Lendo

Cá estou eu de novo. A começar o dia como um pequeno milagre. Ou nem tão pequeno. Desde muito jovem já gostava destas horas tempranas. Era como se nesses momentos em que tudo dormia na casa, eu pudesse ser mais livre. Mais eu. Não sei de fato o que é que eu pensava naqueles tempos. Mas sei o que penso e sinto agora.

É como se estivesse aberta uma possibilidade. Algo pode acontecer e será pela minha mão. Ou quem sabe dando as mãos com outras pessoas. Menos controle social do comportamento. Faça isto. Faça aquilo. Vá pra lá. Sinta isto ou aquilo. Agora escuto um motor ao longe. Passos no apartamento de cima. Alguém que passa pela calçada. O canto da passarada.

Leio uma reportagem do escritor português Afonso Cruz, que me chama a atenção sobre ”o vício dos livros.” Diz o autor que a leitura de um livro nos desperta para um estado de maior quietude, provocando um melhor contato conosco mesmos e com o mundo. Revivo o meu desejo de escrever um livro sobre Ler e Escrever. Quem sabe seja melhor separar Ler de Escrever. Dois livros ao invés de um.

Jogos. Brinco de escrever. Voltei a brincar. O dia prossegue e em seguida virão as obrigações. A rotina. O repetido. Bom dia querida. Bom dia, amor. Bom dia dia. Não deixa de me admirar a sucessão dos dias. Tão distintos uns dos outros! A coleção deles, no entanto, é prodigiosa. Formam como um cristal, um prisma que mostra em detalhe cada coisa acontecida.

Por aí muitas vezes me incomoda achar que eu deveria ser diferente. Mais sociável, mais comunicativo. O que é que é isso? Sou como sou e quem me quiser há de me aceitar desse jeito. Tive muito trabalho para me fazer assim como sou, para agora ter que me adaptar as expectativas de não sei quem. Tem gente que fala pelos cotovelos mas não escuta. Tem gente como eu que é mais silenciosa, escuta mais, fala pouco ou nem sequer pronuncia uma palavra. O que trato é de não me falsear no trato com as pessoas. Quem sabe sim, precise um pouco mais de contato. Contanto que não seja ao preço da minha individualidade. Nesta idade, é o tesouro mais precioso que consegui açambarcar.

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