Movimentos pressionam BNDES por maior responsabilidade nos financiamentos

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Ocorreu entre os dias 23 e 25, no Circo Voador, no Rio de Janeiro, o I Encontro Sulamericano de Populações Afetadas pelos Projetos Financiados pelo BNDES. O evento foi organizado pela organização Plataforma BNDES, movimento composto por mais de 30 entidades representando as populações atingidas pelos grandes empreendimentos do Banco. Aproximadamente 150 pessoas estavam presentes, incluindo participantes de países da América do Sul.
A proposta do encontro é dar voz às populações diretamente atingidas, seja através da perda de seus territórios e destruição de modos de vida tradicionais, da eliminação e precarização de postos de trabalho, desorganização da produção de alimentos e do trabalho análogo a escravidão, como também atingidas pelo desmatamento e degradação de ecossistemas, privatização de rios e cursos d’água, conflitos agrários e pela exploração intensiva dos recursos naturais.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi fundado em 1952, ainda na era Vargas, e é hoje o terceiro maior banco de fomento do mundo e o principal estatal no Brasil. Em 2009 seu orçamento atingiu 160 bilhões, priorizando largamente o financiamento de multinacionais brasileiras e estrangeiras dos setores de etanol, hidroeletricidade, papel e celulose, mineração e siderurgia, e agropecuária, com elevados custos socioambientais. No ano passado, apenas 10% dos financiamentos foram direcionados aos micro e pequenos empreendimentos. A Plataforma BNDES reivindica que o Banco fomente o desenvolvimento que não concentre renda, não promova a exclusão de direitos e contribua para a superação de desigualdades.
indio_atingidosInício das atividades de quarta-feira (25), no Circo Voador, com cantorias indígenas para animar os participantes de manhã cedo.  Foto: Verena Glass/Repórter Brasil.
Segundo João Roberto Lopes, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e porta voz da Plataforma, “o encontro surge com objetivo de democratizar o BNDES que tem um papel absolutamente central no modelo de desenvolvimento do país. Hoje o poder está nas empresas, e a forma de atuar sobre elas é através do Estado que suporta esse grande poder. O BNDES vem apoiando inclusive o processo de fusões, de aquisições, de concentração econômica. Infelizmente isso não interessa nem ao governo nem à oposição, na verdade nós estamos tocando exatamente num ponto que é o nervo, que é a forma insustentável como o capitalismo está estruturado no país”.
O encontro marca um novo patamar de organização da Plataforma BNDES, antes restrita a ong’s, depois ampliada com lideranças de movimentos sociais e agora com a aproximação das populações dos territórios afetados. Além das palestras com representantes de movimentos sociais, entidades, sindicatos e do poder público, o espaço teve como objetivo dar voz às pessoas diretamente atingidas pelos projetos: populações ribeirinhas, quilombolas, índios, camponeses, trabalhadores, etc. Os relatos e discussões foram sistematizados, durante o encontro, em dois documentos: uma carta aberta para a sociedade brasileira e um documento destinado a Luciano Coutinho, presidente do BNDES.
manifestacao_lapaSaída da manifestação na Lapa, em direção ao BNDES para a reunião com Luciano Coutinho. Foto: Verena Glass/Repórter Brasil.
A última atividade do encontro, na quarta-feira (25), às 14 horas, foi um ato realizado em frente ao BNDES. Todos saíram do Circo Voador, na Lapa, em passeata, com o microfone aberto a manifestações. Exemplares da edição especial do jornal Brasil de Fato sobre o assunto foram distribuídos nas ruas e a marcha foi animada pelo grupo teatral Off-Sina.
Chegando ao banco, a comissão delegada no evento para se reunir com Coutinho subiu para debater o assunto e entregar o documento. Só uma pessoa da imprensa foi autorizada a subir com os movimentos. Minutos depois o Fazendo Media conversou com a assessoria de imprensa do banco que só nos autorizou a falar com o presidente na coletiva, ao final de um evento sobre questões climáticas no Brasil com a presença do ministro Carlos Minc. Grande parte da imprensa comercial estava cobrindo a realização, nenhum para tratar da passeata e das reivindicações dos movimentos minutos antes. Luciano Coutinho se retirou no meio da reunião, não falou com o Fazendo Media.
sandra_duraoAto na entrada do BNDES, que estava com as suas portas fechadas no momento da manifestação. Foto: Verena Glass/Repórter Brasil.
No dia seguinte a assessoria do BNDES se limitou a declarar que “a reunião foi mais uma etapa dos contatos que vêm ocorrendo desde agosto de 2007, por orientação do presidente Luciano Coutinho, entre os movimentos sociais e a direção do BNDES. Há uma equipe do banco que está acompanhando este processo e até o início do ano que vem haverá novas reuniões para continuar discutindo a pauta”.
Para as entidades, o presidente não deu abertura para as demandas de reorientação política e econômica sugeridas pela sociedade civil. Ele somente prometeu às organizações “reiterar o compromisso de levar a sério o documento”. Nas palavras de Coutinho, segundo integrantes da Plataforma, a instituição tem desempenhado um papel fundamental no setor produtivo – muitas vezes evitando que empresas quebrem, o que, afirmou, seria pior. O banco tem atuado nos setores sociais e ambientais dos projetos onde tem participação societária e tem financiado apenas projetos com licenciamento ambiental, complementou.
reuniao_coutinhoAo fundo Luciano Coutinho, presidente do BNDES, em reunião com a comissão de representates da Plataforma BNDES na entrega do documento elaborado no encontro. Foto:Verena Glass/Repórter Brasil.
Outra crítica feita pelos movimentos é a falta de transparência nas informações sobre os procedimentos realizados pela empresa e seus projetos. É preciso explicitar que, apesar de priorizar os investimentos de grupos privados, os recursos do BNDES vêm, majoritariamente, do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Tesouro Nacional. “Queremos que o BNDES, um banco 100% estatal, cumpra o papel de um banco 100% público. Não há justificativa para investir o dinheiro dos trabalhadores em empresas milionárias, enquanto o Brasil continua sendo um dos campeões da desigualdade social no mundo. A Plataforma BNDES demanda que o Banco financie um modelo de desenvolvimento justo”, declara Gabriel Strautman, secretário executivo da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais.
João Roberto Lopes destacou que “o problema é não termos debate público sobre isso, que é fundamental: o debate hoje está Estado versus mercado ou crescimento versus meio ambiente. Nós temos que incluir a dimensão pública do controle social para fazer um debate sobre o desenvolvimento e a juventude tem um papel absolutamente central nesse sentido. Esse é um debate que precisa ser feito, icindir sobre as empresas, que estão recebendo financiamentos bilionários, elas controlam o poder político. Conversar sobre o palácio do planalto e congresso é o caminho, mas sabendo que eles são o quintal das empresas”.

Um comentário sobre “Movimentos pressionam BNDES por maior responsabilidade nos financiamentos”

  1. Este “I Encontro Sulamericano de Populações Afetadas pelos Projetos Financiados pelo BNDES” foi um dos eventos mais importantes organizado pelo movimento social brasileiro neste ano.
    Com certeza é preciso que os trabalhadores/as cobrem das empresas estatais cada centavo aplicado de seu dinheiro, arrecadado com o suor de seu trabalho. Que está sendo vergonhosamente doado a burguesia extrangeira e nacional exploradora do trabalho e destruidora do meio ambiente.
    É preciso denunciar isso aos quatro ventos.

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