Indagações com propósito de diálogo, a partir da escuta da palestra da Pastora evangélica Damares Alves

O vídeo que aqui consideramos, me foi enviado por uma amiga cristã, uma missionária evangélica, a quem muito prezo, e a quem agradeço pelo vídeo compartilhado, e que tive o cuidado de ver/ouvir mais de uma vez. Ele é que inspira essas linhas de fraterna provocação, de alguns questionamentos, com o propósito de dialogar com vocês, a partir das provocações do referido vídeo, que, se fosse um texto escrito, lembraria mais um estilo “panfleto”.

A palestrante se apresenta como “pastora, professora, advogada e corintiana”, com Mestrado em Educação e em Direito, e assessora da Frente Parlamentar Evangélica. Lembra que Frente Parlamentar Evangélica já conta com 78 parlamentares, com três senadores, e com perspectiva de um quarto, em breve. Ela estava vindo de um encontro com pastores e deputados federais da referida Frente, além de outros parlamentares estaduais, no qual se tinham discutido os embates em curso.

Passa a projetar e a comentar uma série de casos de excesso quanto à abordagem da sexualidade para crianças, nas escolas, começando por responsabilizar a atual Ministra da Cultura. Mais adiante, faz o mesmo em relação a várias figuras do Governo do PT. O tom da palestra seguiu sendo o de combinar denúncias do gênero com acusação de figuras do Governo e o chamamento à responsabilidade política dos evangélicos, a quem atribui a responsabilidade de transformar essa realidade.

Várias das denúncias feitas merecem, se efetivamente comprovadas, não apenas a manifestação de nossa indignação, como também veemente combate, em especial quanto aos evidentes abusos ou excessos cometidos principalmente contra as crianças, sob pretexto de material didático. Isto, é claro, nos casos denunciados tal como relatados. Refiro-me, por ex., aos casos de informações sobre (homo)sexualidade em idade demasiado precoce, especialmente nos casos em que tal iniciativa soa, antes como um incentivo subliminar do que como mera informação educativa.

Ao mesmo tempo em que, comprovados os fatos denunciados e seus responsáveis aí apontados, descontada uma certa tendência partidarizante e fundamentalista, também expresso minha indignação, permitindo-me, contudo, levantar algumas indagações, em busca de abrir diálogo com vocês, e de sincero desejo de aprendizado de discernimento com vocês, em quem também sopra o Espírito Santo, cuja festa se celebra, neste Domingo, 19 de maio, conforme o calendário de algumas Igrejas cristãs. Que indagações tenho a compartilhar?

– Do ponto de vista de uma leitura samaritana do Evangelho, e de uma perspectiva polítca republicana (“RES PUBLICA”), é razoável utilizar-se os espaços de uma instituição laica para transformá-la em espaços de culto?

– Incentivaríamos – ou, bem menos do que isto – TOLERARÍAMOS que os espaços do Parlamento fossem igualmente ocupados por grupos de tantas outras religiões?

– Cidadãos/Cidadãs iguais a nós em direitos, o quê teriam a dizer sobre isso os que não confessam crença alguma?

– Se, num IMPROVÁVEL acesso (ou excesso?) de sentimento democrático, nós fôssemos “liberar geral” as instâncias do Congresso para todos os grupos, crentes e não crentes, ocuparem aqueles recintos seus respectivos cultos e orações, sobraria algum espaço para o trabalho parlamentar?

– Se tanta fé dizemos ter em Deus, por que não podemos fazer nossos cultos e orações em nossas respectivas igrejas, casas ou espaços mais adequados? Será que esse Deus só faz seus milages, se a gente estiver nos espaços físicos do Congresso?

– É razoável a um(a) cristã(o) afirmar, com tanta veemência, coisas do tipo: “porque Deus nos disse que não são os deputados que vão mudar essa Nação, que não é Governo que vai mudar essa Nação, que não é a política, é a Igreja Evangélica quando clama”? (Ela afirma isto, ao mencionar, lá pelo minuto 43 do vídeo, a situação da derrota da votação do Projeto de Lei de não-criminalização do aborto, em 2008, no auge de escândalos envolvendo, inclusive, deputados evangélicos, recorda ela);

– É mesmo adequado a uma advogada pronunciar-se com tanta ênfase sobre fatos relativos à Saúde Pública, inclusive em cima de estatísticas, tecendo graves acusações a pesquisadores, a ministros da Saúde e outras autoridades, de modo a criminaliza-los com tanta veemência?

– Sempre que escuto uma palestra, sem deixar de atentar para o essencial (o teor da palestra), também procuro saber sobre quem pronuncia a palestra (seu lugar social, sua história de vida, seu compromisso político, suas apostas fundamentais, seu testemunho passado e presente, etc.). No caso em pauta, trata-se de alguém:
* profundamente apaixonada pelas causas que defende;
* a serviço da causa de uma ou várias igrejas evangélicas;
* assessora parlamentar de membros da bancada evangélica;
* com uma formação acadêmica (com Mestrado em Direito e em Educação);
* portadora de uma história de vida com uma infância de profundos traumas;
* com uma perspectiva teológica relativamente frágil ou pouco convincente (na minha limitada percepção).

– As veementes denúncias e invectivas lançadas pela Pastora Damares Alves, foram feitas mesmo a quê título: de cidadã republicana, de integrante de uma igreja, de membro a serviço da Frente Parlamentar Evangélica, da qual é assessora?

Como cidadãos e como cristãos, temos mesmo o direito de “enquadrar”, por ex., assumindo como dogma a posição de que a homossexualidade é expressão de mero capricho humano ou de um desvio patológico? É mesmo razoável uma certa hostilização à educação em tempo integral, em escola pública? É razoável a imputação (direta ou indireta) de culpa á mulher pelas opções dos filhos, ou pelo superdimensionamento da família como (quase) única educadora? É razoável a tendência à criminalização das mulheres por todo tipo de aborto, sobretudo quando feita de forma descontextualizada? É razoável alimentar-se a tendência a superestimar a atribuição ao aborto, como se este constituísse o único ou o principal fator de ameaça à vida de seres humanos, em relação ao descaso ou à pouca atenção às práticas indígenas tradicionais e próprias de sua cultura, sem que houvesse sequer uma leve referência aos milhares de índios (inclusive no Mato Grosso do Sul, lugar da palestra) à mortandade e às ameaças de que são vítimas grupos indígenas da região?

– Nosso compromisso de defender a vida, por acaso, restringir-se-ia aos seres ainda não nascidos ou recém-nascidos? E a vida dos já nascidos e de milhares de crianças e jovens alvo de extermínio? Jesus silenciaria essas situações?

– Percebo que cada um desses traços pessoais e de história de vida pesa sobremaneira nas determinações do tipo de leitura que a palestrante faz:
* da sociedade;
* do Estado (na verdade; quase só Executivo e do Legislativo);
* do seu campo religioso e de eventuais aliados;
* do campo das forças adversárias;
* de suas estratégias de combate e, sobretudo, de proposta de salvação da Nação.

– Que concepção teleológica de sociedade inspira a fala da palestrante? Uma sociedade plural e diversa ou uma sociedade governada por pessoas e grupos que ela avalia como “cristãs”, as eleitas por Deus para salvar a Nação?

– Que leitura de Cristianismo fundamenta o discurso da Pastora?

– As conclusões salvacionistas – todas passando necessariamente pela mediação dos “eleitos de Deus” (ou seja: pelos membros das igrejas que se reclamam de evangélicas – terão inspiração na pedagogia do samaritano vivida e pregada por Jesus de Nazaré?

– Faz-se “tabula rasa”, sem qualquer lição a extrair da desastrada saga – esta protagonizada pela Igreja Católica – dos partidos católicos, os famigerados partidos confessionais (as várias versões de partido “democrata cristão”?

– Diante do crescimento do risco de fundamentalismo religioso, é ou não é tempo de uma nova Reforma, não apenas em relação à Igreja Católica, mas também em relação às demais Igrejas Cristãs?

– E, desta vez, no plano macrossocial, é ou não o momento de centramos força pela construção de uma República laica, como única forma de assegurar tratamento isonômico e republicano ao conjunto de seus cidadãos e cidadãs, garantindo-lhes verdadeira liberdade de crer ou de não crer?

– Não falta à palestrante e seus aliados uma boa base de senso histórico e de uma visão de discernimento da realidade social, de modo a tomar em conta situações trágicas protagonizadas pelos adeptos da Cristandade, das quais as famigeradas cruzadas constituem um exemplo tenebroso?

– Nas insinuações ou nas invectivas da palestrante, não parece haver uma concentração excessiva de alvo desembocando em cima do PT e seus representantes, o que favorece uma certa tendência de partidarização deste embate?

– E o quê dizer do fato de que a principal força política-alvo das graves acusações ter como alidados políticos justamente parte da Bancada Evangélica?

Eis algumas indagações que, desarmado e aberto a aprender, compartilho, com propóstio de dialogar, em busca de melhor discernimento sobre esses desafios.

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