García Linera: “A revolução é por ondas, não por ciclos”

Foto: Reprodução da internet.
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A visão das transformações sociais por ciclos “elimina o protagonismo do ser humano, desconhece o papel da subjetividade coletiva na construção dos fatos sociais. É falsa. É a mesma lógica do fim da história de Fukuyama”. (…) O retrocesso ora em curso na América Latina (Nota do tradutor: o resultado das eleições municipais agora no Brasil é um exemplo disso) “é um momento exigente porque obriga que a sociedade, os setores subalternos, as classes mais pobres, retomem novamente a capacidade de organização”.
Por Martín Granovsky, do jornal argentino Página/12, edição de 28/08/2016 – Tradução: Jadson Oliveira (Parte da entrevista publicada com o título ‘As pessoas não se mobilizam somente porque sofrem’)
– Não é um bom momento na América Latina porque há uma retomada temporária da direita – diz o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera (cientista político, professor e militante/estudioso da causa indígena). A direita assume o governo justamente para cortar custos, para cortar direitos, para reduzir a intervenção do Estado e para permitir que todos esses recursos fluam para o setor privado nacional ou estrangeiro. A sociedade, que está conseguindo condições de vida mais ou menos dignas, agora retrocede a situações de abuso, desemprego e exploração. Mas, por sua vez, é um momento exigente porque obriga que a sociedade, os setores subalternos, as classes mais pobres, retomem novamente a capacidade de organização. Ninguém se mobiliza perpetuamente. Não há revolução perpétua.
– Como terminam os períodos de retrocesso?
– Basicamente, trata-se de organização. Também, horizonte. Uma combinação da ideia mobilizadora com força que converta essa ideia em fato político, em fato que influa no cenário estatal e que possa modificar a correlação de forças a curto e médio prazo. O importante é que esta geração que hoje está de pé viveu os tempos da derrota do neoliberalismo, viveu a vitória temporária dos governos progressistas e revolucionários, e agora está neste período intermediário. Portanto, tem o conhecimento e tem a experiência para retomar a iniciativa. Se não fazemos isto, este período de retomada parcial de iniciativa da direita pode se estender e se ampliar a outros países da América Latina. Sem dúvida, isto significaria uma catástrofe. Onde triunfa, a direita corta o bem-estar. Os governos progressistas foram governos sociais e, portanto, o retrocesso é um retrocesso das conquistas sociais da população. Mas ademais há uma desaceleração, um congelamento e em alguns casos um retrocesso em termos da perspectiva da ação continental. Junto com o social, o continente experimentou, nos 10 anos que vão de 2004 a 2014/2015, o momento mais avançado de integração e visão autônoma continental. Isto tem uma importância extraordinária. Se não temos a capacidade de nos ver continentalmente, cada país por si só neste contexto mundial vai ser vítima das intervenções, das influências e das manipulações dos mais poderosos do mundo. É um tema de correlação de forças, não é um tema moral.
– Tomo uma frase do seu discurso após receber o prêmio (ele acabava de ser agraciado com o Prêmio Rodolfo Walsh na Faculdade de Jornalismo de La Plata – Argentina): “A revolução é por ondas, não por ciclos”. Qual é a diferença?
– Quando você fala de ciclo, significa que tudo tem um início, uma estabilização e um fim. É algo natural como a lei da gravidade. Haja o que houver, que protestem ou se mobilizem, assim será daqui a 50 anos, quando venha outro ciclo. Esta é uma visão que elimina o protagonismo do ser humano, que desconhece o papel da subjetividade coletiva na construção dos fatos sociais. É falsa. É a mesma lógica do fim da história de Fukuyama. Teriam desaparecido as classes, todos éramos empreendedores e teríamos que nos alinhar atrás do que já era o auge do desenvolvimento humano. Resulta que não foi assim. Apareceram por todos os lados classes sociais, lutas, organizações, jovens, gente que tomava as praças por assalto e depois tomava os palácios por assalto. Diante disso, o que defendemos é a lógica dos fluxos, das ondas, que é um pouco a experiência que a gente adquire na vida. As transformações se dão por ondas. As pessoas se articulam, se unificam, criam senso comum, têm ideias-força, se convertem em ser universal, quer dizer, ser que luta por todos. Conquista direitos, acordos, Estado, política. Mas depois passa à vida cotidiana. Não pode estar em assembleia todos os dias. Você tem que ver o que está ocorrendo com seu filho, com as compras de casa. Vem o refluxo. Mas depois, mais cedo ou mais tarde, pode vir outro fluxo. Quando será esse fluxo? Não sabemos. Não está definido por uma lei sociológica.
– Não está predestinado.
– Entre outras coisas depende do que você pode fazer hoje em seu bairro, em sua universidade, em seu meio de comunicação, em seu poema ou em seu teatro para articular senso comum, para estimular ideias do coletivo ou do comunitário. Se em algum momento desse, por algo não calculado, se articula com outras iniciativas comunitárias, pode dar lugar a outro fluxo. Numa semana, num ano, em 10 anos. O importante é que você lute e se organize. Se você não consegue em vida, virá outro que se somará ao que você fez, para que ele sim possa ver que vem um fluxo. As revoluções são assim. Então, quando você olha a história por fluxos e não por ciclos, defende outra vez o papel do sujeito, da pessoa, da subjetividade, que não inventa o mundo como lhe dá na vontade, mas que ajuda a construir o mundo. Gosto da frase de Sartre: “A gente faz o mundo na mesma medida em que o mundo faz a gente”.

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