‘Nem só de trabalho vive o homem’: Fábrica ocupada promove festival de cultura

Foto: Natasha Mota.

A célebre música de Chico Buarque “Pedro Pedreiro” conta a história de um trabalhador que passa os seus dias a esperar uma vida melhor, um descanso do trabalho, a volta para sua terra natal. “…Talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo… mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais”, diz a letra.
Ao menos para os trabalhadores da Fábrica Ocupada Flaskô, Pedro Pedreiro já não precisa mais ter medo de sonhar, de esperar que a vida ofereça outras oportunidades que não seja a jornada de trabalho do próximo dia.
Entre os dias 12 e 14 de Agosto, foi realizado dentro da fábrica o 2º Festival de Cultura Flaskô. O evento aberto para a toda comunidade atraiu trabalhadores e principalmente universitários interessados em conhecer a fábrica que desde de 2003, ano que os patrões declararam falência, é controlada pelos próprios funcionários.
De acordo com Pedro Além Santinho, coordenador da fábrica, a preocupação com a questão cultural na Flaskô surgiu naturalmente. “Após termos assumido o controle da fábrica percebemos que havia muito espaço ocioso e que poderíamos usar este espaço para oferecer outras atividades como dança, aulas de judô, aulas de música, entre outros”, explica Pedro
Batata, ou Rafael Dias, responsável pela organização cultural, comenta que o festival tem como objetivo oferecer aos trabalhadores e a comunidade manifestações culturais que estão fora do circuito comercial.
“Alguns trabalhadores nunca tinham visto uma peça de teatro, então é muito positivo proporcionar isso. Mas, é óbvio que se fosse um show com o Luan santanna viria bem mais gente”, avalia Batata
Segundo os organizadores, a divulgação da luta dos trabalhadores e a estatização da fábrica são os outros objetivos do festival. De fato, a visita guiada pelas instalações da Flaskô foi uma das atividades que mais despertou o interesse dos visitantes.
Mas isto é teatro?

Foto: Natasha Mota.

Durante o festival foram apresentadas três peças. As exibições começaram com a “Brava Companhia“, que apresentou uma versão dinâmica e com toque de humor da saga de Joanna D’Arc. O texto valorizou a necessidade que o ser humano tem de ser livre, de questionar as estruturas existentes e como aqueles que controlam a sociedade se movimentam para impedir que isto aconteça.
No segundo dia foi a vez da companhia “Dolores” apresentar o espetáculo “Conjugado”, um retrato vívido e sem esteriótipos da vida nas periferias das grandes cidades. A última apresentação ficou por conta da companhia “Estável“, que inspirada em texto de Bertold Brecht contou a história ” A exceção e a regra”, uma viagem em meio ao deserto que expõe o caráter desumano e cruel da relação entre patrões e chefes.
A relação entre cultura e política foi abordada em um dos grupos de discussão do evento. Para os participantes ficou claro que o teatro de cunho político cumpre o importante papel de ajudar na politização e na tomada de consciência do público, apesar de sofrerem preconceito da crítica que diz que tais grupos não fazem teatro de verdade.
Debate e música

Foto: Natasha Mota.

Além das apresentações teatrais, o festival contou com apresentações de samba-rock, reggae e com a participação especial da Unidos da Lona Preta, escola de samba do MST. Também foi exibido o documentário “Carne e Osso”, produzido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. A obra retrata a precarizaçãp do trabalho dentro dos frigoríficos.
Carlos Barros, integrante da Repórter Brasil, participou de um debate após a exibição do documentário e lamentou que, apesar da realidade dos frigoríficos ser conhecida pelas autoridades, ainda não existem medidas que modifiquem a vida destes trabalhadores.
Carolina Chmielewski, que participa do grupo teatral Cassandra, ajudou a organizar o festival e comentou que as atividades culturais na Flaskô estão se fortalecendo e isso colabora para que sejam criadas mais parcerias. “Antes tínhamos o trabalho de ir atrás de grupos para participar das atividades aqui, agora nós somos procurados”, comemora.
História
Além de evitar a demissão dos funcionários da Flaskô, a autogestão ao longo dos oito anos também garantiu a redução da jornada de trabalho de 44 para 30 horas semanais e a construção da vila operária, com 564 moradias.
Atualmente os trabalhadores lutam pelo reconhecimento do interesse social da Flaskô, devido às atividades sociais que ela tem prestado à sociedade, e pela estatização da empresa .
A fábrica tem sofrido fortes pressões como o corte de energia, ameaça de intervenção, a possibilidade de ser declarada a falência jurídica e até o leilão de equipamentos.
(*) Paulo Pastor Monteiro é estudante de jornalismo da Unesp-Bauru. Fotos: Natasha Mota.

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