
Mais de seis meses depois do terremoto que abalou o Haiti, deixando mais de 200 mil mortos, o país continua em situação alarmante e praticamente não passou da primeira fase sua reconstrução, apesar da quantidade de ONG’s e as supostas ajudas internacionais instaladas na região. Estima-se, segundo a BBC Brasil, que o terremoto tenha deixado 20 milhões de metros cúbicos de entulho, cerca de 280 mil prédios comerciais e residenciais foram destruídos, e 5% a 10% desse total teria sido recolhido em seis meses. O desemprego é sistêmico, e a previsão é de que as crianças tenham sido as mais afetadas com o abalo sísmico: maior taxa de letalidade, afora os milhares de órfãos que sobreviveram.
As barracas de lonas que seriam uma alternativa temporária permanecem como a única solução, e a população teme ser expulsa desses territórios. O governo haitiano acredita que chegue a 1,5 milhão de pessoas desabrigadas, e a reconstrução do país deverá custar US$ 11,5 bilhões. De acordo com as Nações Unidas (ONU), até o momento 3.700 das unidades temporárias já foram construídas e a meta é chegar a 125.000 nos próximos 12 meses. O escritório das Nações Unidas para Assuntos de Coordenação Humanitária (Unocha) informa que o terremoto fez surgir 1.240 campos de refugiados, com apenas 206 deles reconhecidos oficialmente. As moradias, doenças e a miséria são os desafios prioritários a serem enfrentados.
Antes do desastre natural a nação já sofria com o desarranjo político desde 2004, quando influências francesas e norteamericanas sequestraram o presidente Jean-Bertrand Aristide e a democracia haitiana veio abaixo. Hoje a plutocracia local prevalece e a corrupção prolifera, junto aos intermediários internacionais, sobretudo as ONG’s, em meio à pobreza. Sua soberania encontra-se esterilizada, o cenário só piorou com o terremoto.

Apesar das discordâncias com muitas posições sustentadas por Demétrio Magnoli, cientista político, em artigo publicado no O Estado de São Paulo o colunista tocou em pontos fundamentais para se analisar a situação do Haiti: a imobilidade política graças às supostas contribuições externas e a influência intermediária travestida em missão humanitária.
“Em seis anos, realizaram-se uma eleição presidencial e duas parlamentares. Nenhuma teve a participação de Aristide, compulsoriamente exilado, nem de sua organização, a Fanmi Lavalas, o maior partido haitiano, impedido de concorrer por chicanas burocráticas do comitê eleitoral. É como se o PT fosse proibido de disputar eleições no Brasil”, aponta Magnoli. E mais adiante, o colunista afirma que “a nação sem Estado, sem governo e sem democracia transformou- se em reserva de caça dessas organizações, que funcionam como lagoas de captação dos financiamentos de instituições multilaterais e das doações internacionais. Ninguém conhece de fato os orçamentos dos entes estrangeiros engajados na obra humanitária de salvação dos haitianos(…) O Haiti das imagens da TV é uma massa homogênea de miseráveis salpicada por gangues criminosas. O Haiti de verdade é diferente. O país tem intelectuais, escritores e uma imprensa sem dinheiro, mas com ideias. Entre os haitianos há profissionais qualificados em quase todas as áreas, da medicina à engenharia, passando pela educação e pelas letras. Eles só têm trabalho quando conseguem ingressar na rede das ONGs”, avalia.
Tropas brasileiras de paz

Desde junho de 2004 o Brasil está à frente das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Existem dois Batalhões de Infantaria de Força de Paz, um deles enviado depois do terremoto, e uma Companhia de Engenharia de Força de Paz brasileiros no país. A tropa é composta por 2.190 militares brasileiros, com capacidade para realizar obras horizontais, tais como recuperação de estradas e pontes, terraplanagem, drenagem e outras obras, segundo o Centro de Comunicação Social do Exército.
De acordo o porta-voz das tropas brasileiras no Haiti, Coronel Silva Filho, a missão desse contingente é a “manutenção de um ambiente seguro e estável antes e depois do terremoto”. Ele afirma que, apesar da participação brasileira na reconstrução, só o governo haitiano e a ONU podem fazer uma avaliação de como está o processo.
Sandra Quintela, coordenadora da Jubileo Sur na América Latina e Caribe, afirma que os relatos vindos do Haiti apontam que não houve avanços em relação à reconstrução do país. Ela destaca que há um aumento exponencial dos preços e uma especulação imobiliária incrível, tendo ONG’s e empresas privadas se beneficiando da situação de vulnerabilidade.
“O aluguel de um apartamento bem simples em Porto Príncipe hoje atinge mais de mil dólares. Está tudo mais caro, todos os meios de vida estão destruídos. O que nós temos insistido é que o que menos importa para quem está discutindo a reconstrução do Haiti é o povo haitiano. Existem não só os interesses geopolíticos, como o controle do Caribe, mas também do grande negócio que pode vir a ser essa reconstrução. No entanto, ao mesmo tempo a gente tem acompanhado com bastante esperança uma crescente mobilização popular, principalmente do campesinato haitiano”, aponta Quintela.
A economista ainda destaca que é contra a ocupação das Nações Unidas no país, cujo Brasil é o principal representante. Segundo ela, nesses 7 anos de atuação foram gastos mais de U$$ 4 bilhões com as tropas sem que seja apresentado nenhum relatório demonstrando as melhorias para a região.
“É uma situação cada vez mais deslegitimada. Tivemos uma reunião com o chefe de comunicação da ONU no Rio e ele dizia que antes do terremoto o grande debate era quando sair do Haiti, e agora essa discussão desapareceu, a perspectiva é ficar. Ao mesmo tempo vemos que as tropas não fizeram absolutamente nada no momento em que aconteceu o terremoto, ficaram todos concentrados no hotel Montana, que é onde estava todo o alto escalão da ONU, e a população ficou a míngua. Se não fosse a solidariedade dos próprios haitianos, muito mais gente além dos quase 200 mil que morreram teriam morrido”, concluiu.
Na visão do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a militarização não resolve o problema do povo haitiano, e sim a real reconstrução do país. A organização afirma que a solução passa pelos problemas básicos de moradia, alimentação, educação e saúde, além de uma reoorganização da economia local, que hoje está à mercê das transnacionais.
“A presença da Minustah só fomenta a situação de guerra que vive o país, com o aumento da criminalidade, doenças e políticas assistencialistas e paliativas. Apenas 7% dos escombros foram recolhidos em Porto Príncipe, uma realidade dessas não é consequência de uma política real de reconstrução de um país devastado já há muitas décadas”, afirma o MST.
A Jubileo Sur/Américas entregou no dia 28 de julho uma carta ao conselho de segurança da ONU pedindo a não renovação do mandato da Minustah, e fará uma panfletagem no Rio de Janeiro dia 15/10, “Dia de Solidariedade com Haiti”, dentro das atividades da “Semana de Ação Global contra a Dívida e as Instituições Financeiras Internacionais”, realizada em várias partes do mundo.
Participação do MST

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra estabeleceu um intercâmbio com jovens campesinos haitianos, para que durante um ano no Brasil eles aprendam o português, técnicas agrícolas e uma formação política a fim de contribuírem na reconstrução do Haiti. No dia 27 de setembro a Escola Nacional Florestan Fernandes recebeu 77 dos 150 integrantes do intercâmbio, que compõem a maior ação de solidariedade internacional já organizada pelo MST. A iniciativa faz parte dos trabalhos da Brigada Dessalines, da Via Campesina, que está atuando há quase dois anos junto aos movimentos sociais haitianos.
Antes do terremoto já havia três integrantes da organização no solo caribenho, iniciando um trabalho de produção agrícola no interior do país. Com a tragédia, uma brigada com cerca de 30 militantes da Via Campesina seguiu para o Haiti, no intuito de dar apoio no interior do país, ao invés de Porto Príncipe, o centro das atenções. Em nota o movimento informou que a missão da brigada é “reconstruir as escolas no meio rural haitiano e ajudar no processo de reorganização da agricultura”. A equipe conta com agrônomos, engenheiros florestais, pedagogos, etc. Todos aprenderam a falar a língua do povo, o creole, pois o francês é falado pelas tropas da Minustah, diplomatas e o estado.
De acordo com Paulo Almeida, brigadista da Via Campesina Brasil no Haiti, o país vem sofrendo com as más políticas há longo tempo e a catástrofe natural aumentou os problemas sociais e econômicos da região. Para ele, é preciso pensar um outro modelo de estado para o país, um desenvolvimento nacional e sustentável com base na mudança da matriz energética (a principal é o carvão), fazer uma reforma agrária ampla e popular e desenvolver um plano amplo de educação, dentre outras iniciativas.
“Nós atuamos desde 2009 no Haiti, nosso trabalho é diretamente com os camponeses e eles são a parte mais pobre da população. Tudo o que fazemos é de comum acordo com as organizações que trabalhamos. Penso que a captação de água é onde mais temos avançado. Em muitos lugares as famílias caminham longas horas em busca de água para a sobrevivência. Estamos no Haiti por que acreditamos na força do povo, acreditamos que somente o povo é capaz de fazer as transformações necessárias”, destacou Almeida.
Ainda segundo o integrante do movimento, apesar da chamada comunidade internacional aparecer como protagonista, os escombros do terremoto continuam espalhados pela cidade e os haitianos não estão sendo ouvidos para o plano de reconstrução.
“Das doações anunciadas no plano de reconstrução até alguns dias atrás, havia somente 12% feitas. Além do mais, empresas têm lucrado muito, por exemplo a que aluga banheiros químicos tem 5 mil banheiros locados a um preço de 50 U$ por dia (no final do mês são 7.500.000 U$). Era pra locar por 3 meses, mas já está com 8 meses, então são nessas coisas que vai o dinheiro da reconstrução. As ONGs têm dado alguns apoios locais à população na construção de casas, mas já sabemos que o Haiti é o país que mais tem ONGs no mundo e no entanto está cada vez mais empobrecido”, criticou.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/

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Hóje dia 06 de Março de 2011, foi ao ar uma reportagem da TV Globo, no programa Esporte Espetacular. Na reportagem mostra um Haiti devastado, em que crianças brincam no lixo, é se alimentam do que encontam nele.
Resumindo e inquietante saber o quanto o Brasil esta gastando com tropas no Haiti sem haja um avanço satisfatorio na reconstrução do pais
( Ourilândia do Norte-Pa )