Horrorizai-vos porque estamos nas ruas!

“Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.”
(Legião Urbana – Tempo Perdido)
Vozes ainda ecoam de Niterói para todo país: “Quem não pula quer aumento!”, “Ô motorista, ô trocador, diz aí se seu salário aumentou!”, “Vem, vem, pra rua vem!” e “Não é Turquia, não é a Grécia, é o Brasil saindo da inércia!” — braço das manifestações que vem ocorrendo no Brasil nos solos niteroienses contra o aumento das tarifas de transporte e luta pelos direitos humanos e do cidadão.
A manifestação passou pelas ruas do centro de Niterói, causando furor na região. As manifestações partiram do busto de Araribóia. Não poderia ser diferente. Pois entre os índios liderados por Araribóia se deu a mítica origem dessas terras fluminenses. Seu começo no local faz lembrança da origem niteroiense entre os nativos da região. Depois foi em direção à famosa Avenida Ernani do Amaral Peixoto, construída em memória militar no Estado Novo, por Getúlio Vargas. O fluxo de manifestantes entrou pela via dos militares, como tinha de entrar, no contrafluxo.
Sim. A luta por direitos no Brasil se dá opostamente aos moldes dos militares. É o inverso do modus operandi militar na história do Brasil. Historicamente preferem a violência e cassetetes. Sua pauta é a truculência do cotidiano. Por isso, entra na avenida ao inverso. E, quando se entrou na famosa avenida já eram mais de centenas: cantando, pulando e batendo palmas. Muita gente ao redor que antes só observava entrou na roda, na manifestação. Afinal, o tema afeta trabalhadores. Embora o movimento tenha força entre estudantes universitários e grupos de baixa renda.
Logo a rua foi se enchendo mais. Dos prédios vinham papéis de apoio, palmas e pisca-pisca. A carreata-manifestação era o inverso do normal, da ordem. É que nesses tempos a luta por direitos torna-se cara. E, nesse caso, o apoio vem do asfalto até o pessoal dos prédios, empregados das empresas, local de exploração capitalista. Nas janelas, pessoas ainda no expediente, fazendo horas-extras, apoiavam cantando e dançando. Diziam que queriam ou iam descer. Desceram vários.
Outro detalhe impagável. Em uma das janelas uma senhora de idade bem avançada que infelizmente só tem a distração de olhar a vida pela janela, faz o gesto o dia todo. Agora, olha para baixo e toma um susto. Percebi desde o início. Sua primeira reação é de susto. Espanta-se com a manifestação. Logo, pelo primeiro gesto, parecia que ia se zangar, chiar, xingar. Voltou o olhar para a manifestação e diante de um grito dos jovens, abre o sorriso. Ganhei a noite pelo lindo sorriso da senhora. Seu rosto não conteve a satisfação, o encantamento. Fiquei com a sensação de que estava esperando a passagem por lá. Parecia que o olhar esperava. Ora, uma senhora com claras dificuldades de locomoção, além do sorriso mais belo que deu (não se conteve), dançou, pulou e, no fim, fez um dos gestos mais significativos: abriu os braços sorrindo e falando de satisfação disse: “Voltem meus amores!”.
Entre a boca suspirei dizendo, emocionado: “Sempre”. Seguimos a carreata. O que era satisfação passa a ser emoção. E o fim da carreata-manifestação, que foi chamada em alguns locais de vandalismo, vagabundagem, desembocam no lugar que deveriam estar de fato os de pouco direitos, os realmente afetados pelas últimas ações governamentais:  na Câmara de Vereadores de Niterói. O fim da manifestação é a ocupação simbólica da Câmara. Ocupam as escadarias alunos, professores, sem-direitos de toda espécie. Tomam o local das decisões da cidade. Indicam que quem deve mandar são eles, somos todos nós, não as máfias que retém os direitos da cidade.
Companheiros, espero que todos aceitem o convite da bela senhora. Faça-se jus ao convite de tão belo sorriso. Enfim, quero lembrar um velho jargão muito conhecido em Niterói que está adormecido. Dito de um “velho filósofo da práxis” de um mundo distante: “Horrorizai-vos” porque queremos, por enquanto, apenas tarifas zero, transporte público de qualidade e de graça. “Horrorizai-vos” porque ontem nós, niteroienses, lembramos que as ruas são o lugar de lutas por direitos, e não apenas nas redes sociais, como os mandantes da ordem atual querem. Afinal, temos de fazer jus ao convite de uma linda sorridente senhora. “Horrorizai-vos” porque no fim queremos construir o mundo melhor.
(*) Fábio Py Murta de Almeida é teólogo, historiador e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. Articulador do blog: fabiopymurtadealmeida.blogspot.com

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