Embora já esperada, a derrota de Marcelo Freixo (PSOL) nas urnas cariocas vem sendo, claro, lamentada por seus eleitores. O próprio deputado, no entanto, já se mostrou bastante satisfeito com o resultado obtido nas últimas eleições municipais. Afinal, não seria exagerado considerar uma verdadeira vitória a obtenção de mais de 900 mil votos (cerca de 27% do total), além da ampliação de um para quatro representantes na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Tudo isso contra um candidato que teve de fazer coligações com 20 partidos para garantir um espaço de 16 minutos de televisão, contra 1 minuto de Freixo, e contar com recursos milionários financiados por “doadores” que, certamente, cobrarão “juros” no futuro.
Tudo isso contra um candidato que, nitidamente, tem a Grande Mídia a seu favor, fato que guarda estreita ligação com aspectos como o aumento da sensação de segurança e ordem nas áreas mais nobres da cidade. Resultado este de um conjunto de políticas cosméticas para “inglês ver” durante a Copa e Olimpíadas, cuja sustentabilidade e eficácia são absolutamente discutíveis – vide o caso das UPPs, que são cerca de 20 em um universo de mais de mil favelas, o que simplesmente desloca a violência e, no final das contas, mantém a relação governo-favela baseada no aparelho repressor do Estado.
Tudo isso contra o conservadorismo das camadas mais abastadas da população, que, claro, estão felizes com as “melhorias” na cidade, já que seus imóveis triplicaram de preço nos últimos anos, e não querem arriscar ver o Rio recebendo menos investimentos se o prefeito eleito for de oposição ao governo federal – como se esse fosse um critério razoável para votar ou não em tal candidato.
Tudo isso contra o conservadorismo da outra ala, das classes mais pobres e/ou menos instruídas, mais suscetíveis à propaganda disfarçada de jornalismo que os grandes veículos de comunicação têm feito em relação a determinadas políticas do governo de situação. De pessoas que, de tão humildes, se contentam com políticas assistencialistas, as quais, não obstante, perpetuam sua condição miserável. De uma classe C, que, sem notar que está se afundando no crédito fácil, está radiante por poder comprar novos eletrodomésticos, mas não se importa de continuar a viver em um barraco ao lado de uma vala de esgoto.
Tudo isso contra um sistema político que, por todas as suas brechas, acaba favorecendo a manutenção de práticas prejudiciais ao tipo de desenvolvimento que realmente seria interessante para o povo carioca, isto é, que implique em reformas estruturais no transporte, na saúde, educação e habitação. Pois, em quatro anos, em boa parte dos quais os políticos trabalham de maneira fisiológica – visando exclusivamente à permanência no cargo –, o que mais rende votos são projetos de visibilidade, espetaculares, como grandes obras rodoviárias, piscinões e UPPs.
Foram justas as eleições? No plano legal, sim. No plano moral, de jeito nenhum.

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