Literatura para conhecer e formar o Brasil

“A literatura possui centralidade na formação da intelectualidade do Brasil”. Nesta afirmação, “do Brasil” quer dizer muita coisa. Pois Paulo Arantes, filósofo e professor, quer justamente colocar em perspectiva a ideia de formação do Brasil como nação. Quer também sublinhar que, em um país periférico como o nosso, esse tema continua sendo da maior importância. O que dimensiona a relevância do livro “Formação da literatura brasileira – momentos decisivos”, de Antonio Candido.
A fala de Paulo Arantes fechou o simpósio que teve o aniversário de 50 anos da obra como tema. Realizado entre os dias 25 e 27 de novembro, na Universidade de Brasília (UnB), o evento reuniu pesquisadores de vários estados, além de alunos desde a graduação até o doutorado.
Qual a relevância de um livro que, 50 anos depois, ainda gera tantas perguntas e temas para debate? O que parece estar por trás dessa pergunta é a novidade do método empregado por seu autor, um crítico literário sociólogo, que se empenhou em estudar e aprofundar as origens e sentidos da nossa expressão escrita como povo.
“Candido é talvez, junto com Caio Prado Jr., o pioneiro em um método de interpretação dialética da experiência brasileira. O Caio Prado faz isso interpretando de forma materialista os ciclos econômicos e o Antonio Candido interpreta o compasso entre o desejo de formar uma literatura ao mesmo tempo em que a elite se empenhava em formar uma nação”, aponta Rafael Villas Bôas, pesquisador e professor da UnB.
A essa forma de leitura da realidade que situa Candido e Caio Prado foi dado o nome de “tradição crítica brasileira”, que reúne conceitos clássicos do marxismo formulados por intelectuais como Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, com questões tipicamente nacionais.
Raízes
Junto à tradição crítica está o esforço de se conhecer e interpretar o Brasil. Uma introdução de Antonio Candido ao livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, ficou famosa. Ali ele coloca a ideia de que a obra apresentada, junto com “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr., compunham os principais personagens da formação da nacionalidade brasileira, de acordo com o olhar da geração de 1930, cada um com sua orientação própria, como explicou Antonio Candido em seu texto introdutório. Ou seja, os pilares do pensamento sobre o Brasil. Há pesquisadores que colocam a “Formação da Literatura Brasileira” no mesmo movimento, mas Antonio Candido refuta essa ideia.
“Não apenas a sua escala é incomparavelmente mais modesta, mas as interpretações pressupõem a abordagem da realidade social diretamente registrada na documentação, sendo por isso efetuada por historiadores, sociólogos, economistas. Ora, a literatura é uma transfiguração da realidade, de maneira que não pode servir de base para as interpretações”, afirmou em entrevista recente ao jornal Zero Hora.
Mas o método de análise de Antonio Candido a essa “transfiguração da realidade” é integrativo: não desvincula a obra de sua função, o que revoluciona os estudos de literatura que se faziam no Brasil, propondo ao mesmo tempo uma preocupação estética e sociológica. Em seus inúmeros estudos, Antonio Candido não separa a literatura e a sociedade (nome de um de seus livros). Mas nem por isso deixa de se dedicar com afinco a sua função estética. Pois é a partir da estética que uma obra literária pode cumprir seu papel. Ou ainda: o conteúdo só atua por causa da forma.
Assim, a “Formação da literatura brasileira” é dedicada, em grande parte, a fazer uma análise das obras. Mas também é neste livro que aparece o conceito de “sistema literário”. Como explica Paulo César da Costa, militante do MST de Santa Catarina e graduando da primeira turma de Licenciatura em Educação do Campo, “um sistema literário não é formado só por público, obra e autores, mas pela capacidade da literatura se auto-questionar, ou seja, pela crítica literária”. Paulo César explica, assim, porque acha fundamental um colóquio acadêmico discutir Antonio Candido: para resgatar a discussão crítica da literatura.
Modernidade periférica
O objetivo de difundir, aprofundar e debater a tradição crítica agregou pesquisadores orientados pelo professor Hermenegildo Bastos, doutor pela USP e professor da UnB desde 1996. Foi justamente encontrar esse caminho crítico que manteve Deane de Castro e Costa no seu projeto de doutorado, na UnB. “Antes eu tinha uma visão mais instrumentalizada da literatura, de que ela podia ampliar o conhecimento das pessoas, tornando-as críticas. Mas essa visão era muito imediatista e não aprofundava de fato os limites e possibilidades da literatura”, conta.
Ela se juntou ao grupo de pesquisa “Literatura e Modernidade Periférica”, que começou com cerca de 10 pesquisadores e hoje, passados 10 anos, aglutina mais de 50, tanto da graduação quanto da pós, já produziu 10 teses de doutorado, formou mestrandos que hoje são doutores e professores, e conseguiu, se não romper, pelo menos abalar a hegemonia do estruturalismo francês, escola que dominava a universidade brasileira no âmbito do estudo de literatura. “A nossa linha de pesquisa é de orientação marxista, questiona a crítica literária exclusivamente imanente, que se recusa a ver a relação entre literatura e sociedade”, explica Maria Izabel Brunacci, professora aposentada do Cefet-MG e participante do grupo desde seu início, em 1999.
Um dos trabalhos coletivos realizados por eles foi o simpósio. “Uma atividade como esta é capaz de sedimentar questões importantes para a crítica, que não morreram. A crítica atual tem uma tendência a apresentar uma quase morte da linha crítica. Então o simpósio revigora, fortalece, amplia a perspectiva de estudos críticos, na linha de Antonio Candido”, avalia Rogério Max Caneto Silva, mestrando da Universidade Federal de Goiás.
O grupo procura colocar em prática o cerne da teoria e aponta sua atuação para fora dos muros da universidade. Além de organizar e participar de atividades acadêmicas, procura se articular com organizações de esquerda que tenham um trabalho formativo. “O conhecimento que nós produzimos no âmbito do grupo tem que ser colocado à disposição dos movimentos sociais”, resume Maria Izabel.
Parceria com o MST
Começou a se tecer então um processo de atuação conjunta com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foram vários cursos de formação de militantes realizados em parceria até culminar no curso de graduação de Licenciatura em Educação do Campo, da UnB e do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra). Dividido em duas áreas – ciências da natureza/matemática e linguagens – é no segundo campo que os laços entre o grupo de pesquisa e o movimento se estreitam. A ponto de três alunos da primeira turma (atualmente já está formada a terceira) apresentarem uma síntese das discussões feitas em sala numa mesa durante o simpósio, na mesa “Representação literária e representação política”.
Ana Laura Corrêa, pesquisadora do grupo e professora da turma, avalia que a participação foi fundamental. “Esse encontro entre a academia e a educação do campo resgata o processo da tradição crítica e areja essa produção. Vivifica as estruturas da universidade. Na educação do campo a gente percebe uma nova forma de produção do conhecimento”, aponta.
Rafael Villas Bôas, também professor do curso, acrescenta: “A gente não dá aula sozinho, é sempre em duplas ou em trios. Isso enriquece muito o contato com a turma, que vê que tem trabalho coletivo dos dois lados. Tem uma troca”.
Maria Izabel Brunacci, professora do curso de Licenciatura em Artes, dá um exemplo dessa troca. “O livro que lancei sobre Graciliano Ramos [“Graciliano Ramos – um escritor personagem”] é dedicado à minha neta, ao MST e ao meu grupo de pesquisa. Por quê? Porque a interlocução com o MST nos cursos de literatura foi fundamental para eu entender Graciliano Ramos, para eu entender melhor o Brasil representado na obra do autor”, diz.
Literatura e revolução
“Para nós, repetir as palavras do Antonio Candido ainda é necessário. E assumimos com felicidade o papel de seguir repetindo-as”, atesta Carla Loop, educanda do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Podem ser várias as palavras necessárias de repetição de Antonio Candido. Mas parece ecoar fortemente trechos de sua palestra “O direito à literatura”, de 1988, reunido depois no livro “Vários escritos”.
Ele defende, em conferência na Comissão de Justiça e Paz, na arquidiocese de São Paulo então comandada por dom Paulo Evaristo Arns, que pensar em direitos humanos tem um pressuposto: “reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo”. E a necessidade da ficção, de toque poético, “é uma necessidade universal que precisa ser satisfeita e cuja satisfação é um direito”. Candido defende que toda literatura, inclusive aquela “chamada erudita”, seja acessível a todos, sem estratificação, sem alienação.
Porque a literatura possui uma função humanizadora, que deve ser cumprida: “Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos momentos da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a cota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, para a sociedade, para o semelhante”.
Direito portanto inalienável, a literatura pode ser ainda uma representação poderosa da utopia, “uma promessa contra a reificação”, como diz Rafael. Ou ainda, na brincadeira da turma de Licenciatura: “Ler literatura também é revolucionário”.
Antonio Candido de Mello e Souza começou a fazer crítica literária na revista Clima, nos anos 1940. Mestre em sociologia, tornou-se professor de literatura em 1957, na cidade de Assis, no interior de São Paulo. Deu também aulas na USP, onde se aposentou. É autor de uma extensa obra sobre crítica literária e professor de gerações dos mais importantes críticos literários e culturais do país. Aos 91 anos, Candido afirma “preservar suas convicções socialistas”.
Em 1959, lançou em dois volumes o livro “Formação da Literatura Brasileira – Momentos decisivos”. Em 2006, a 10ª edição do livro foi reeditada pela editora Ouro Sobre Azul, em projeto coordenado por sua filha Ana Luisa Escorel e acompanhado por Candido. A nova edição sai em um volume único, de 800 páginas.
(*) Cobertura publicada originalmente na Agência Brasil de Fato.

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