Casos como a fatídica (porque não premeditada) invasão de um bando armado ao hotel Intercontinental, no Rio de Janeiro, levam cariocas e brasileiros a, mais uma vez, lamentar as freqüentes cenas de violência na cidade e no país e a pensar quando terá fim esse grave problema social.
Muitos exigirão, após fatos como esse, uma resposta imediata por parte das autoridades, como um leitor que escreveu carta ao jornal “O Globo” na qual constava a seguinte afirmação: “…só com estado de sítio e aplicação violenta do poder militar poderá se inibir o crime organizado”.
Nesses momentos, o fascismo parece imperar tanto em função da tórrida sede de vingança de parte da população – que, claro, sofre com o sentimento de insegurança e vulnerabilidade – quanto por parte das autoridades, as quais, na ânsia de mostrar serviço, tendem a optar por ações mais plásticas e visíveis, como incursões policiais em favelas em que bandidos (ou não…) são baleados, presos ou mortos.
No entanto, é imperativo assinalar que, por mais compreensível e, de fato, desejosa, que seja a ideia de acabar por completo com a violência, tal questão não pode ser tratada como um simples problema a ser eliminado por se tratar, acima de tudo, de um sintoma social.
Há diversas razões, de base racional ou não, pelas quais conflitos ocorrem constantemente no mundo desde os mais remotos tempos. Sob um viés biológico-darwinista, pode-se conjecturar que há relações entre a violência e a seleção natural e, portanto, o problema estaria destarte incrustado em nossos instintos. Já sob uma perspectiva político-econômica, diversas teorias poderiam ser levadas em consideração, desde a luta de classes marxista e seus derivados aos efeitos nocivos da globalização contemporânea, fenômeno comumente responsabilizado pela supressão de diferenças e intensificação da concentração de capital, o que estaria por trás da elevação do número de casos de violência. Já em termos culturais, pode-se pensar, por exemplo, sobre o efeito da agressiva publicidade sobre as pessoas, bem como do discurso jornalístico e de diversas áreas do conhecimento, que têm alguma influência na conformação do pensamento e, por conseguinte, no comportamento humanos.
É possível, talvez, que uma das formas mais coerentes e desapaixonadas (possíveis) de pensar a respeito disso seja levando em conta preceitos como o da filosofia oriental do Yin e Yang, que mostram como o dia não existe sem a noite, isto é, que a ideia de claridade inexiste sem o conceito de escuridão, assim como o bem sem o mal, o belo sem o feio, a segurança e bem estar social sem o seu oposto, e assim por diante. Pode ser frustrante, mas essa lógica tem o valor de apontar como, no final das contas, o ser humano só é capaz de perceber algo que lhe satisfaz a partir do momento em que tem consciência daquilo que lhe provoca desprazer. Por isso, a própria concepção de paz só pôde ser cunhada devido à existência de conflitos, guerras e mortes entre homens.
Vale lembrar que, de acordo com Freud, o sujeito é não só movido pela pulsão de vida, a qual estaria na base do impulso pelo relacionamento social, como pela pulsão de morte, exacerbação superegóica que, se emprestada como referência ao organismo social (numa coletivização do conceito que talvez não seja cabível segundo a teoria psicanalítica), pode também estar na raiz das matanças generalizadas que se dão por aí.
Não existe no mundo inteiro um país onde não há crimes. Claro que há aqueles onde a incidência é muito menor que a brasileira e, além disso, não envolve ações do crime organizado, fator que intensifica em muito os problemas de segurança pública. Mas, uma vez tomados como referência países das dimensões do Brasil – com mais de cem milhões de habitantes e diversas metrópoles com enormes aglomerados de pessoas – notar-se-á que tais problemas são recorrentes.
Máfias, como a chinesa, a italiana e a russa e a Yakuza japonesa, os cartéis de drogas mexicanos e os de Los Angeles, nos EUA, e as guerras civis na África: são exemplos de como o crime organizado ou, de maneira mais geral, os conflitos e a violência se dão em lugares de diferentes condições sociais. E, para além dessa esfera criminal, não se pode desconsiderar a recorrência de crimes das mais variadas estirpes em países do primeiro escalão do mundo desenvolvido, como Inglaterra e os países nórdicos.
É lógico que o que se deve fazer é procurar combater, mitigar ou reduzir o escopo de atuação de grupos criminosos, bem como as decisões políticas que contribuem para que essas situações perdurem. Porém, é imprescindível que o fundamentalismo, a hipocrisia e o demagogismo não conduzam essa luta. Afinal, é absolutamente infrutífero estabelecer metas como a resolução total dos problemas ligados à segurança pública ou a eliminação por completo da violência nas sociedades. No máximo, isso pode servir como paradigma, a fim de nortear ações para lidar com essa questão. O que não pode ocorrer é a aceitação inconteste de ações políticas (não raro transgressoras dos direitos humanos) que prometem milagres…sempre em troca de votos.

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