Meus conceitos e a metamorfose intelectual

fabio nogueiraComo dizia o sábio Raul Seixas, numa das suas canções: eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Como todos sabem, o PVC (pré vestibular comunitário ) e o movimento social Educafro foram os divisores de água na minha vida, pois me fizeram refletir sobre muitos conceitos que tinha e pensava como certos. Afinal de contas, fui criado numa espécie de redoma super protegido, quase tudo não sabia pois o ambiente e o meio onde vivia não priorizava a informação. A única fonte de informação oficial era o telejornal de maior audiência do país. Tudo que era mostrado e noticiado tinha que aceitar como definitivo.
Através desses dois movimentos, antigos conceitos que habitam e dominavam o meu imaginário foram sendo derrubados. Passei a pensar e questionar-me sobre isso e aquilo. Um exemplo: Passaram a imagem do MST (Movimento Dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) como um bando de marginais e que deviam ser banidos . Hoje penso o contrário: a luta pela democratização da terra é válida, e o MST não é composto por marginais. O líder palestino Yasser Arafat era um terrorista e Israel tinha o direito de esmagá-lo junto ao povo palestino. Enquanto isso, meu falecido pai veementemente afirmava que tudo era mentira, o povo palestino lutava por sua terra de direito e de fato. Quem disse que dava ouvido ao meu pai? Era semianalfabeto, não entendia nada, pois era homem que somente sabia escrever o seu nome. Minha referência era o telejornal e os comentaristas gabaritados no assunto. Não dava importância ao velho.
Fizeram pra mim a imagem de um homem barbudo que vivia numa ilha como um lúcifer, o diabo em carne e osso. Esse “diabo” que as pessoas a minha volta e o telejornal de maior audiência do país diziam, segundo eles, o câncer do mundo, era Fidel Castro. Odiava este homem junto com outro velho conhecido, chamado Che Guevara. Nossa, as notícias e a imagem desses dois eram as piores possíveis. O meu pai sempre comentava que tudo era mentira e era um plano para derrubar os Revolucionários que transformam uma nação e milhares de gerações que sonhavam compartilhar uma sociedade mais plural, justa e igualitária. No entanto, o telejornal de maior audiência era o meu crédito maior e meu pai sendo enganado. Somente no início dos anos 2000, precisamente em 2003, toda a mentira foi sendo desfeita.
Com as aulas de geografia, história e humanas em geral passei a conhecer o mundo e as pessoas. Passei a estudar, a ler e raciocinar os assuntos. Cheguei à conclusão de que meu velho pai estava certo, e eu estava sendo enganado.
Neste Sábado perdemos um dos maiores líderes da América, e por que não do mundo contemporâneo. O próprio Fidel Castro, aquele que achavam o “diabo” em carne e osso, o homem que acreditou na luta em que todos poderiam e podem viver num mundo mais justo e igual para todos. Várias duvidas vinham na minha cabeça colonizada perguntando por que este homem dividia tantas opiniões? Por que havia quem o amava e o odiava?
Quando meu pai falava de Fidel Castro sempre retrucava menosprezando o que ele tinha de mais valioso, a informação. Afinal, eu era adolescente quase entre 15 e 20 anos, ainda era dependente da mídia tradicional e tinha conceitos errôneos sobre o socialismo. Pensava que o socialismo era o progresso em forma de charretes, ou seja: Lento e obsoleto.
Na minha fase de limpeza cerebral, o “lúcifer” começou a cativar-me. Estava ainda no ensino fundamental e conheci a professora Edna de geografia, da escola Linneu Prestes, na cidade de São Paulo. Ela paulatinamente começou então a falar o que era socialismo, comunismo e Fidel Castro. Falou como aquele homem cativou-a com aqueles discursos longos e não cansativos. Logo vieram outras pessoas explicar de maneira lúcida o que era a revolução cubana e seu mentor Fidel Castro. Imediatamente lembrei-me de meu pai e o quanto não dava valores às suas informações por puro preconceito em saber que ele era semi-analfabeto. Foi uma lição dura.
Com passar dos tempos, desde minha entrada no PVC e encontro com movimentos sociais, a “a limpeza cerebral” estava sendo feita e o senso comum sendo desmontado. Passei pesquisar, conversar com as pessoas, sempre ouvindo os dois lados. Passei a identificar-me com a Revolução cubana, admirar Che Guevara e virei fã de Fidel Castr. Devo esse crédito ao meu pai Sebastião, popularmente conhecido por toda Vila Aliança e Bangu como Senhor “Zinho”. Seu Zinho era socialista ao modo dele, e defendia com unhas e dentes tanto a revolução como a Fidel Castro ao seu modo.
Como qualquer ser humano, ambos cometiam erros, mas isso não tira o mérito do caráter de ambos. Fidel Castro, na revolução eliminou o analfabetismo em seu país. O senhor Zinho ao seu modo NUNCA nos deixou a passar necessidades e era cumpridor de seus deveres.
Enfim, ambos deixaram suas marcas em mim. Fidel Castro na luta por um mundo fraternal, onde todos tivessem os meus direitos, e Sr. Zinho que mesmo sem instrução educacional foi o primeiro a lançar a semente da Revolução em mim.
VIVA FIDEL!!! VIVA Sr. ZINHO!!!
(*) Fabio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro

2 comentários sobre “Meus conceitos e a metamorfose intelectual”

  1. Meu querido amigo. Sinto tanto prazer de ter convivido contigo nos anos que tive a livraria, sua humildade e bondade ímpar me faz sempre até hoje de referência para a educação de meu filho. Obrigado e sempre estaremos juntos.

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