Humildade e Verdade

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Por Vera Periassu

HUMILDADE e VERDADE
O que é a Verdade?
Jo 18, 38

O outro, a outra (nossos irmãos e irmãs) são, segundo os estudiosos do assunto, o espelho onde a gente se vê e se projeta. Mediante a dificuldade que todos temos de enxergar nossa verdade mais profunda e real, muitas e muitas vezes projetamos nos outros aquilo que não anda bem conosco. Por que será que a gente sempre enxerga melhor nos outros as nossas próprias fragilidades humanas?… Há, inclusive, uma espécie de “cobrança” para que o outro seja sempre bom, correto, justo, honesto, verdadeiro etc. Por que será que perceber-se a si mesma, a si mesmo é tão difícil e desafiador? O que será que está faltando?…

Em princípio, recorro aqui à Teresa D’Ávila, nossa querida Santa Teresa de Jesus. Para ela, “a Humildade é a Verdade” de nós mesmos. Colocando Deus no centro da vida e existência, numa espécie de “castelo interior”, esta mística ainda acrescenta: “Se tiver Humildade, não tenha receio, o Senhor não permitirá que se engane nem engane aos outros.” A Humildade, portanto, nos levará à nossa própria Verdade. Mas, o que é esta Verdade?…

Esta indagação feita a Jesus Cristo por Pôncio Pilatos (Jo 18, 38), naquele dramático interrogatório, continua válida até hoje para todos nós. Esta pergunta ocorre após Jesus afirmar “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que está com a verdade ouve a minha voz” (Jo 18, 37). Esta afirmação também nos remete a uma outra passagem bíblica, quando os discípulos perguntam qual o caminho que levará ao Pai. Jesus responde: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vocês me conhecem, conhecerão também o meu Pai. Desde agora vocês o conhecem e já o viram” (Jo 14, 4-7). E ainda, quando as autoridades do templo insistem para que diga se é o Messias verdadeiro, o Filho do Deus vivo, Jesus esclarece dizendo: “O Pai e Eu somos um” (Jo 10, 24.30).

Meu Deus do céu, mas o que tudo isto tem a ver com a minha vida, com a nossa vida? Tem tudo a ver, afinal de contas, somos criados à própria imagem do Criador e buscamos, olhando para Jesus, a sua semelhança. Dizia Padre Bonhomme: “Meu Modelo é Jesus Cristo” e ainda acrescentava “É muito bom assemelhar-se a quem se ama.” Tal qual Jesus, portanto, guardamos em nossa vida humana uma essência puramente divina de bondade, beleza, justiça, sabedoria, pureza, enfim, de amor autêntico, e esta é a Verdade revelada na pessoa de Jesus. Em outras palavras, em Jesus e com Ele, somos também “Um com o Pai” – Unidade na Diversidade – e Luz para todas as nações.

Humildade é enxergar esta Verdade revelada na pessoa de Jesus: o ser humano, em sua essência, é divino – esta é a verdadeira realidade de nós todos; tudo o mais é passageiro e ilusório. Pela graça de Deus, e com a nossa humildade, poderemos revelar ao mundo o ser humano crístico que habita em nós e, assim, poderemos fazer nossas as palavras de São Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu quem vivo, pois é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Recorro à Palavra de Deus, como Luz para indicar o caminho da vida, e este caminho vai me revelando a Verdade em forma de gente, na Pessoa de Jesus Cristo, que, segundo Leonardo Boff, “era tão humano que só podia ser divino”. O Mestre ensinava que “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar. (Mt 11, 27). Ele pede que não julguemos uns aos outros, que tenhamos paciência uns com os outros, pois sabe que somos, em nossa essência, pessoas bondosas, justas e sábias, porém, bastantes frágeis. Nossas cobranças para que os outros sejam corretos, bons, honestos e verdadeiros são, na realidade, uma cobrança a nós mesmos. Não olhamos com profundidade para nós e, por isso, projetamos nos outros nossas frustrações, tristezas, decepções etc., uma vez que não temos ainda a humildade de buscar a nossa essência verdadeira, maravilhosa e autêntica.

Humildade, muitas vezes interpretada como anulação e subserviência perante os outros é, de fato, buscar a nossa verdade interior – humana/divina – vivendo de maneira autêntica e cultivando a nossa singularidade. Não podemos negar que o medo nos atrapalha sempre, pois não queremos admitir as nossas fragilidades perante o mundo, e isto pode ocorrer se ficarmos apenas nas aparências e superficialidades da vida, esquecendo da maior riqueza interior que é o nosso tesouro verdadeiro, a nossa essência maravilhosa onde somos totalmente éticos e, portanto, santos, “Somos Um com Deus”. Ciente desta verdade, o Mestre nos orienta: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48).

Depois de mais de 2000 anos, olhando para as atitudes de Jesus, fica mais fácil conviver com os nossos irmãos/ãs diferentes que, muitas vezes, consideramos “atrapalhados/as”, “diferentes”. Por enxergar a nossa “essência” e não se deter apenas nas “aparências”, Jesus chamou e continua chamando gente bastante “atrapalhada” e diferente dos padrões considerados “normais” pela sociedade. O que dizer, por exemplo, das atitudes egoístas, ambiciosas e desumanas de alguns discípulos? Pedro nega por três vezes o próprio Mestre; Judas O entrega à morte, deixando-se conduzir pela ambição; João e Tiago querem tocar fogo na cidade, a fim de eliminar quem pensa e vive diferente. Até chegar a nós, a lista é imensa, mesmo assim Ele continua nos chamando, pois nos enxerga além das aparências. “O homem olha a aparência; Deus olha o coração” (1Sm 16, 7).

Conhece-te a ti mesmo”, dizia o filósofo Sócrates, ressaltando a importância do autoconhecimento para uma vida humana mais autêntica e feliz. Inspirando-me em suas palavras, humildemente acrescento: Se mentes (a ti mesmo/a), não há Sementes do novo!

PerYaçu
Peregrina da Esperança”

Bananeiras-PB: 23 de outubro de 2023

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

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