Igualdade racial na mídia em debate

Primeira mesa no seminário realizado na ABI. Foto: Eduardo Sá
No intuito de promover o debate sobre a igualdade racial no país, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) realizou num dos seus auditórios, nos dias 14 e 15 de junho, o seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial. O evento foi fruto da articulação do Conselho Municipal dos Direitos do Negro (Comdedine) e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), com o apoio da Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial do Município do Rio de Janeiro (Cepir). Veja a seguir a cobertura do primeiro dia do seminário:
As mesas foram compostas por pesquisadores acadêmicos, militantes do movimento negro, jornalistas, dentre outras personalidades, diante de um auditório lotado. Além de colocar a questão racial em pauta, o papel da mídia com suas responsabilidades e limites também foi foco do debate. A apresentação ficou a cargo de Miro Nunes (Sindicato dos Jornalistas), José Reinaldo (site ABI), Carlos Medeiros (Cepir) e Angélica Bastos (Cojira), que leu a carta manifesto que agrega o pensamento de diversas entidades do movimento negro.
Miro Nunes atentou para a importância da 1ª Conferência Municipal de Comunicação do Rio de Janeiro, que será realizada nos dias 16 e 17 de outubro, no Teatro João Theotonio da Universidade Cândido Mendes, situado na Rua Assembléia 10, subsolo, no centro da cidade. Ele destacou também que já viveu dentro de redações e sabe o quanto é difícil inserir determinadas pautas na mídia, mas está empenhado nessa construção.
No manifesto exposto pela Angélica, vários pontos da questão racial são abordados: dados quantitativos de renomadas instituições trazem uma realidade bem diferente da democracia racial que é propagada; aponta avanços com as cotas, o feriado de Zumbi, regulamentação de terras quilombolas e a lei que insere a história africana nas grades curriculares escolares; a diversidade dos lados que defendem ou não as ações afirmativas desaparecem quando o tema é tratado pela mídia, devido a tendência, apontada por pesquisas, na forma desfavorável ou sutil que elas são apresentadas; etc. O manifesto, assinado por várias entidades, termina exortando a mídia para que “garanta o princípio elementar da democracia com base na pluralidade das informações”.
O representante da Cepir, Carlos Medeiros, enfatizou a recente conquista com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. “É a aprovação de um princípio, a essência de que é válido promover uma ação compensatória à população negra através dessas medidas”, afirmou. Para ele é preciso refletir sobre a situação da população negra, pois “estudos acadêmicos evidenciam o volume e persistência temporal da desigualdade racial no país, somado ao de gênero”. Um exemplo dado por ele, foi a polêmica gerada em torno da cota de 10% aos modelos negros no Fashion Rio: “no Brasil a gente descobre através de nossos adversários que integrar é segregar, todo o nosso esforço em inserir negros em espaços exclusivamente de brancos”. “Estamos defendendo o nosso direito de defender as nossas idéias, de sermos entrevistados, de colocar nossas opiniões no debate público”, concluiu.
A segunda mesa contou com a participação de Jesus Chediak (diretor de Cultura e Lazer da ABI), Ancelmo Gois (O Globo), Carlos Medeiros (Cepir) e o pesquisador Kássio Motta. O anfitrião começou com a palavra, afirmando que imprensa e questão racial é uma questão de sociedade, na medida em que os espaços são ocupados a mídia vai espelhar essa realidade. Para ele é fundamental a auto-estima do negro nesse processo, pois a sociedade brasileira é racista. No que diz respeito à imprensa contemporânea, “entre a matéria prima e o produto final nós vemos um abismo, entre o pensamento e a ação”, observou. E criticou  que hoje impera no mundo “a liberdade de empresa e não de imprensa”.
O jornalista de O Globo, Ancelmo Goes, iniciou observando a questão de gênero no Brasil: “aqui no Brasil é uma vergonha, no Congresso há cerca de 6% de mulheres e muitas levadas por um casamento e não por uma idéia ou desejo”. Ele relatou sua experiência em seu trabalho atual, tenta “botar naquela coluna algum tipo de compreensão, o mínimo que eu tenho de fazer é abrir um espaço para isso e eu tenho tentado”, disse. Deu como exemplo o Elio Gaspari, segundo ele o melhor colunista do Brasil, que já escreveu diversas vezes a favor das cotas mesmo duelando dentro de O Globo: Ancelmo nunca sofreu interferências na sua coluna, declarou. Diferentemente dos outros participantes, ele acha que é um erro as pessoas satanizarem organizações e instituições e defendeu que as pessoas têm de ir “lá na toca do leão conversar para tentar publicar essas questões nos meios, vamos tentar falar com esse povo”, reforçou.

Kássio Motta, pesquisador, representando seu estudo. Foto: Eduardo SáKássio Motta, pesquisador, apresentando seu
estudo. Foto: Eduardo Sá, da redação

Por último Kássio Motta, formado em jornalismo e antropólogo, apresentou seu trabalho de monografia “Da parcialidade da imprensa às liberdades democráticas”. Sua pesquisa foi realizada de março de 2002 a julho de 2004, com todos os textos, matérias, cartas e editorias ou artigos publicados em O Globo, sobre a política de cotas raciais em questão na época. Por isso achou uma pena o Ancelmo Goes ter de sair mais cedo, fato que não permitiu o debate. Sua intenção era promover uma discussão a partir da academia e a escolha do veículo se deu pelo fato de O Globo ser o jornal de maior circulação no Rio de Janeiro e o segundo do Brasil naquele período. Devido à influência que os meios têm nos processos sociais hoje, Kássio propõe a ação de pesquisadores de modo a levantar dados anualmente e levá-los para as empresas: “é o momento de ir mais a fundo nessa disputa das pautas”, sua intenção não é de “demonizar, culpar, mas sim conscientizá-los das responsabilidades. Também em referência a esse mecanismo, acredita que “com seu embasamento suscitaria o debate na sociedade”.
Antes da apresentação da sua pesquisa no projetor, ele comentou sobre a dificuldade de acessar as redações, disse que o Ali Kamel e o Rodolfo Fernandes de O Globo, ambos editores, não lhes deram permissão. Só oito meses depois conseguiu, esse é mais um desafio para os pesquisadores, lembrou. O método que o ele adotou foi diferenciar os textos em positivos, neutros ou negativos, em relação ao tema. A classificação foi feita de acordo com a quantidade de fontes a favor ou não publicadas. Sua constatação foi a seguinte: não teve nenhum editorial ou artigo neutro, 14 eram positivos e 27 negativos; as cartas, de responsabilidade do jornal, segundo o pesquisador, foram 96 negativas, 10 neutras e 26 positivas; no total ele coletou 171 publicações negativas, 96 neutras e 47 positivas. Com isso, ele argumentou que “o veículo pode se posicionar, aliás ele deve, mas tem de dar espaço ao outro posicionamento. Posição não é parcialidade, no meu ponto de vista nesse espaço temporal o jornal não foi democrático. Ele não promoveu o debate a fundo e não foi informativo, porque o outro lado da moeda não foi visto”, finalizou.

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