“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência (…). A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim?”
Tiros em uma escola nos Estados Unidos; Sarney na presidência da república e Renan Calheiros perto de assumir novamente o Senado; políticos aumentando seus próprios salários; mortes nas rodovias brasileiras no recesso de natal; crianças morrendo de fome na África; ditadores comandando guerras para manter-se no poder…
É, mais um ano que chega ao fim, inspirando novos desejos e expectativas, mas, em paralelo, trazendo notícias que, não fosse pela data registrada no alto da página, poderiam perfeitamente se passar por fatos há muito publicados.
Infelizmente, trata-se de informações frescas, que “insistem” em aparecer nas manchetes de jornais, revoltando, mas também narcotizando os leitores, os quais, frente a tamanho mar de lama, não resistem à instalação de um desalentador sentimento de impotência.
Repetições infernais que remetem – em uma interpretação um tanto quanto leiga e, talvez, perigosamente simplista – à teoria do Eterno Retorno, de Friedrich Nietzsche (1844-1900), exemplificada na passagem citada ao início deste texto, extraída de sua obra A Gaia Ciência (1882).
Embora não haja exato consenso quanto ao sentido do conceito desenvolvido pelo filósofo alemão, entende-se que o Eterno Retorno implica na constante alternância de vivências e sensações, como a alegria e a tristeza, bem e mal, angústia e prazer – variações estas que estão na essência do devir. Assim, estaríamos presos a um número limitado de fatos, que se repetiriam no passado, presente e futuro.
O que o demônio de Nietzsche diz tem coerência e, de fato, tal fala carrega algo de desesperador, ao traduzir aquilo que seria um ciclo inexorável de repetições. Mas nem tudo está perdido. Afinal, como o próprio autor dá a entender, tal teoria não representa uma negação, mas uma afirmação da vida, posto que, já que não somos imortais, não estaremos eternamente sujeitos a essa que seria uma verdadeira tortura psicológica.
Além disso, a busca pela superação das dificuldades e pela felicidade – ainda que isso configure uma forma de repetição – é um dos aspectos que valorizam e dão sentido à vida, o que, de certo modo, pode ser um alívio para aqueles que buscam uma resposta imediata, pronta e acabada para o que o ser humano veio fazer na Terra, e sobre como precisa agir para atingir esse suposto objetivo (e, no fim das contas, ter seu lugar ao céu).
Portanto, que, nesta virada de ano, homens e mulheres preocupem-se menos com o que o destino lhes reserva, e procurem renovar suas energias a fim de protestar e lutar, cada um à sua maneira, contra as injustiças e tragédias que veem ao seu redor; que se preparem para chorar e gozar dia após dia, sem se deixar, na medida do possível, inebriar pelo enjoativo cheiro de tudo aquilo que é tediosa e revoltosamente crônico.

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