas eu acho que deveriam partir para um bairro chamado Conselheiro Paulino, que tem áreas extremamente em risco e densamente povoadas. Ali tem que ser uma coisa correndo, no Três irmãos, Alto Floresta, Lazareto. Isso é uma coisa que vai haver problema nesse verão, não vai ser daquele jeito que foi mas vai ter escorregamento e lama. Teve no sábado passado, as ruas ficaram completamente cheias de lama porque tem barrancos completamente descobertos. Então encheu as ruas e isso apavora as pessoas pelo o que aconteceu. Se eu tivesse a ordem de execução eu diria a você que botaria 80 lugares em primeira necessidade para começar segunda-feira, antes do verão. Mas com a lentidão da burocracia tem 8.
E o diálogo com a sociedade, as pessoas estão sendo informadas?
Há muito pouca informação do governo estadual, e muitíssimo menos do governo federal. Inclusive entre eles, os órgãos do estado não sabem o que outro sabe. Em muitas reuniões que eu participei perguntamos aonde está o projeto, e eles respondiam que iam procurar onde está. Às vezes o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) está fazendo uma coisa que é do Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro (DRM), e este está pensando num projeto mas que a Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop) está executando uma outra coisa correlata. Entendeu? Existe uma falta de coordenação e, mais importante, informação para a sociedade. Mesmo que houvesse poucas divergências, se existisse informações claras para a sociedade daria outra transparência e tranquilidade à população. É o que não está havendo, e se você for perguntar aos órgãos de estado eles não sabem.
E a questão da corrupção, nos desvios das verbas públicas em Friburgo?
O que está acontecendo é que dos R$ 10 milhões que vieram está se discutindo um pagamento de R$ 200 mil, porque a empreiteira recebeu na boca do caixa estranhamente, mas a obra foi feita. Está se discutindo também uma de R$ 700 mil que é a dedetização e limpeza, e outra de R$ 100 mil e pouco. Somando tudo está se discutindo perto de R$ 1 milhão. Estão olhando o processo, o que não quer dizer que tenha havido roubo. Ainda não descobriram nada, deu erro processual, montagem de processo errado, coisas que acontecem até fora da hora do aperto.

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