Holocausto (sempre) em cena

Definitivamente não há como se solidarizar com Lars von Trier, diretor de cinema dinamarquês declarado persona non grata pelo Festival de Cannes, após afirmar, na última semana, que sentia “empatia” por Hitler. No mínimo, o cineasta, conhecido por gostar de uma polêmica, deveria ter sido mais cauteloso em sua fala, prevendo a potencial repercussão de suas declarações em pleno festival francês.

No entanto, é digno de registro que Trier foi não só “vítima” de sua estupidez, mas do contrato comunicacional que a Grande Mídia mantém com o público no que tange à tríade temática Hitler-nazismo-holocausto.  Qualquer argumento que vá de encontro às versões oficiosas sobre os acontecimentos passados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), ou que ponha em cheque a condição do holocausto como uma das maiores tragédias sociais da história da humanidade, é imediatamente atacado com todas as forças via os mais poderosos veículos de comunicação.

Embora o assunto mereça, de fato, especial atenção por sua importância simbólica, causa estranhamento sua desproporcional evidência frente a outras tragédias sociais.  Não importa que genocídios aconteçam ainda no século 21 no continente africano, bem abaixo do nariz da ONU; que pobres, pardos e negros, assim como diversas minorias étnicas sofram processos evidentes de exclusão social há centenas de anos em diversas partes do mundo, sendo inclusive reprimidos à força e até mortos pelas autoridades de “grandes” democracias ocidentais.

Nada disso pode tirar o lugar de destaque do holocausto na memória da humanidade: assentado em seu trono, em posição ulterior, quase que metafísica, é apenas eventualmente abalado quando algum maluco resolve fazer brincadeiras de mal gosto ou ditadores árabes buscam ganhar popularidade junto aos rebanhos que ainda vivem baixo sua mão de ferro. Enfim, nada que possa realmente ameaçar sua integridade e hegemonia.

O holocausto é um tabu às avessas: só se fala nele, ainda que de forma controlada para que não haja brechas a suspeitas de que se está apoiando uma ideologia infame como a nazista. Isso, por outro lado, configura uma jogada estratégica, haja visto que respostas em tom de revolta a comentários sarcásticos como o de Lars von Trier  não deixam de ser um grito para preservar o holocausto como um supra-acontecimento, intocável e absoluto. Enquanto isso, palestinos, africanos, bolivianos, haitianos, entre outros, mal têm a chance de falar por si…

Há um claro desequilíbrio no que se refere ao acesso de Israel e seus aliados – a começar pelos EUA – aos meios de comunicação de massa e, consequentemente, aos processos de produção e circulação de sentidos na sociedade global, em relação à parca abertura midiática e governamental disponibilizada a outros grupos étnicos. É natural, portanto, que a maior tragédia a assolar o povo judeu se mantenha entre os principais monumentos históricos da humanidade. Questionar tal sacralização, mesmo nas sociedades ditas “livres”, é praticamente um pecado capital, sujeito a apedrejamento verbal à la Ahmadinejad.

Triers se junta a Mel Gibson e tantos outros que resolveram mexer com cachorro grande. Agora, que se preparem para bilheterias vazias.

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