Jornal Nacional: a “cadeia de comando”

Visto de dentro, o JN se assemelha a um funil. Passam por ele, todos os dias, centenas de fatos e eventos do mundo inteiro. De tudo, apenas 25 notícias em média chegam aos telespectadores. A operação desse filtro constitui a essência do trabalho do JN. A qualidade da filtragem, aliada à preparação e apresentação cuidadosa daquilo que passa por ela, faz do programa o mais importante formador de opinião do Brasil. Há quatro décadas.

Bonner não decide solitariamente tudo o que vai ou não vai ao ar. Várias vezes ao dia, confabula com seu chefe direto – Ali Kamel, diretor da Central Globo de Jornalismo, que responde por todos os programas jornalísticos da Rede Globo. Kamel, por sua vez, conversa com frequência com o chefe de ambos, o gaúcho Carlos Henrique Schröder, diretor-geral de Jornalismo e Esporte da emissora. Essa é a cadeia de comando.

Lido de forma crítica, este trecho (e outros) – disponível no próprio site da Rede Globo, aqui – é uma denúncia. O Jornal Nacional é uma produção autoritária, liderada por estrategistas das Organizações Globo a serviço de seus interesses empresariais (vide matérias da TV Digital ou sobre a Rede Record/IURD, entre centenas de exemplos diários). É um instrumento ideológico clássico, que 40 milhões de pessoas que nunca leram ou entenderam Gramsci recebem diariamente (e não é preciso lê-lo para entender o mecanismo, mas vale a leitura para quem efetivamente acredita na democracia).

As matérias seguem o padrão da “obviedade” – é óbvio que os temas são X, Y, Z… -, da novidade (muitas vezes o que é “velho”, porém importante, é deixado de lado), da superficialidade e descontextualização (o texto citado denuncia isso), da rapidez (própria da economia, não da realidade social). Os temas de caráter mais político obedecem ao script ideológico de seus “donos”, como é possível visualizar neste pequeno texto. Há tantos filtros que é impossível termos qualquer busca por “imparcialidade”.

E o pior é que um dos lugares privilegiados e históricos, na sociedade civil, de crítica a estes mecanismos – a Universidade – está comprometido, sobretudo no campo de formação dos profissionais que produzem as matérias: a Comunicação. Basta notar que o Departamento de Comunicação da PUC Rio é quase que um setor de extensão universitária da TV Globo (não é nenhuma novidade, para quem conhece) e a coordenadora de jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ é coordenadora da Globo Universidade (aqui).

Perdemos muito, como sociedade civil, ao assistir esse show de autoritarismo no campo da informação – notavelmente, um campo muito importante para o desenvolvimento de qualquer país.

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