Não causa estranheza as opiniões contrárias ao simbolismo da posse de Joaquim Barbosa na presidência do Tribunal Superior Federal, a mais alta corte da justiça brasileira. Quem tem olhos singelos saberá o valor simbólico do primeiro negro a assumir essa instituição, igual à importância da primeira mulher eleita presidente do Brasil.
Desde o começo das políticas de ações afirmativas na última década, quando o negro voltou a ser visível, cortando o ciclo vicioso, o debate em torno do racismo não ganhou maturidade e consistência. Estamos na fase de quem se posiciona contra ou a favor das cotas ser considerado racista. Durante anos os negros somente reclamavam e eram criticados, diziam que deveríamos levantar a cabeça. Hoje, quando finalmente estamos em ação,os críticos de plantão dizem que o negro está com privilégios demais (como se já tivéssemos) e que queremos tirar o direito do próximo.
Joaquim Barbosa merece sim, estar onde se encontra por ser negro. Não queremos exceções,queremos igualdade de oportunidade conforme diz a constituição. Não queremos ver a posse de outro Joaquim Barbosa daqui a 50 anos ou sabe se lá quando, que não seja mais uma exceção que entrará para história como o ÚNICO negro.
Quem olha essas manifestações contrárias ao significado de Joaquim Barbosa, talvez pense que o Brasil e seu povo são imunes a todos tipos de preconceitos. Não somos racistas, nem machistas ou homofóbicos, a primeira mulher eleita presidente sabe disso. Somos um país preconceituoso sim, e o mais grave, hipócrita, travestidos em liberais. Porém, quando as minorias sem voz rompem as barreiras e ocupam os mesmos espaços negados há séculos, aí contra argumentam dizendo um basta para qualquer avanço dessas massas. Ou mesmo para quem desses grupos está dentro do poder, tentam impor o discurso ideológico contra suas massas de origem. Tentam reproduzir o modelo ideológico de exclusão das classes média burguesa, detentora de todo processo de exclusão de nosso país.
Joaquim Barbosa, Dilma Rousseff ,Lula e demais que ousam quebrar o ciclo da exclusão e preconceito. Cometem e cometerão muitos erros como qualquer ser humano.
O ministro Joaquim Barbosa votou a favor das cotas raciais, poderia ser contra argumentando que não precisou de nenhuma política de cotas, mas, em toda sua carreira judiciária, deve ter indagado a si mesmo: “Onde está o meu povo? Por que somente eu? Em toda história do supremo não houve outro negro com as mesmas capacidades que as minhas?
Esperamos que Joaquim Babosa seja bem sucedido na presidência do STF. E não esperamos que seja o único de toda história.
(*) Fabio Nogueira é militante da Educafro e estudante de história da Universidade Castelo Branco. E-mail Fabionogueira95@yahoo.com.br
