Governo de Israel suspeito de executar autoridade palestina

Silvan Shalom e Moshe Ya’alon, Vice-Primeiros-ministros do Governo de Israel (ambos do partido Likud), são assasinados por insurgentes do Movimento de Resistência Islâmico, o Hamas, com apoio de lideranças palestinas e cidadãos sírios, iranianos e libaneses.
Caso o cenário acima tivesse ocorrido, o tema teria ganho rapidamente todas as pautas de tevês e rádios nacionais e internacionais. Reuniões seriam convocadas em diversos âmbitos diplomáticos e, possivelmente, o Governo de Israel convocaria forças militares para responder violentamente ao ocorrido.
O cenário acima ocorreu. Só que mais ou menos ao contrário. E a reação foi pífia, principalmente por parte da imprensa nacional.
Um dos principais dirigentes do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh, foi assassinado no último dia 20 de janeiro, num hotel de Dubai, pelo serviço secreto israelense, o Mossad, com a participação de três irlandeses, seis britânicos, um francês e um alemão. O caso abriu uma crise diplomática internacional. Mas os jornais e telejornais brasileiros deram três vezes mais destaque, por exemplo, à companhia circense Cirque du Soleil.
“É 99%, se não 100% seguro que o Mossad está por trás do assassinato”, declarou hoje (18) o general Dahi Jalfan Tamin, chefe da Polícia de Dubai, ao jornal emirati em inglês The National. Dubai registrou em câmeras de segurança a ação envolvendo o Mossad, com requintes de produção cinematográfica. Os assassinos teriam usado passaportes falsos para entrar no país. O chefe policial lembrou que os agentes de migração do aeroporto não detectaram irregularidades nos documentos dos suspeitos quando entraram no país, mas nos últimos dias pelo menos o Reino Unido e a Irlanda confirmaram que os passaportes eram falsos, informou a agência de notícias EFE.
Gordon Brown prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. Foto: www.ionline.pt
Gordon Brown prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. Foto: http://www.ionline.pt
Em um boletim policial divulgado hoje, o chefe policial antecipou que “nos próximos dias serão apresentadas novas surpresas que não deixarão qualquer dúvida” sobre a identidade dos supostos assassinos do dirigente do Hamas. Os suspeitos estavam disfarçados de turistas, usando perucas e barbas falsas. Segundo as autoridades locais, o trabalho “foi executado por um time profissional, altamente habilitado para esse tipo de operação”, noticiou a BBC Brasil [1]. São comuns ações clandestinas do Mossad contra autoridades palestinas, bem como a impunidade que se segue (leia histórico mais abaixo).
Britânicos cobram explicações
O Ministério de Assuntos Exteriores do Reino Unido convocou hoje mesmo o embaixador israelense em Londres, Ron Prosor, para falar do uso de passaportes britânicos falsos no assassinato. O embaixador israelense se reuniu por 20 minutos com o chefe do serviço diplomático britânico, Peter Ricketts, informou hoje a imprensa em Londres. O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. As fotografias e as assinaturas não coincidiam com o documento de seus proprietários.
Segundo a agência EFE, após a morte do líder do Hamas, a Polícia de Dubai emitiu ordem de busca e prisão contra 11 pessoas, cujos passaportes falsos incluíam os três irlandeses e os seis britânicos citados, assim como um alemão e um francês. As autoridades francesas e alemãs também levantaram suspeitas sobre as identidades dos suspeitos com passaportes de seus países.
O governo de Israel negou que houvesse evidências da participação de seu serviço secreto no assassinato do comandante do Hamas. Entretanto, segundo a BBC Brasil, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, não chegou a negar formalmente que Israel tivesse participação no crime, seguindo a política de ambiguidade do governo israelense em relação a questões de segurança.
O braço que atua como partido político do Hamas foi eleito democraticamente em junho de 2007 nas eleições para o Parlamento Palestino, reconhecidas como legítimas pela comunidade internacional, obtendo larga maioria dos votos.
Em sua carta fundamental, em seus escritos e muitas de suas declarações públicas, o Hamas frequentemente usa o discurso de ódio contra Israel. No entanto, dirigentes do grupo afirmam que a Carta de Princípios da organização não prega de modo algum a destruição de Israel: em árabe, a intenção expressa seria a de colocar um fim na ocupação israelense da Palestina. [2]
O Governo de Israel frequentemente utiliza de um vocabulário de “ódio” contra o Hamas e outros grupos palestinos, mas na imprensa as declarações são quase sempre tratadas como “alertas”. Emir Sader complementa a notável ambiguidade: “(…) enquanto Hamas ‘odeia’ Israel, nenhum partido ou líder israelita jamais ‘odeia’ os palestinos, mesmo quando pregam sua expulsão.” [3]
Histórico de violência contra Hamas
O histórico de violência do Governo de Israel, que já foi julgado como governo terrorista por dezenas de vezes, contra grupos palestinos é notável. Em uma das últimas ações, em dezembro de 2008, o Hamas teve sua rede de assistência social e educacional na Faixa de Gaza destruída, durante a “Operação Chumbo Fundido”. Nesta ocasião, uma ofensiva militar das Forças de Defesa de Israel, realizada a partir do dia 27 de dezembro, ficou conhecida na maior parte do mundo árabe como o “Massacre de Gaza”.
Em 15 de setembro de 2009, uma comissão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) apresentou um relatório, concluindo que Israel “cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade”, e que “embora o governo israelense tenha procurado caracterizar suas operações essencialmente como uma resposta aos ataques de foguetes, no exercício do seu direito de auto-defesa, a comissão considera que o plano visava, pelo menos em parte, um alvo diferente: a população de Gaza como um todo”. O mesmo relatório reconheceu que o lançamento de foguetes pelos insurgentes palestinos também configura crime de guerra. [4]
Segundo a ONG israelense de direitos humanos B’Tselem, a Operação Chumbo Fundido resultou na morte de 1.387 palestinos, mais da metade deles civis. 773 deles não participaram nos combates, incluindo 320 jovens ou crianças (252 com menos de 16 anos) e 111 mulheres. Do lado de Israel, houve 13 mortos, sendo três deles por “fogo amigo”. [5]
Ações criminosas do Mossad
A organização foi fundada em 1949, um ano após a criação do Estado de Israel, e seu primeiro diretor foi Reuven Shiloah (leia perfil da BBC Brasil). A agência de notícias France Presse publicou nesta quinta (18) um histórico das ações do Mossad, desde 1973, marcados pela violência e pela impunidade. Confira a seguir.

  • Noruega, julho de 1973: após a morte de 11 atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, Israel tenta assassinar todos os chefes do movimento palestino Setembro Negro, responsável pelo atentado. Em julho de 1973, agentes do Mossad matam por engano Ahmed Bushuki, um garçom de origem marroquina na cidade norueguesa de Lillehammer, ao confundi-lo com Hasan Salameh. O líder de Setembro Negro foi assassinado posteriormente em Beirute por agentes israelenses. Dez agentes de Israel conseguem fugir da Noruega. Outros três são condenados em 1974 por um tribunal de Oslo a cinco anos e meio de prisão. São libertados 22 meses depois.
  • Chipre, abril de 1991: um policial do Chipre prende quatro agentes do Mossad que queriam colocar escutas na embaixada do Irã em Nicósia. Chipre e Israel solucionam a questão em duas semanas e os agentes são condenados apenas a uma multa.
  • Jordânia, setembro de 1997: dois agentes israelenses são descobertos na Jordânia quando tentavam assassinar o chefe do braço político do Hamas, Khaled Mechaal, aplicando veneno. Khaled, que estava em coma, é salvo pela intervenção do rei Hussein da Jordânia, que exigiu que Israel entregasse um antídoto ameaçando romper as relações diplomáticas com o país. Para obter a libertação de seus agentes, Israel também precisou libertar o guia espiritual do Hamas, o xeque Ahmed Yasin.
  • Suíça, 19 de fevereiro de 1998: a polícia surpreende cinco espiões do Mossad que instalavam um sistema de escutas telefônicas no sótão da casa de um homem de origem libanesa perto de Berna. Quatro deles ficaram em liberdade após enganarem os policiais. O outro foi preso e colocado em liberdade em abril de 1998. Em julho de 2000, foi condendo a 12 meses de prisão em Lausanne, com suspensão de pena.
  • Chipre, 7 de novembro de 1998: dois israelenses, Udi Hargov, de 27 anos, e Igal Damari, de 49 anos, são presos no Chipre, na região costeira de Zigi, por espionarem as Forças Armadas greco cipriotas. A polícia do Chipre encontra em seu apartamento material que inclui mapas topográficos e um computador equipado para transmitir mensagens cifradas. São libertados em agosto de 1999.
  • Nova Zelândia, 23 de março de 2004: Uriel Zoshe Kelman e Eli Cara são presos pela polícia, que os seguiu até o lugar onde deveriam retirar um passaporte para o qual foram apresentados documentos falsos. Condenados a seis meses de prisão, são colocados em liberdade em setembro de 2004. A partir deste caso, a Nova Zelândia suspendeu seus contatos mais próximos com Israel.

Reportagem em vídeo da BBC Brasil

Referências
[1] BBC Brasil. “Grã-Bretanha questiona Israel sobre assassinato em Dubai”, Fevereiro 18, 2010. Disponível em http://www.bbc.co.uk/
[2] Spiegel Online International. “Anti-semitic Hate Speech in the Name of Islam”, Maio 16, 2008. Disponível em http://www.spiegel.de/
[3] Emir Sader, Fazendo Media. “A palavra e as coisas”. Março 23, 2007. Disponível em http://fazendomedia.org/
[4] The New York Times. “While the Israeli government has sought to portray its operations as essentially a response to rocket attacks in the exercises of its right to self-defense, the mission considers the plan to have been directed, at least in part, at a different target: the people of Gaza as a whole.” Setembro 19, 2009. The Gaza Report’s Wasted Opportunity, por David Landau. Disponível em http://www.nytimes.com/. Ver também http://pt.wikipedia.org/
[5] Folha Online. “ONG israelense diz que civis foram maioria das vítimas de ofensiva em Gaza”. Setembro 09, 2009. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/; Portal G1. “Cronologia da ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza entre 2008 e 2009”. Setembro 15, 2009. Disponível em http://g1.globo.com/

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