João e a Revelação da Liberdade

“A verdade vos libertará” (Jô 8,32)

Um Povo de Reis e Sacerdotes

O CONTEXTO

Não podemos compreender o evangelho segundo S. João fora da perspectiva do livro do Apocalipse. Mesmo que os dois livros não tenham sido escritos pelo mesmo autor no seu teor atual, pelo menos temos a certeza de que ambos estão estreitamente relacionados e foram escritos por pessoas que pertenciam a uma mesma tradição.O livro do Apocalipse é anterior ao evangelho e deve ser lido antes do evangelho, se queremos entender a mensagem deste último. O Apocalipse fornece o contexto do evangelho. De certo modo podemos dizer que o evangelho de João é uma leitura do evangelho de Jesus Cristo à luz dos acontecimentos contemplados e interpretados pelo livro do Apocalipse.

O livro do Apocalipse não exprime explicitamente uma mensagem sobre a liberdade. Não é o seu tema. Mas a mensagem sobre a liberdade que se acha no quarto evangelho não pode ser separada do seu contexto que é o Apocalipse. O Apocalipse mostra a história e não a exprime em termos abstratos. Não tem oportunidade de usar o vocabulário da liberdade, mas mostra o povo livre implicado no drama do mundo, enfrentando o seu adversário cósmico e histórico de sempre. Por isso, a contemplação da luta do povo dos homens livres contra os opressores da liberdade constituirá a melhor introdução à leitura da revelação da liberdade no evangelho segundo S. João. O evangelho considera a mesma perspectiva, usa os mesmos conceitos e ensina a mesma mensagem, mas em outra forma literária. O que o Apocalipse mostra na forma de drama histórico mundial, o evangelho o expõe em forma de discursos de Jesus: Jesus anunciou o que mostra o Apocalipse.

Vimos nas meditações anteriores a proclamação da mensagem cristã para o mundos dos judeus, dentro do contexto judaico e numa linguagem judaica. Para S. Paulo o império romano era simplesmente uma circunstância acidental. Não era objeto da mensagem. Não interferia realmente com a novidade do cristianismo. Parecia tão neutro como o ar, a terra e o mar; uma parte da paisagem e mais nada. A liberdade não o atingia. Ele parecia estar fora do alcance da liberdade.

Agora, na perspectiva de João, o império romano fica no centro do drama. Acontece que muitos anos passaram: 30 anos entre as grandes epístolas paulinas e o Apocalipse. Em 30 anos as circunstâncias mudaram. Com a destruição de Jerusalém e do templo, a polemica judaica contra as novas igrejas perdeu grande parte da sua força persuasiva. Ao invés, sobretudo nas cidades gregas da Ásia Menor, a presença das novas comunidades cristãs começou a ser percebida como fator social e cultural novo e específico. Apareceram os primeiros conflitos e as primeiras formas de rejeição do cristianismo pelo conjunto social e cultural do império romano. Alguns cristãos já morreram vítimas das agressões de certos grupos irritados pela posição dos cristãos contra os cultos pagãos e provavelmente contra o culto imperial. As sete cartas do Apocalipse às sete igrejas revelam tais situações de conflito.

Nesse contexto o significado histórico do Apocalipse de João foi o anúncio do novo drama que se estava abrindo para o cristianismo. A profecia de João revelou que esses conflitos não deviam ser interpretados como simples acidentes da história: nas primeiras perseguições havia que reconhecer os primeiros sinais de um debate que doravante ia definir a condição cristã no mundo. A oposição entre fariseus e discípulos de Jesus dentro do povo judaico, perspectiva constante de Paulo, era um fato superado pela evolução. Mas o fim dessa oposição como situação característica não significava para a Igreja de Deus um tempo de paz e tranqüilidade. Muito pelo contrário. A perseguição das primeiras comunidades cristãs pelos fariseus era apenas uma imagem de uma perseguição muito mais ampla, profunda e radical. A Igreja estava na aurora de uma perseguição imensa e de um drama imenso que ia ocupar a totalidade do seu destino na terra. O Apocalipse era a revelação da totalidade do porvir da Igreja na forma de uma imensa perseguição e de uma imensa resistência à perseguição. A liberdade cristã era chamada a ser vivida sob a forma de uma resistência oposta a uma oposição total e radical. E a oposição procedia desta vez do império romano na sua totalidade: como cultura e como poder, como união de todos os povos da terra e como sistema de dominação total.

O julgamento de João sobre o império romano é dramático e terrível. Mas não podemos considerá-lo como excepcional na história cristã. Lembremo-nos que para S. Agostinho o império romano era “magnum latrocinium”: uma imensa empresa de roubo, banditismo, no fundo uma imensa máfia, e nada mais. E na realidade assim era, apesar de o império ter-se revestido de todos os despojos e bens materiais e culturais roubados aos povos escravizados, de tal modo que o mérito de todo o trabalho dos povos escravos lhe era atribuído. João não se deixou seduzir pelo prestigio do império. Ao invés, a sua profecia é a revelação da mentira que engana os povos, da mentira que é o império e que chama uma profecia generalizada de denúncia dessa mentira. O papel da Igreja no mundo será justamente a denuncia dessa mentira total numa profecia total. Esse é o contexto em que se vive a liberdade cristã.
Hoje em dia, o império romano morreu. Mas a mensagem de João não perdeu a sua força. Pois o império é uma realidade permanente. Ressurge continuamente. Os impérios históricos desaparecem, mas o sistema renasce sob outras formas. A teologia cristã da história consiste justamente em mostrar como as realidades denunciadas por João reaparecem em novas circunstancias sob novas formas. Na atualidade, a realidade do império é mais viva do que nunca no império que domina o mundo. Nós mesmos somos uma parte do império americano, dirigidos por um poder político e econômico que corresponde aos caracteres denunciados por João no império romano, com a ajuda de uma ideologia imperial que é a ideologia do anti-terrorismo , hoje em dia norma e consciência de todos os órgãos do império em todos os países que dependem dele.

De acordo com a mensagem profética de João o povo de Deus há de ser colocado dentro do contexto desse drama, se se quer compreender o conteúdo real da sua liberdade. Já não se trata de conquistar a liberdade da lei de Moisés, mas a liberdade frente à máquina infernal do império romano. A liberdade cristã é histórica, um dado que se conquista dentro de um contexto histórico numa luta contra adversários cujos nomes agora são conhecidos. Já não são os rabis de Israel, mas os imperadores com a sua corte, a sua administração e os seus exércitos.

O DRAMA

Vejamos primeiro como o Apocalipse descreve a situação histórica do povo de Deus.
Em primeiro lugar, João revela que o império romano não se considera aqui na totalidade das realidades que o império envolve. Naturalmente dentro das fronteiras do império há inúmeras realidades humanas boas e ótimas, que não têm responsabilidade nenhuma no sistema imperial; pelo contrário, são vítimas do sistema imperial. O que se considera é o sistema como tal, o sistema de dominação que é ao mesmo tempo um sistema de mentira, sistema que pretende destruir o cristianismo porque está descobrindo pouco a pouco que nele tem o seu mais radical adversário.

Ora, segundo João, esse sistema não é apenas um acidente histórico; não é apenas obra de homens malévolos, corruptos pela vontade de poder. Tal sistema de poder não se explica pela pura malícia de alguns indivíduos: os imperadores são muito mais instrumentos do sistema de poder do que seus autores. Não está excluído que os imperadores e seus funcionários possam ser pessoas com boas intenções e, inclusive, capazes de atos bons. Mas por trás deles está o sistema. E o autor do sistema, o instigador que fez surgir a máquina imperial é o próprio Satanás, a serpente do Gênesis.

Para João, o drama mundial da oposição entre o sistema imperial romano e as igrejas cristãs é a manifestação, a continuação, a repetição sempre renovada do drama do primeiro capítulo do Gênesis: a luta entre Deus e “o grande dragão, a cobra antiga que se chama diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro” (Ap 12,9). O jardim do paraíso tem agora o tamanho do mundo inteiro. A humanidade enganada pela serpente é o conjunto dos povos: “Toda a terra admirou a fera e adorou o dragão” (Ap 13,3). O dragão não conseguiu vencer Cristo, mas continua fazendo guerra ao seu povo; “o dragão irritou-se contra a mulher e foi fazer guerra ao resto da sua descendência, aos que guardam os mandamentos! (12,17). Esse é o dragão que enganou a antiga Eva, mas que foi vencido pelo Filho da nova Eva e que não conseguiu enganá-la: agora o dragão continua a luta ao atacar os descendentes da nova Eva, isto é, as igrejas cristãs. Portanto, a perseguição que sofrem as igrejas cristãs é a nova forma da luta do dragão, que não conseguiu enganar a Igreja, a nova Eva.

E a fera que o dragão suscitou, “o dragão deu-lhe a sua força, o seu trono e grande poder” (Ap. 13,2), é, de acordo com os melhores intérpretes, o império romano e todos os poderes que lhe prolongam o domínio na terra. “Foi-lhe dado fazer a guerra aos Santos e vencê-los. E foi-lhe dado poder sobre toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 13,7). A perseguição que sofrem as igrejas desde o fim do século I é essa guerra de Satanás. A guerra da mentira, da falsidade contra a verdade. Pois só Deus é verdadeiro.

Sobre os mártires, os discípulos que são fiéis até à morte, o dragão não tem poder: foi vencido por Jesus, pela virtude da sua morte e ressurreição: tal é o sentido dos mil anos de preservação de que fala o profeta do Apocalipse: “Vi descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o dragão, a serpente antiga, que é o diabo, Satanás, e o algemou por mil anos” (Ap 20,1s). “E atirou-o no abismo, que trancou à chave e selou por cima, para que já não seduzisse as nações até que se consumassem mil anos” (20,3). “Depois de se consumarem mil anos, Satanás será solto da prisão saindo para seduzir as nações dos quatro cantos da terra, Gog e Magog, reuni-las para a luta, numerosas como areia do mar… Mas desceu um fogo do céu e as devorou” (Ap 20,9).

A condição da igreja há de ser pensada como o contrário da condição do primeiro Adão que foi escravizado por Satanás e submisso à escravidão do pecado. A libertação da mentira e da morte, isto é, da condição de submissão ao dragão, é a condição das igrejas perseguidas que enfrentam pela vitória a atual agressão do dragão.
O livro do Apocalipse é, porém, uma reinterpretação da totalidade do Antigo Testamento, uma compreensão dos acontecimentos atuais à luz dos grandes antagonismos passados do povo de Deus. Depois do antagonismo entre Satanás e os pais da humanidade, verificamos a luta entre Egito e Israel. Dessa luta resultou a libertação pelo Êxodo. Ora, nas igrejas cristãs estamos assistindo a um novo Êxodo. Não podemos citar aqui todos os textos do Apocalipse que evocam o Êxodo. Basta-nos lembrar alguns dos mais importantes. Eles nos mostram a realidade atual da libertação da qual o Êxodo de Israel do Egito foi uma imagem e uma primeira aproximação. “E vi também como que um mar… E os vencedores da fera … conservavam-se de pé sobre o mar com as cítaras de Deus. Cantavam o cântico de Moisés, o servidor de Deus … (Ap 15,3). Passaram o Mar Vermelho, e Cristo, o novo Moisés, o Cordeiro os leva pelo deserto até a nova Jerusalém: “O Cordeiro será o seu pastor e os levará às fontes das águas de vida” (Ap 7,17). O Egito é identificado pelo autor do Apocalipse: as duas testemunhas que encarnam a Igreja de Deus frente ao dragão estão no Egito. Agora é que estamos no Egito e que estamos vencendo os egípcios, ainda que lhes seja concedido dar a morte às testemunhas da verdade (Ap 11,8).
Na história de Israel, o papel do Egito, opressor, cruel, idólatra, anti-divino foi assumido mais tarde por Babilônia. Ora, a oposição entre um resto de Israel perseguido, mas inabalável e a grande cidade dos ídolos e da blasfêmia acha-se renovada e atinge o auge na condição das igrejas cristãs no momento em que João recebe a sua revelação e proclama a sua profecia.

Babilônia é, ao mesmo tempo, o grande ídolo, a grande mentira que assume o lugar de Deus e do seu Cristo e a cidade que domina os povos da terra. Ela é dominação para com os homens e mentira para com Deus: face a um Deus que dá vida, ela é fonte de morte: “Vem e eu te mostrarei o julgamento da grande prostituta, que se assenta sobre as muitas águas, com a qual se prostituíram os reis da terra” (Ap 17,1-2). “A mulher estava ébria do sangue das testemunhas de Jesus” (Ap 17,6). O anjo me disse: “As águas que viste, sobre as quais a prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas” (Ap 17,15).

Os interpretes concordam: Babilônia é Roma, o império romano. Esse império que enfrenta a Igreja é a realização completa daquilo que Babilônia prefigurava no Antigo Testamento. Desse modo a luta de Israel contra o Egito e a Babilônia, ou melhor, a luta de Deus em Israel contra o Egito e a Babilônia, há de ser contemplada na situação atual: fornece à situação atual as categorias que nos permitem compreendê-la. Igreja é Israel frente ao Egito e à Babilônia, Tanto o Egito como a Babilônia têm por caráter típico a dominação dos povos reduzidos à escravidão material e cultural: estão submissos à edificação da máquina do poder e riqueza duma potencia mundial que se quer total e absoluta, e estão submissos à mentira radical e blasfematória que consiste em apresentar esse poder mundial como o verdadeiro deus e salvador. Frente a essa escravidão se levantam as testemunhas, a igreja dos profetas, denunciando a mentira e rejeitando a submissão: essa é a sua liberdade. Precisamos ver a libertação e a liberdade no quadro do drama total da humanidade colocada na oposição radical entre escravidão total e liberdade radical.

Para completar esse quadro, convém assinalar um aspecto que será importante para a interpretação do quarto evangelho e que já é importante, sem dúvida alguma, para o próprio Apocalipse. João considera uma quarta oposição como sendo paralela às três que acabamos de opor. Trata-se da oposição tão viva na tradição da primeira geração cristã entre o grupo dos discípulos de Jesus e o judaísmo simbolizado por Jerusalém: Jesus morreu em Jerusalém. Jerusalém matou-o. A cidade que tinha recebido as promessas messiânicas matou o Messias. Jerusalém transformou-se assim num novo símbolo do poder de Satanás e do seu assalto contra Deus. Jerusalém é outra figura do império romano. Pois o que está acontecendo presentemente no império romano é a repetição, a renovação daquilo que aconteceu com Jesus em Jerusalém. Jerusalém pôs-se na linha do grande dragão-serpente do Gênesis, do Egito, da Babilônia. Ela representa a oposição à verdade, o poder da mentira e da dominação. Assim se explica por que João vê os cadáveres das testemunhas mortas por causa do império romano, em Jerusalém: “seus cadáveres jazerão na praça da grande cidade que se chama simbolicamente Sodoma ou Egito, onde o seu senhor foi crucificado (isto é, Jerusalém)” (Ap 11,8). Jerusalém, quer dizer, os judeus que crucificarm a Jesus e, com eles, os judeus que participam da perseguição aos cristãos (Ap 2,9; 3,9), separa-se do verdadeiro Israel e junta-se com os inimigos de sempre do povo de Deus, Egito, Sodoma, Babilônia. Frente a eles, o verdadeiro Israel, que são as comunidades cristãs, permanece fiel à vocação do Israel de sempre.
Tal é a estrutura do mundo revelada pela profecia de João. Contudo, o profeta não usa o vocabulário de liberdade para enunciá-la. É verdade que as palavras abstratas não intervêm para definir a condição cristã. Mas a realidade concreta da liberdade está bem presente. Eis como o autor do Apocalipse a vê.

Por um lado, temos o dragão, as feras, Egito, Babilônia, a Jerusalém traidora que mata o Messias. Ora, essas imagens designam o império romano e todos os seus sucessores. O que os caracteriza, assim como as suas figuras do Antigo Testamento, são dois atributos: a mentira e a opressão. A mentira consiste em dar o nome de Deus a quem não é Deus: ao poder imperial; o culto ao imperador não é a totalidade da blasfêmia; pois o conjunto do sistema é uma blasfêmia; mas o culto imperial representa bem o caráter anti-divino do sistema de civilização (ou de anti-civilização, encarnado no império). Quanto à opressão, ela é total e envolve todas as atividades dos povos submissos condenados a edificar uma riqueza blasfematória e atentatória à dignidade de Deus e dos homens.

Já citamos alguns textos que mostram a dominação total sobre os povos escravos. Eis alguns textos a mais. “Conseguiu que todos tivessem um sinal na mão direita ou na fronte, e que ninguém pudesse comprar ou vender se não tivesse o sinal, o nome da fera ou o número do nome” (Ap 13,16-17). “Caiu, caiu Babilônia… todas as nações beberam do vinho da ira da sua desenfreada prostituição, e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo” (Ap 18,2-3). Não podemos citar aqui todo o capítulo 18 que é uma lamentação de estilo profético na linha dos profetas do antigo Testamento sobre a ruína de Babilônia. “Todas as nações erraram por causa dos seus malefícios” (18,23).

Diante dessa dominação total, numa mentira e num engano total, está o povo dos profetas. As igrejas cristãs são descritas na categoria dos profetas. O seu papel no mundo, a sua figura ideal é a dos profetas. São os continuadores dos profetas do Velho Testamento.
Entre o poder de dominação e os profetas, quais são as relações? Quais são os atos que constituem a história do seu enfrentamento? Esses atos são três e aparecem sucessivamente no capítulo 11: a profecia, o martírio e a ressurreição da alma, como prelúdio da futura ressurreição do corpo. A profecia é uma primeira vitória sobre a mentira, e a dominação. A morte dos mártires é uma derrota aparente que a força de vida de Deus transforma em triunfo. O destino da Igreja na terra está marcado por esses três atos: são as três etapas do seu relacionamento com o mundo.

LIVRES da DOMINAÇÃO

Tudo o que acabamos de lembrar a respeito do contexto geral do livro do Apocalipse permite-nos agora entrever em que consiste a liberdade que resulta da salvação ou libertação realizada por Jesus. Essa liberdade tem dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar ela é atitude de afirmação e de desafio em face do poder de mentira e dominação; em segundo lugar, ela consiste no novo relacionamento entre os membros do povo de Deus que nasce da fecundidade do martírio e da profecia entre os homens que se salvaram da dominação e da mentira.
Em primeiro lugar, a liberdade dos homens livres está em não aceitarem o domínio do dragão e das feras, da Babilônica ou do Egito e não se deixarem seduzir pelo aparelho de intimidação da mentira. Essa é a liberdade que se conquista pelo ato de rejeitar a dominação. E não se trata simplesmente duma rejeição interior, mas do ato público da profecia que é um verdadeiro desafio: eles têm o poder de renovar os sinais que faziam de Moisés e Elias os grandes profetas do passado (11,3-6). Assim os cristãos de Sardes: “Sei onde habitas: aí se acha o trono de Satanás. Mas tu te apegas firmemente ao meu nome e não renegaste a minha fé, mesmo naqueles dias em que Antipas, minha fiel testemunha, foi morto entre vós, onde Satanás habita” (2,13).

Os profetas estão destinados ao martírio: “Depois de terem terminado seu testemunho, a fera que subir do abismo há de fazer a guerra contra eles, vencê-los e matá-los” (Ap 11,7). Mas depois do seu martírio “um espírito de vida vindo de Deus entrará neles: eles se porão de pé…” (11,11). “Foram resgatados da terra” (14,4). Estão a salvo das garras do dragão.

A liberdade das testemunhas procede da confiança total e absoluta em Deus que os leva à vida ainda que pelo caminho do martírio. Confiança absoluta no valor da morte vivida em Jesus Cristo. E confiança absoluta na força da palavra do testemunho. A liberdade é a superação do medo e da segurança individual e coletiva. A liberdade da testemunha é o desenvolvimento da liberdade apostólica de Paulo: esta se estende à nova condição dentro do império romano. A liberdade da testemunha é a figura terrestre e a encarnação da liberdade da palavra de Deus à qual nada pode opor-se. Essa liberdade se paga a preço altíssimo, mas uma vez pago o preço, essa liberdade logra romper todas as barreiras da dominação, da opressão e da mentira. Ainda que totalmente desarmado no meio do mundo opressor, o profeta é livre porque pode pronunciar o seu testemunho, e esse testemunho está agindo no mundo infundindo fé, suscitando o povo de Deus.

O POVO LIVRE

Chegamos assim ao segundo aspecto da liberdade: a liberdade do povo resgatado pelo testemunho. O testemunho dos profetas gera o novo Israel, que se levanta como povo livre diante do mundo escravizado. O povo livre de Deus procede dessa massa escravizada: são as primícias que foram compradas pelo sangue de Cristo e salvas pelo apelo do testemunho. Sem dúvida, o estado final desse novo Israel acha-se somente depois da prova final do martírio: os seus membros definitivos e exemplares são as almas dos mártires que aguardam a hora da ressurreição final: “as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus e todos aqueles que não tinham adorado a fera ou sua imagem, que ano tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos” (Ap 20,4). Deles se fala quando se cantam as aclamações a Cristo: “resgataste para Deus, pelo teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e nação” (5,9). Porém esse povo de Deus, novo e verdadeiro Israel, já está presente, ainda que permanentemente exposto a perseguição, no meio deste mundo: a sua presença atual responde à fase de profecia dos mártires. A Igreja atual é uma Igreja confessante, uma Igreja-profeta, e como Igreja-profeta ela constitui a presença da liberdade entre os homens aqui na terra. A liberdade não qualifica somente a palavra, mas o próprio povo que a recebe e assume a tarefa de proclamá-la.
Se as massas dominadas pelo dragão e as suas encarnações terrestres são escravas que, somente o sangue de Cristo pode resgatar, ao invés, o verdadeiro Israel adquire a qualidade de povo livre: “ele fez de nós um povo de reis e sacerdotes” (Ap 1,6); “fizeste para nosso Deus um povo de reis e sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra” (5,10). Essa fórmula, povo de reis e sacerdotes, alude à constituição de Israel proclamada por Deus no Sinai. Israel foi constituído povo livre: independente de toda dominação de príncipes ou de sacerdotes. Um povo em processo de afirmação de si mesmo: assim surgiu a noção cristã de povo. Um povo, no sentido cristão da palavra, quer dizer uma sociedade em que todos participam do poder quanto às relações com Deus e entre si mesmos. Todos são sacerdotes e portanto comunicam com Deus sem depender duma classe privilegiada e todos participam do governo do Estado porque o poder não é reservado a uma classe de salvadores.

A proclamação dum povo em que todos são reis e sacerdotes tem consequências incalculáveis. Todos os sistemas de dominação são virtualmente atingidos e mortalmente feridos. Sem dúvida, uma longa história será necessária para que tal proclamação entre realmente na história e produza consequências visíveis. No principio, tratava-se apenas duma proclamação feita pelo mártir. Mas quando o novo Israel começou a crescer, apareceram os primeiros movimentos no sentido de buscar na história uma encarnação dos princípios de liberdade. Apareceram movimentos para encarnar o sacerdócio de todos os membros do povo: sabemos como finalmente o Concilio Vaticano II publicou solenemente o sacerdócio de todos os membros do povo de Deus e a dignidade de povo sacerdotal. Ao mesmo tempo o Concilio destacou, depois de muitos documentos pontifícios, o direito de participação de todos os cidadãos no governo da cidade: no povo de Deus todos são reis e ninguém pode ser tratado como escravo ou como elemento sem direito e sem participação. Essa participação é entendida como um movimento indefinido para mais igualdade efetiva no governo e nas responsabilidades da vida coletiva.

Assim vemos que, quando o conceito cristão de liberdade entre em contato com a totalidade social daquele tempo, provoca a abertura completa da revelação. A liberdade não é somente a libertação da lei judaica, a libertação dos sistemas de dominação dentro do povo judaico, como se o fato de se afastar do antigo povo de Israel fosse suficiente para esgotar todas as virtualidades da mensagem de libertação. Muito pelo contrário: a emancipação da dominação dos fariseus e sacerdotes do templo de Jerusalém era apenas uma figura do grande movimento de libertação que começa no momento em que o evangelho de Jesus é anunciado no meio das nações e dos impérios. O livro do Apocalipse esclarece o que estava ainda um pouco implícito nos livros anteriores. No fim do primeiro século, o evangelho de Jesus Cristo atinge a plenitude das suas implicações. O próprio Jesus não tinha explicitado tudo, dado o fato de que estava reservado para as tribos do Israel antigo. Mas os apóstolos foram encarregados de pôr o fermento da sua palavra no meio do mundo. O Apocalipse de João é justamente esse ato de colocar o fermento da liberdade no meio do império romano e fim de que brote o povo livre do meio da escravidão e da opressão. Aí começa a história nova e definitiva do povo livre do Israel novo, livre pela palavra profética, livre e chamado a pagar como Jesus o preço da sua liberdade, mas livre definitivamente pela força de Deus.

2 comentários sobre “João e a Revelação da Liberdade”

  1. Pingback: Tweets that mention João e a Revelação da Liberdade | Revista Consciência.Net: acesse a sua. -- Topsy.com

  2. Pingback: João e a revelação da liberdade | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

Deixe uma resposta