
| Crédito: Tomas Rangel / Biblioteca Pública do Paraná
‘A recente chacina no RJ faz parte de um processo que existe há quase 500 anos’, avalia finalista do prêmio Jabuti.
Ana Carolina Vasconcelos e Lucas Salum / Brasil de Fato – Conversa Bem Viver,
“A história do Rio é a história de vários genocídios”, enfatiza o escritor Alberto Mussa, que foi finalista do Prêmio Jabuti este ano com a obra A Extraordinária Zona Norte, um romance policial que se passa na zona norte do Rio de Janeiro, nos anos 70, em meio à ditadura militar.
O livro, assim como outras produções do autor, é atravessado pelo contexto de violência sistêmica que marca a capital fluminense, misturando ficção e realidade. Nele, Mussa conta a história do desaparecimento de um detetive, mostrando como a cultura, em especial a do samba, e o crime organizado fazem parte da dinâmica da cidade.
Diante da maior chacina da história do Rio de Janeiro, que aconteceu no dia 28 de outubro deste ano e deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, o escritor, que também já foi vencedor dos prêmios Casa de las Américas e Oceanos e tem obras publicadas em 19 países, explica como os genocídios fazem parte da história do estado.
“Não é possível contar a história do Rio de Janeiro sem abordar o aspecto dos genocídios. Chamo de genocídios no plural porque, embora às vezes não sejam completos ou absolutos, são sistemáticos. O exemplo recente faz parte do mesmo processo que existe há quase 500 anos, desde que a região começou a ser frequentada por europeus. São mais de 400 anos de história formal da cidade em que os genocídios são uma característica presente”, afirma, em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Para ele, a persistência histórica desse problema tem raízes em duas dimensões: a ausência de educação de qualidade e um Estado que executa políticas que favorecem a criminalidade. Mussa também destaca que, por se tratar de uma questão sistêmica, o enfrentamento ao crime passa, necessariamente, pela superação da atual estrutura capitalista da sociedade.
“Temos uma população com educação sucateada e um Estado que permite a instalação desses grupos e, quando decide “combater”, mata inocentes. O capitalismo pressupõe o crime. Uma sociedade que tem polícia precisa do crime para justificar suas instituições. Na sociedade capitalista em que vivemos, as crises são alimentadas pelo próprio funcionamento do sistema. Não há como vislumbrar mudança sem mudar a estrutura completa da sociedade”, argumenta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Qual é o enredo do livro A Extraordinária Zona Norte?
Alberto Mussa – A Extraordinária Zona Norte foi a primeira obra em que empreguei, na ficção, elementos da minha vida, da minha biografia, e de experiências de vida. Eu nasci no Grajaú e era de uma família financeiramente muito bem-sucedida. Meu pai tinha bastante condição. Morávamos em uma casa grande, cheia de livros. No entanto, eu não tinha muitos amigos entre os meus colegas de bairro. Fiz muitas amizades, na verdade, com a rapaziada do Morro do Andaraí.
Eu era muito ligado à capoeira e à umbanda. Fui levado para a umbanda pela minha mãe e descobri a capoeira sozinho. Pelo meu tio Didi, que era compositor do Salgueiro e da União da Ilha, comecei a frequentar escolas de samba desde pequeno. Esses ambientes ligados à cultura popular afrodescendente — samba, capoeira, macumba — sempre foram uma grande paixão para mim. Toda a minha juventude se passou muito ligada a esses ambientes.
Como escritor, eu era um autor de romances históricos, policiais e de adultério, mas sempre com foco na história. Mesmo as obras que não tratavam sobre o Rio de Janeiro tinham essa pegada mais vinculada à história do que à contemporaneidade.
Foi um desafio, de certa maneira. Quis pegar uma série, porque é a maneira como enxerguei a cidade desde jovem. Hoje, por exemplo, vivo na Zona Sul, um lugar que eu tinha medo de frequentar, porque achava as ruas muito grandes, os carros corriam muito e havia muita iluminação.
Eu passei a enxergar a cidade por meio dessa vivência: do jogo do bicho, do papo de boteco, do jogo de sueca na quitanda, do jogo de ronda (que já era algo mais perigoso), do futebol e das escolas de samba.
Tentei pensar em uma composição de enredo na qual pudesse trazer esses universos culturais que eram fundamentais para mim e que considero fundamentais para a cidade do Rio de Janeiro.
Pensamos no Rio como o cartão-postal da Zona Sul, mas a cultura do Rio de Janeiro é fundamentalmente criada na Zona Norte. Ela vem do centro da cidade em seus períodos mais históricos, mas as coisas mais criativas e originais desenvolvidas no contexto da cultura brasileira e universal surgiram nas populações que passaram a habitar a Zona Norte, após a gentrificação do centro do Rio no início do século 20, com o “afrancesamento” da cidade.
As populações operárias foram expulsas de lá, ocupando os chamados subúrbios e os morros. Foi daí que surgiu o Rio de Janeiro. O Rio surge nesses lugares. Não surge com o Cristo Redentor e muito menos com a praia. Aliás, o Rio de Janeiro é uma cidade litorânea que não tem tradição de comida marítima. É outra cultura, uma cultura interiorana. Nossa comida é meio mineira, meio nordestina.
A trama do livro envolve a polícia e o Esquadrão da Morte, que era muito presente na minha adolescência. Tínhamos um grupo de samba, por exemplo, e os policiais davam batidas partindo do princípio de que todos eram bandidos. Houve uma vez em que prenderam todos os meus amigos, menos eu. Aí você tem consciência do porquê exatamente todos foram presos, exceto eu: eu era o único branco do grupo.
Eu queria trazer essas coisas para dentro de um romance e foi um desafio. É uma história que também tem adultério, crime e um detetive que não resolve nada. Meus detetives normalmente não chegam a conclusão nenhuma. Quem chega à conclusão são os leitores, pelos dados que apresento. O personagem em si dificilmente descobre o crime, porque é o que acontece mais comumente na vida real: o detetive não resolve nada, o crime fica sem solução e sem punição.
Aí entra o universo fantástico da Umbanda, com uma guerra espiritual dos espíritos meninos. O livro é muito complexo, porque circula em todos esses universos. Acontece uma chacina em uma escola de samba e, oito ou dez anos depois, aparece um corpo no morro. As pessoas começam a achar que o cadáver é um dos compositores, que, por acaso, era detetive de polícia. As investigações são reabertas seguindo o protocolo policial e a história se desenrola.
Há também a presença do jogo do bicho em um sentido mitológico, a ideia de que os sonhos anunciam o bicho que vai dar. A descoberta de quem é o corpo e de quem matou sai exatamente por meio da interpretação dos resultados do bicho. Este é o esqueleto central da trama. Explicar as diversas relações dos personagens entre si pode ser confuso, mas o ambiente de A Extraordinária Zona Norte é basicamente esse: época da ditadura militar, anos 70, quando eu era adolescente.
Quem acompanha sua obra há mais tempo deve ter lido algum volume da série Compêndio Mítico, que possui cinco livros, um para cada século de história do Rio. Todos são perpassados pela violência. Recentemente, o Rio de Janeiro vivenciou uma chacina que deixou 121 mortos. Seus livros são uma resposta a essa violência generalizada?
Como a maioria dos romances é ambientada no Rio de Janeiro, a violência é algo natural. É mais fácil escrever sobre os lugares onde vivemos. No caso do romance histórico, posso visitar os sítios, ver os monumentos e me situar em pequenos detalhes.
A história do Rio de Janeiro que estudei para realizar esse projeto me chama muito a atenção por ser marcada pela violência e pelo genocídio. A história do Rio é a história de vários genocídios. A cidade começou por conta de um conflito entre Portugal e França. Estas terras pertenciam à Capitania de São Vicente, de Martim Afonso de Sousa, mas o trecho foi abandonado e desmembrado.
Depois virou uma Capitania Real. A coroa indenizou os herdeiros e tomou a terra, instalando uma organização colonial. Os primeiros genocídios foram contra os indígenas. Depois chegaram os africanos e, à medida que essa população cresceu, as repressões e exclusões começaram a acontecer de forma sistemática.
Não é possível contar a história do Rio de Janeiro sem abordar o aspecto dos genocídios. Chamo de genocídios no plural porque, embora às vezes não sejam completos ou absolutos, são sistemáticos. O exemplo recente faz parte do mesmo processo que existe há mais de 500 anos, desde que a região começou a ser frequentada por europeus. São mais de 400 anos de história formal da cidade em que os genocídios são uma característica presente.
Sobre a relação da literatura com a realidade, penso o seguinte: a literatura não tem uma função objetiva. Um livro de filosofia, de história ou jornalístico tem a função de informar ou trazer um pensamento crítico baseado em fatos. Para mim, a literatura faz parte do entretenimento.
Quando digo isso, muita gente interpreta como se eu achasse a literatura algo pequeno, mas não acho. Existe entretenimento de alto nível e de baixo nível. A literatura é um entretenimento de alto nível, um momento de lazer e prazer — e os momentos de prazer são os mais importantes da vida.
A maior parte das mitologias do mundo, incluindo a Bíblia e as tradições Tupinambá, considera o trabalho um castigo ou punição. O trabalho é ruim. O que é bom é o prazer e a diversão.
Dentro desse prazer sofisticado da literatura, você tem a capacidade de viver vidas que não são as suas e experiências pelas quais nunca passará. Ao ler uma personagem feminina de Clarice Lispector, por exemplo, eu, como homem, consigo ter uma noção dos seus conflitos e sentimentos, por meio da qualidade da escrita, algo que nunca experimentaria na vida real.
A literatura permite viver mais de uma vida no espaço de uma. É um enriquecimento humano imenso ler autores do mundo inteiro e de tempos históricos diferentes. A literatura pode ter uma relação com o real, se o leitor trouxer elementos da leitura para sua própria reflexão política e ética, mas essa não é uma função do autor. O autor deve se preocupar em ser o mais sincero consigo mesmo e ser o melhor possível.
Pesquisas de opinião mostraram que muitos condenaram quando o presidente Lula chamou o que ocorreu no Rio de Janeiro de “chacina”. Como mostrar que essa não é a forma mais adequada de combater a violência?
Essa questão é complexa e deve ser tratada com cautela. Não falo pela experiência real, pois vivo em um mundo à parte das comunidades, ou favelas, como se dizia antigamente. Não sou adepto de mudanças de nomenclatura, pois o preconceito está nas atitudes e não nas palavras. O que escuto de amigos é que os núcleos criminosos nessas áreas também são violentos, oprimem os moradores e trabalhadores, que acabam atribuindo a esses grupos a causa da discriminação que sofrem.
Para mim, a questão está em dois aspectos essenciais. Primeiro, a educação. O Brasil destruiu a educação pública para beneficiar instituições privadas. No Rio de Janeiro, a diferença de qualidade entre a escola pública e a privada é brutal, fruto da desvalorização criminosa do professor. Antes da ditadura, o investimento em educação era muito maior e a escola pública era excelente. Após 1964, o investimento caiu drasticamente, destruindo as condições de trabalho dos professores e a educação. É muito difícil conscientizar as pessoas por meio da literatura nesse cenário.
O segundo ponto é: por que existe o crime? Parece-me que, por questões morais, decidiu-se proibir determinadas drogas. Isso começou com a maconha. Mas, se as pessoas querem consumir algo proibido, cria-se um mercado paralelo. Além disso, como armas de alto poder de fogo entram tão facilmente no território? Como as Forças Armadas não conseguem impedir isso? São armas capazes até de abater aviões.
Então, temos uma população com educação sucateada e um Estado que permite a instalação desses grupos e, quando decide “combater”, mata inocentes.
Darcy Ribeiro dizia que “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Ele foi o único político para quem fiz campanha na juventude, na sucessão do saudoso Brizola. O projeto dos CIEPs, por exemplo, era espetacular e poderia ter colocado a cidade anos-luz à frente em desenvolvimento social.
Sobre acabar com o crime: o capitalismo pressupõe o crime. Uma sociedade que tem polícia precisa do crime para justificar suas instituições. Caso contrário, a sociedade seria autorregulável. Na sociedade capitalista em que vivemos, as crises são alimentadas pelo próprio funcionamento do sistema. Não há como vislumbrar mudança sem mudar a estrutura completa da sociedade.
Conversa Bem Viver

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Editado por: Nathallia Fonseca
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