Infâncias roubadas

Foi aqui pertinho de casa, no dia 7 de outubro: cinco meninos e meninas corriam, como que fugindo. Dali a pouco dois ou três homens o perseguem. O que levavam as crianças? Brinquedos.
01. Na linguagem comum do relato contemporâneo fica assim:
Cinco menores foram vistos nesta terça-feira (7), em um bairro da zona norte do Rio, fugindo após terem praticado um roubo a uma loja de departamentos. Após tentarem fugir com as mercadorias, os menores deixaram os bens na rua. Um deles ainda tentou esconder uma das mercadorias embaixo de um carro, mas um funcionário da loja conseguiu recuperar o produto. Há, atualmente, doze projetos de lei que propõe, entre outras medidas, a redução da maioridade penal para 16 anos, com duas propondo este limite para 14. Os menores infratores, no entanto, aparentavam ter entre 5 e 8 anos. Os menores não foram apreendidos.
02. Mas poderia ser assim:
Cinco crianças corriam com brinquedos na mão. Como crianças, é algo que sabem fazer bem. Mas algo parecia diferente. Seus olhares eram menores. Como se sua infância tivesse sido roubada. Estavam lá, no entanto, correndo por ela. Corriam, sobretudo, pelo direito de brincar. Os homens de uma sociedade empobrecida de valores corriam atrás das crianças. Queriam de volta sua propriedade, que é o que os move. As crianças, que vivem de sonhos, sabiam o risco que corriam ao perseguir sua felicidade. Elas a buscam incessantemente, a ponto de recorrer à fantasia das drogas, que entrega seus sonhos, mesmo que por pouco tempo. A felicidade – já aprenderam elas, duramente – não é para todos. Algumas das crianças são tratadas como meras mercadorias. Produtos de uma sociedade consumida pelo desejo do lucro e que se esqueceu por que correm as crianças. Esqueceram-se também eles, os homens, o motivo pelo qual correm tanto, sem rumo, atrás de suas mercadorias.

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