Por Eduardo Sá
Fotos: Byron Prujansky
Porto Alegre (RS) – Globalização, desigualdade e a crise civilizatória, esse foi o tema da mesa de debate na tarde de ontem (20/01) no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Com o auditório no Parque Farroupilha lotado, os palestrantes defenderam o fortalecimento da democracia e fizeram um balanço da conjuntura política e econômica das últimas décadas.
O sociólogo português Boaventura Souza dos Santos fez um auto crítica da criação e trajetória do processo de construção do Fórum Social Mundial. Disse que o tema da mesa é objeto fundamental nas atividades desta edição comemorativa. Segundo ele, quando o Fórum foi lançado a ideia era de uma globalização hegemônica e outra contra hegemônica, havia um diálogo direto entre Davos e Porto Alegre, a globalização do capital e a dos povos.
“Nesses 15 anos não emergiu essa globalização alternativa que pensamos, mas esses movimentos se articularam continental e intercontinentalmente. Mas não foi possível articular diferentes tipos de movimentos, e essa é a questão. A decisão dominante era também que o FSM não tomava posição sobre questões mundiais, porque perderíamos consenso e continuaria aberto. O balanço é que era melhor tomar certas posições políticas, no entanto a orientação é outra. A tragédia é que mantivemos o consenso e esvaziamos o Fórum. Ninguém quer gastar com viagens caras sem decisões políticas que não vão dar em nada, então para continuar o Fórum tem que ter uma estrutura paralela que nos permita tomar posições. Por que mil delegados do MST estão reunidos aqui ao lado e não estão aqui? Porque não se toma decisões pela reforma agrária, as terras indígenas roubadas, os quilombolas, sobre a PEC 215, não se toma posição sobre nada”, avaliou.
Apesar de avaliar positivamente a onda de governos progressistas na última década na América Latina, apontou ainda erros dos movimentos ao acharem que tinham amigos no poder. Embora esses governos tenham trazido muitas coisas positivas, alguns grupos foram cooptados e a juventude afastada nesse processo, complementou.
“Estamos solidários aos governos progressistas, sou contra o golpe parlamentar aqui no Brasil, mas queremos o nosso lado ao nosso lado. Que não tome certas medidas que nos envergonham, como colocar a ministra Katia Abreu no governo. Isto não se pode fazer às forças de esquerda e movimento sociais. Outros governos não tributaram os ricos, uma política tributária progressiva: os pobres pagam proporcionalmente mais que as empresas e bancos, que nunca tiveram tantos lucros. Precisamos mudar, porque essa direita é revanchista e quer retomar”, disse.
A avaliação de Boaventura sobre a atual conjuntura é que o capital financeiro não quer corromper mais políticos para chegar ao poder, dando o exemplo de representantes de grandes empresas e bancos na Argentina, Espanha, Portugal e Grécia diretamente no poder executivo. Para combater esse avanço da direita, concluiu, além de ocupar as ruas é preciso aprender mais com a democracia participativa. “É mais complicado hoje, precisamos aprender com a história se não não haverá mais 15 anos de FSM e isso não podemos aceitar”, finalizou.
O evento está sendo realizado num momento ímpar na história dos povos, especialmente latino-americanos e caribenhos, destacou Socorro Gomes, do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ/Brasil). Embora o Fórum seja um ambiente de grande diversidade, acrescentou, algumas coisas são consensuadas.
“A questão da luta contra a guerra e a opressão aos povos, e construir um mundo de paz. Recordo a destruição do Iraque, as assembleias e praças do mundo foram tomadas por milhares de pessoas contra a invasão dos EUA e seus aliados. Outra marca é a crítica à insanidade capitalista, assim como a defesa da democracia e o direito dos povos. Temos grandes desafios nessa crise civilizacional, nunca cresceu tanto no mundo as desigualdades”, criticou.
Gomes lembrou ainda da crise humanitária com os imigrantes no mundo. “É uma política da barbárie, contra os direitos humanos e dos povos. Precisamos ter o contraponto, fazer um fórum contra a guerra, a opressão e pela defesa da justiça e da humanidade. É preciso defender a paz e soberania dos povos. Paz rima com liberdade, justiça, democracia e integração. Queremos mais direitos dos trabalhadores, seguridade social, mais saúde e justiça, e não aceitamos golpe”, concluiu.
A crise humanitária também foi abordada pelo jornalista Leo Gabriel, da Áustria. Segundo ele, estamos vivendo uma III Guerra Mundial em território Sírio. “Todos estão lucrando com essa guerra, e são mais de 250 mil mortos. Mais da metade da população está saindo desse país, alguns governos inclusive de esquerda estão apoiado o governo Assad”, criticou. “Temos aprendido com os indígenas na sua luta por autonomia e gestão segundo uma identidade social e cultural, assim como os curdos com seu território auto gestionado. Somente substituindo essa estrutura vertical, monolítica, que sempre tem sido a força do imperialismo, por um estado federal pluriétnico cultural, reconhecendo outras redes diferentes”, disse.
“Estamos despojados pelas guerras, minerações, xenofobia, extrativismo, o ímpeto autoritário pelos que concentram maior poder econômico. Decidimos dar respostas a esse momento traçando estratégias que ampliem as lutas pelos direitos da habitação. Gerar convergências e gerar uma associação de organizações para um coletivo com pontos em comum em busca de uma luta mais ampla. Toda essa crise gerada pela globalização, principalmente cultural, temos de dar respostas compreendendo e pensar nos nossos objetivos e pontos de convergências nesses fóruns. Dar uma resposta alternativa lutando contra a globalização capitalista neoberal”, destacou Cristina Reynold da Aliança Internacional de Habitantes da Argentina.
Para Maren Montovani, do movimento Stop to Wall, o Fórum Social Mundial pode ser uma espaço de criar consensos e a questão palestina é um exemplo disso. Ela defendeu um abaixo assinado em defesa do boicote militar e sanções a Israel. “É um tema que mostrou uma continuidade incrível desde a constituição do Estado de Israel, com a expulsão do povo palestino desde 1948. Cada dia mais terras são roubadas, a água e a vida desse povo. Está colonizando a terra. Mas, apesar de tudo, temos a continuidade da luta de um povo. Há uma reação da comunidade internacional, desde que a ONU criou o êxodo da comunidade palestina qualquer crítica fica só em cartas e palavras. Não teve nenhum momento que Israel tenha sido chamado para responder por seus atos”, questionou.
Alguns dos legados dos Fóruns, de acordo com Claudir Nespolo, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Rio Grande do Sul, são a ascensão de governos progressistas na América Latina e a derrota da proposta da Área de Livre Comércio para as Américas (Alca). Ele se mostrou preocupado com a conjuntura política e econômica no Brasil.
“A gente não se ilude sobre o que está acontecendo, os golpistas do impeachment com o seu aparato midiático conservador têm uma agenda. São os mesmos que querem a precarização de trabalho, a terceirização sem limitem que o governo Dilma é o mais corrupto da história e que vários programas sociais são gastanças. São os mesmos que devem muita explicação sobre corrupção. Sabemos reconhecer as virtudes desse governo, mas queremos a volta da Dilma que reelegemos em 2014. E precisamos enfrentar o tema da dívida, da taxação das grandes fortunas e estabelecer para onde vai a produtividade do povo do mundo”, destacou.
Intelectuais e lideranças fazem um balanço dos 15 anos do Fórum Social Mundial
