Na lembrança, um bumba

Quando escrevi, no ano passado, um texto1 sobre os tristes acontecimentos do Morro do Bumba, em abril de 2010, logo fui perguntado sobre a motivação para o escrito. Tal indagação incomodou. Porque acreditei que a real situação em tal comunidade já era suficiente para a escrita. Mas, agora, próximo ao aniversário do texto, e após refletir por meses, resolvi entregar um pouco do ouro. Buscarei neste arrazoado explicar o porquê a tragédia mexeu comigo.
Não é fácil de detalhar, faz lembrar o passado e, às vezes, o ato de lembrar na modernidade falta. Na verdade, faz falta. Não que a lembrança não seja sofrida, ao contrário, o problema é que a memória configura um pouco da ideologia, como escreve Maurice Halbachs2. Pois, como diz a sabedoria popular, lembrar é um pouco sofrido, não trás de volta o passado. Concordando com isso, olhar pela memória é, sobretudo, defrontar o hoje. No caso do Morro do Bumba, é ter certeza do descaso hoje com o local. Para isso, apelamos à memória individual.
Pela escola, um itinerário de descoberta do morro
Às portas do Ensino Médio, meus pais me colocaram num colégio perto de casa. Por um período curto, pois logo, logo (no ano seguinte) viria o bendito Ensino Médio. Fui matriculado num colégio estadual muito articulado. Acessível à população de Icaraí [Niterói] e adjacências. Como adolescente, vieram logo as preocupações corriqueiras de estar em um lugar onde não tinha amigos. Além de ser uma realidade diferente da qual estava acostumado.
Mas, enfim, as aulas começaram e fui sendo levado pela maré. Aos poucos, fui conhecendo e fazendo amigos e amigas. Aos poucos, entre tantos amigos/amigas novos, um deles se destacava. Era um sujeito magro e falante que se sentava ao lado na sala. Gente boa. Um falastrão que vinha para o colégio com o “bonde do Bumba” – como diziam. No bonde, vinham todos cantando e fazendo as “batucas” no ônibus. Os funks e os sambas sempre estavam nas paradas de sucesso do pessoal do Bumba. O ano ia passando e eu, cada vez mais, aprendendo os funks que cantavam. Um ultraje para um adolescente “do rock”, como era eu.
Numa das atividades que iam ocorrendo no colégio, a professora de ciências pediu um trabalho. Fechamos um grupo. Combinamos que íamos nos reunir onde a maior parte morava. Como eram do “bonde do Bumba”, tive de ir lá. O amigo deu as indicações. No dia e na hora combinados, fui para casa de um do grupo. Dos cinco, apenas eu e o amigo (falastrão) aparecemos. Até o dono da casa, não apareceu. Deu-nos de presente a sua casa trancada.
Sem outra saída, o falastrão me chamou para sua casa. Afinal, tínhamos que fazer o trabalho de ciências mesmo com o grupo reduzido. Ao chegarmos à casa, pequena para seus sete moradores, pegamos logo o material do trabalho, no qual tínhamos de tratar do corpo humano. Então, um dos irmãos fez a proposta de fazer uma apresentação cantada, no ritmo de funk. Logo rascunhamos uma letra, com a ajuda dele. Caprichamos nas rimas para acentuar as marcações e a memorização. Escrevemos sobre o corpo humano ao som do “batidão”. Combinamos que íamos cantar e as meninas da turma iam coreografar a música/apresentação. Estava tudo certo.
Mas, eis que, no fundo, escutamos, vindo de cima do barraco, um som bonito. Uma batucada. Era o vizinho treinando para tocar na escola de samba. Puxava o surdo. Vendo na janela, convidou-nos para entrar e assumir os chocalhos, atabaques e o bongô. Fui ao bongô. Som bonito. Logo percebi que tinha boas possibilidades e uma batida marcante. Aproveitamos e, improvisando, cantamos uns sambas e funks adaptados. Formou-se assim uma “batucada de bambas” (“na cadência bonita do samba”)!
Atravessando a divisão das casas, a mãe do amigo fazendo comida para as comadres e os filhos ao redor, me convida para a partilha. Num belo sábado de sol, a tia me chamou para almoçar um convidativo feijão-incrementado. Cheiroso. Absolutamente gostoso. Tinha tempero e sabor. Ela me disse que eu não ia esquecer nunca o feijão e o arroz que comi. Tinha razão. Nunca esqueci o feijão e também nunca esqueci seu lindo sorriso. Comi sentado fora do barraco. Sentei no chão de terra, para olhar o futebol que se iniciava lá fora.
Em meio ao almoço, íamos passando o som da apresentação junto aos chutes e gols. Ao terminar o almoço, corremos para entrar no time e jogar bola. Chutes, caneladas, “ovinhos”, gols; tudo após o almoço. É verdade, se minha mãe soubesse disso, fatalmente me deixaria de castigo. Jogamos a tarde quase toda num campinho improvisado de terra. Antes de voltar para casa, convidaram-me para subir ao topo do morro para ver melhor o pôr do sol. Lá de cima a paisagem era convidativa. Podíamos ver a região. E, assim, convidados pela paisagem, ficamos imaginando o que seríamos quando crescêssemos.
Olhando as casas abaixo, tanto da favela, quanto da região, imaginávamos como estaríamos em dez ou vinte anos. Todos concluíram que queriam prosseguir por lá. Afirmaram que podiam ter o que fosse, mas queriam apenas melhorar as casas. Eu, como único intruso na conversa, apontei logo para uma casa em baixo fora da favela bonita e grande. O grupo me censurou dizendo que lá era muito pior, pois, de onde a casa estava, “não dava para se ver nada”. Para eles, bom mesmo era morar ali, porque “dava pra ver tudo”. Tinham uma visão privilegiada de toda região. Além disso, subir o morro fortalecia o coração.
Memórias do hoje entre os militares
Não dá para dizer que estavam errados. Hoje, de fato, a especulação imobiliária nas favelas do Grande Rio de Janeiro é crescente. Suas paisagens chamam a atenção e seus acessos caem bem às vistas do empresariado local. Eles também acertaram que os moradores dos morros morrem menos do que a população do asfalto, quando se fala em doenças do coração. Fruto da diária batalha de subir e descer elevações.
Mas não é isso que gostaria de destacar, não mesmo. Queria me deter nos sonhos que alimentavam meus companheiros de tarde. Sonhos a que tive acesso após uma tarde de futebol e que, mesmo diante o cheiro horrível, da sujeira e das condições precárias de vida que o Morro do Bumba oferecia, eram o presente e o futuro nas falas e nas vidas deles. É verdade que tudo na vida deles podia ser revoltante, contudo, preferiam utopicamente se manter vinculados ao morro. Ironia e/ou ilusão de adolescentes? Pode até ser, mas, mesmo com um antigo lixão debaixo dos seus pés, preferiam seguir suas futuras realizações no local. No final da tarde, parece que o tétrico e sujo eram condições para que tivessem inspirações e aspirações ao melhor. Quem sabe os poetas populares Sá, Rodrix e Guarabira percebessem o que aqueles pequenos sentiam ao cantarem: “espalhando o que é morto para o que é vivo viver”.
Foi isso que lembrei quando o morro veio abaixo. Lembrei do bendito dia e, mais ainda, do final da tarde em que falamos do futuro de nossas vidas. Meus amigos davam mostras de que criam, mesmo diante da situação calamitosa em que viviam, no brotar de esperanças de melhorar suas vidas no local que todos agora diziam não lhes trazer boas recordações. Hoje, dentre esses conhecidos, uns se foram no desastre, outros se perderam na vida, e outros seguem alojados como bichos entre os policiais.
O último detalhe em que gostaria de me deter é a situação que salta aos olhos. Mesmo assim, penso que, simbolicamente, todos estão mortos. Vitimados pelo próprio desastre, ou pelo tráfico que impregnava a comunidade, ou pela morte lenta a que vão sendo submetidos ao viverem como bichos entre os militares do exército.
Esse é o detalhe atual mais escandaloso. Afinal, além de atualmente não terem moradia, sua região se transformou em cimento ou memorial de mortos. Passaram a viver hoje em tapumes na forma de casas militares improvisadas. Vão definhando no tempo. Morrendo junto ao descaso das autoridades. Mostrando que, para as políticas públicas do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura de Niterói, a pobreza é caso de polícia/exército. Como já disse, nossos dirigentes seguem a mesma lógica do fascismo quando colocam pobres, sujos e desalojados sobre os cuidados da polícia. Afinal, como pensam os fascistas, pobreza é sinal de inferioridade. É prima do caos e da barbárie.
Permitam-me atualizar os detalhes do abrigo-policial em que “vivem” os sobreviventes. Quando chove no abrigo no Terceiro Batalhão de Infantaria (3BI), molham-se os alojamentos, não permitindo que fiquem lá. Seus banhos ocorrem num banheiro comunitário para serventia de exatas 380 pessoas. Ou seja, nesse inferno, em condições semelhantes às dos presídios, é que “vivem”. Melhor, prefiro a indicação de que vão morrendo. Vão se deteriorando. “Vivem” como nos presídios: quando o acesso à comida ocorre, as moradias e as noções básicas de higiene são medíocres. São vitimados pelo descaso e pelo enfraquecimento do Estado num mundo capitalista neoliberal. Têm acesso ao mínimo do mínimo. Vão aos poucos suplicando a morte. Esquecidos diante da morte anunciada.
Quero dizer que, infelizmente, os tempos idealizados do Morro do Bumba não voltam. Mesmo não sendo perfeitos. Na memória, é difícil reencontrar os meninos e meninas alegres no futebol, cantando e dançando ao batuque do samba, do funk e do delicioso feijão incrementado da tia. Afinal, o lixão do Bumba tinha uma vitalidade irresistível. Infelizmente, ele hoje não existe mais. Está ambientado nos sonhos, uma vez que aquela vista privilegiada foi tomada por cimentos, enterrada por pseudo-obras. Mal dizendo, os sonhos e utopias dos meninos e moradores foram enterrados junto com os 56 mortos das tragédias das chuvas em Niterói.
O que nos resta, lamentavelmente, é contar os dias para o sepultamento dos demais amig@s ex-favelados. Que hoje são prisioneiros, (vigiados) pela omissão e pelo descaso da população niteroiense, levada por uma elite covarde que prefere esquecer seus filhos negados (bastardos). Devem estar mais preocupados em reeleger a oligarquia que se perpetua à frente de nossa “cidade modelo”. Pois, sem dúvidas, o esquecimento traz mais benefícios. Portanto, para eles, é melhor tornar vaga a lembrança dos pobres e miseráveis do lixão do Bumba. É um passado que foi cimentado. Para o “bem”, foi deixado para trás. Para tais elites fluminenses, não tem sentido a lembrança de uma “porca lembrança inferior”, como parece ser a do Bumba.
O que mostra Niterói, como uma “Cidade modelo” que prefere enterrar os pobres e oprimidos, fechando os olhos para o enriquecimento ilícito de uns e destilando todo o preconceito e desrespeito frente aos diferentes e que nada têm, é isso. Desculpem-me tod@s, mas a boa qualidade de vida da cidade, inspiração das elites fluminenses tem um custo alto: o de renegar, de desprezar e de ir matando gradativamente sua própria população de “outras castas”. O que parece é que nossas elites e governadores se inspiram nas políticas de limpeza racial (social) que antes foram vistas na Alemanha no meio do século passado. Pois, é isso que fazem quando preferem manter as vítimas no 3BI, renegando ainda as casas e apartamentos prometidos desde que a tragédia ocorreu.
Não deixam outra saída aos sobreviventes, a não ser contar os dias para que definhem sem sonhos e vidas, sobre o olhar atento dos policiais. Não são ex-moradores simplesmente, mas presidiários mantidos em silêncio, escondidos, à espreita das eleições que estão por vir. Cuidado! Pois, se falarmos muito alto, meus/nossos amigos podem desparecer numa sala fechada, sufocados sobre a brisa de gás. Direitos humanos? Cidadania? Dignidade? Eleições? Sem crise; 380 votos a gente supera fácil!
1 O texto é: “Já faz um ano…”, artigo publicado pela agência Carta Maior em 23.03.2011, p.1-4, acessado em 21.12.2011, no link: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5002.
2 Essa indicação pode ser lida em Maurice Halbawches, A memória coletiva. Aparecida: Letras e Idéias, 2004. Em todas as indicações sobre “memoria coletiva”, “esquecimento” e “memoria individual” feitas no texto consideramos as contribuições desse autor.
(*) Fábio Py Murta de Almeida é escritor, professor de história da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (Fabat), autor de Nas veias correm esperanças… (2009) e articulador do blog: http://fabiopymurtadealmeida.blogspot.com/

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