Jornal Terra Livre: ‘o que precisamos para ter um semanário?’

Número 58 do diário comunista 'Terra Livre', de julho de 1955.
Número 58 do diário comunista 'Terra Livre', de julho de 1955.
Número 58 do diário comunista ‘Terra Livre’, de julho de 1955.

O jornal Terra Livre é o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB) dedicado a organizar os trabalhadores rurais de todo o Brasil. Fundado em 1949, era editado em São Paulo.

“Atentando para as variadas formas de trabalho no campo, o jornal procurava falar para um grupo heterogêneo de trabalhadores, arrendatários, meeiros, colonos, posseiros e assalariados rurais, estimulando o surgimento de organizações, por meio de associações e sindicatos, e apoiando suas reivindicações locais”, comenta Carlos Leandro da Silva Esteves, que escreve sobre o tema em sua dissertação em 20071.

Para chegar a este público, a linguagem deveria ser simples. Leonilde Servolo de Medeiros comenta: “Estimulava-se sua leitura em pequenos grupos onde, quem fosse alfabetizado, deveria ler em voz alta para os demais. Eram constantes as mensagens existentes no jornal nesse sentido”2. Tratava-se naquele momento de construir uma “nova linguagem e a constituição de uma identidade e imagem de classe”3.

João Pedro Stédile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, lembra que no auge de sua publicação, o Terra Livre chegou a ter uma circulação de impressionantes 60 mil exemplares. Deixou de existir com a instauração do golpe militar de março de 1964.4

O jornal teve como principal diretor Declieux Crispim Sobrinho, falecido em 13 de agosto de 1962 em Brasília. Declieux foi, segundo o editorial do Terra Livre de setembro de 1962, advogado e jornalista, lutador das causas sociais comunistas, dirigindo jornais que imprimiam esses ideais. Militou e foi um dos fundadores do jornal Tribuna Popular e colaborador em vários jornais cariocas e paulistas, tendo participado também das organizações de jovens lavradores e assalariados agrícolas como estudioso dos problemas do campo e ligado às lutas dos camponeses pela reforma agrária e diminuição da miséria no país.5

O editorial do número 58 do Terra Livre, de julho de 19556, fala sobre o desafio de o jornal se tornar semanal – à época saia de 15 em 15 dias. A solução é a realização de uma campanha financeira nacional com todos os lavradores do Brasil – o que hoje inglesamos para “crowdfunding”, ou financiamento coletivo. O texto é assinado por Declieux e intitulado “O que precisamos para ter um seminário”.

Terra Livre não é do tipo desses grandes jornais que são como uma casa de negócios e têm enormes lucros. O nosso jornal não dá lucro”, explica didaticamente o editor. “Nós confiamos nos nossos amigos espalhados pelo Brasil inteiro e a todos eles dirigimos este apelo: Terra Livre não pode viver sem a vossa ajuda! Se ele existe, é unicamente para servir aos interesses dos trabalhadores da roça e das usinas de açúcar. Não existe para nenhuma outra coisa.”

Ao final, reforça o objetivo do pedido: “(…) assim ele poderá publicar todas as notícias e cartas que receber e ajudará mais a luta dos homens da roça pela melhoria da sua situação”. Mesmo sem ter grande sucesso neste campanha, o semanário foi um importante instrumento de luta pela terra, até ser interrompido pela brutalidade do golpe militar. Mais tarde, o jornal ganharia um slogan: “A terra para os que nela trabalham”.

NOTAS

1 Esteves, 2007, p.117-118. Disponível em http://bit.ly/29y92l9

2 Idem.

3 Idem.

4 Stédile, “Terra Livre; o sonho continua!”, ver http://bit.ly/29yalk8

5 Enderson Medeiros, 2016, p.25. Disponível em http://bit.ly/29yafcc

6 Disponível em http://bit.ly/29yaW5c

Deixe uma resposta