Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus” – Dia 03.10.2021

No Evangelho da Liturgia de hoje vemos uma reação de Jesus pouco costumeira: Ele se indigna. E o que mais surpreende é que Sua indignação não é provocada pelos fariseus que O põem à prova com perguntas sobre se o divórcio é lícito, mas pelos Seus discípulos que, para protegê-Lo do atropelo das pessoas, repreendem algumas crianças que se aproximam de Jesus. Em outras palavras, o Senhor não despreza quem discute com Ele, mas com quem, para livrá-Lo do cansaço, distancia Dele as crianças. Por que? É uma boa pergunta: por que o Senhor faz isto?

Lembremo-nos de que – há dois domingos – Jesus, fazendo o gesto de abraçar um menino, se havia identificado com os pequenos: havia ensinado que justamente os pequenos, isto é, aqueles que dependem dos outros, que são necessitados e não podem restituir, devem ser os primeiros a serem servidos. Quem procura a Deus, aí O encontra, nos pequenos, nos necessitados: necessitados não apenas de bens, mas de cuidado e de conforto, como os doentes, os humilhados, os prisioneiros, os encarcerados. Ali Ele se encontra: nos pequenos. Eis por que Jesus fica indignado: toda afronta feita a um pequeno, a um pobre, a uma criança, a um indefeso, é feita a Ele.

Hoje, o Senhor retoma este ensinamento e o completa. Com efeito, acrescenta: “Quem não acolher o Reino de Deus como o acolhe uma criança, nele não entrará. Aí está a novidade: os discípulos não devem apenas servir os pequenos, mas também devem reconhecer-se pequenos. Será que cada um de nós se reconhece pequeno diante de Deus? Pensemos nisto, isto nos ajudará. Saber-nos pequenos, saber-nos necessitados de salvação, é indispensável para acolhermos o Senhor. É o primeiro passo para nos abrirmos a Ele. Muitas vezes, porém, nos esquecemos disto. Na prosperidade, no bem estar, temos a ilusão de sermos auto suficientes, de que nos bastamos a nós mesmos, de não termos necessidade de Deus. Irmãos e irmãs, isto é um engano, porque cada um de nós é um ser necessitado, um pequeno. Devemos buscar nossa própria pequenez e reconhecê-la. E aí encontraremos a Jesus.

Na vida, reconhecermo-nos pequenos é um ponto de partida para nos tornamos grandes. Se pensarmos nisto, crescemos não tanto com base no sucesso e nas coisas que temos, mas, sobretudo, nos momentos de luta e de fragilidade. Amadurecemos na necessidade. Então, abrimos o coração para Deus, para os outros, ao sentido da vida. Abrimos os olhos para os outros. Abrimos os olhos, quando somos pequenos, ao verdadeiro sentido da vida. Quando nos sentimos pequenos diante de um problema, pequenos diante de uma cruz, de uma doença, quando sentimos cansaço e solidão, não desanimamos. Então, cai a máscara da superficialidade, reemerge nossa fragilidade radical: eis a nossa base comum, o nosso tesouro, porque, com Deus, as fragilidades não são obstáculos, mas oportunidades. Uma bela oração seria assim: “Senhor, olhe a minha fragilidade” e contemos a Ele. Eis uma bela atitude diante Dele.

De fato, justamente na fragilidade é que descobrimos o quanto Deus se preocupa conosco. O Evangelho de hoje diz que Jesus é muito terno com os pequenos: “tomando-os em seus braços, os abençoava, impondo as mãos sobre eles”. As contrariedades, as situações que revelam nossa fragilidade são ocasiões privilegiadas para fazermos a experiência do Seu amor. Bem o sabe aquele que ora com perseverança: nos momentos sombrios ou de solidão, a ternura de Deus para conosco se faz, por assim dizer, ainda mais presente. Quando somos pequenos, nós sentimos mais a ternura de Deus. Esta ternura nos dá paz, esta ternura nos faz crescer, porque Deus se aproxima à Sua maneira, que é proximidade, compaixão e ternura. E quando nós nos sentimos pouca coisa, isto é, pequenos, por algum motivo, o Senhor se aproxima ainda mais, nós O sentimos mais perto de nós. Ele nos dá paz, nos faz crescer. Na oração, o Senhor nos atrai para si, como um pai faz com seu filho. Assim, nos tornamos grande: não na ilusória pretensão de nossa autossuficiência – isto não torna ninguém grande – mas na fortaleza de recolocar no Pai toda esperança. Justo como fazem os pequenos, eles fazem assim.

Peçamos hoje á Virgem Maria uma grande graça, a da pequenez: que sejamos crianças que se entregam ao Pai, certos de que Ele não falhará em cuidar de nós.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC

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