
O jornal Terra Livre é o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB) dedicado a organizar os trabalhadores rurais de todo o Brasil. Fundado em 1949, era editado em São Paulo.
“Atentando para as variadas formas de trabalho no campo, o jornal procurava falar para um grupo heterogêneo de trabalhadores, arrendatários, meeiros, colonos, posseiros e assalariados rurais, estimulando o surgimento de organizações, por meio de associações e sindicatos, e apoiando suas reivindicações locais”, comenta Carlos Leandro da Silva Esteves, que escreve sobre o tema em sua dissertação em 20071.
Para chegar a este público, a linguagem deveria ser simples. Leonilde Servolo de Medeiros comenta: “Estimulava-se sua leitura em pequenos grupos onde, quem fosse alfabetizado, deveria ler em voz alta para os demais. Eram constantes as mensagens existentes no jornal nesse sentido”2. Tratava-se naquele momento de construir uma “nova linguagem e a constituição de uma identidade e imagem de classe”3.
João Pedro Stédile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, lembra que no auge de sua publicação, o Terra Livre chegou a ter uma circulação de impressionantes 60 mil exemplares. Deixou de existir com a instauração do golpe militar de março de 1964.4
O jornal teve como principal diretor Declieux Crispim Sobrinho, falecido em 13 de agosto de 1962 em Brasília. Declieux foi, segundo o editorial do Terra Livre de setembro de 1962, advogado e jornalista, lutador das causas sociais comunistas, dirigindo jornais que imprimiam esses ideais. Militou e foi um dos fundadores do jornal Tribuna Popular e colaborador em vários jornais cariocas e paulistas, tendo participado também das organizações de jovens lavradores e assalariados agrícolas como estudioso dos problemas do campo e ligado às lutas dos camponeses pela reforma agrária e diminuição da miséria no país.5
O editorial do número 58 do Terra Livre, de julho de 19556, fala sobre o desafio de o jornal se tornar semanal – à época saia de 15 em 15 dias. A solução é a realização de uma campanha financeira nacional com todos os lavradores do Brasil – o que hoje inglesamos para “crowdfunding”, ou financiamento coletivo. O texto é assinado por Declieux e intitulado “O que precisamos para ter um seminário”.
“Terra Livre não é do tipo desses grandes jornais que são como uma casa de negócios e têm enormes lucros. O nosso jornal não dá lucro”, explica didaticamente o editor. “Nós confiamos nos nossos amigos espalhados pelo Brasil inteiro e a todos eles dirigimos este apelo: Terra Livre não pode viver sem a vossa ajuda! Se ele existe, é unicamente para servir aos interesses dos trabalhadores da roça e das usinas de açúcar. Não existe para nenhuma outra coisa.”
Ao final, reforça o objetivo do pedido: “(…) assim ele poderá publicar todas as notícias e cartas que receber e ajudará mais a luta dos homens da roça pela melhoria da sua situação”. Mesmo sem ter grande sucesso neste campanha, o semanário foi um importante instrumento de luta pela terra, até ser interrompido pela brutalidade do golpe militar. Mais tarde, o jornal ganharia um slogan: “A terra para os que nela trabalham”.
NOTAS
1 Esteves, 2007, p.117-118. Disponível em http://bit.ly/29y92l9
2 Idem.
3 Idem.
4 Stédile, “Terra Livre; o sonho continua!”, ver http://bit.ly/29yalk8
5 Enderson Medeiros, 2016, p.25. Disponível em http://bit.ly/29yafcc
6 Disponível em http://bit.ly/29yaW5c
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/
