Formação missionária, hoje: desafios, apelos e compromisso

Uma primeira inquietação que cuidamos de expressar, tem a ver com  o entendimento de “Missão” como uma  experiência que também comporta uma dimensão comunicativa, inclusive vocabular. A Missão, como sabemos, é uma busca de resposta fiel a um chamamento. Sendo uma experiência, também pode ser avaliada, ainda que de modo limitado, pela propriedade ou impropriedade dos termos empregados.

A exemplo de tantas outras expressões, inclusive as que se referem ao ambiente acadêmico, tende ao desgaste sofrido pelas palavras, pelas expressões, pelas categorias, isto se dá, sobretudo, em épocas de pós-verdade, como os tempos em que estamos vivendo. O termo  “Missão” é derivado do verbo Latino “mittere” (enviar), nos remetendo a um exame inicial do seu significado. Julgamos, com efeito, pertinente destacar o sentido etimológico de “Missão” – do verbo mittere ( mito, mitis, misi, missun, mitere). Este exercício etimológico nos ajuda a entender melhor o que estamos a dizer com a palavra “Missão”. Na verdade, o ato de enviar implica saber também: quem chama, chama a quem e envia a quem? Quem chama e envia, o faz em que contexto? Envia para o meio de quem, e envia para proceder de que modo? Com certa frequência, em especial, em função das emissões rádio-televisivas protagonizadas por Igrejas ( Católica, Reformadas…) , temos a impressão de que se trata, por vezes, de entendimento no mínimo incompleto, para não dizer equivocado, à medida que passam uma ideia de Missão como algo fundamentalmente ligado aos planos daquela rede ou, quando  muito, esgotando-se na esfera eclesiástica. Isto contribui notavelmente para um certo ocultamento do próprio Evangelho, do próprio Jesus, a figura que nos envia. Para não poucos cristãos – católicos, ortodoxos e reformados -, prevalece o sentimento de que, ao realizarem suas atividades, suas tarefas, o fazem sobretudo em nome da igreja, restando pouco visível a verdadeira fonte da Missão: o Deus de Jesus de Nazaré. Daí decorrem não poucos equívocos e distorções. Os missionários e missionárias são vistos, com mais ênfase, como meros membros ou funcionários de uma instituição ou empresa  do que como enviados e enviadas pelo próprio Jesus. Em sendo enviados e enviadas apenas de uma instituição eclesiástica, seu compromisso mais forte se verifica para com a própria instituição e, apenas em segundo plano, com Aquele que os enviou. Em outras palavras, não poucos ditos missionários e missionárias se sentem e agem mais como funcionários de rede rádio-televisivas ou de comunidades religiosas , ao interno da respectiva igreja, bem menos como pessoas animadas pelo Espírito do Ressuscitado, ainda que por intermédio de sua Igreja, Tal entendimento que secundariza a fonte primeira, o Evangelho, faz ouvidos moucos à Palavra de quem envia: ”Não foram vocês” que me enviaram, mas fui eu quem os/as enviou, para que vocês vão e dêem fruto e este fruto permaneça.” ( Jo 15, 16).  Atitude que também se desdobra em uma série de outros equívocos, muitos dos quais profundamente nocivos ao Reino de Deus e sua justiça. Adere-se, não raramente, mais a uma igreja do que ao Reino de Deus,  ao apelo Daquele que envia, o Espírito do Ressuscitado.

Nas linhas que seguem, movido pela necessidade de nos situar perante esse pandemônio de opiniões emitidas acerca de Missão, cuidamos de compartilhar alguns aspectos que entendemos centrais na compreensão de Missão: quem chama, chama a quem e envia a quem? Quem chama e envia, o faz em que contexto? Envia para o meio de quem, e envia para proceder de que modo? Em seguida, cuidamos de situar o que entendemos como relevantes desafios em nossa caminhada atual, no que toca à ação missionária. Antes disto, tratamos de sublinhar a importância de se trazer presente os desafios do atual contexto. Outro aspecto que destacamos, neste texto, tem a ver com os apelos mais fortes que o exercício missionário nos convida a reconhecer e a atender.  Por fim, acentuamos alguns compromissos que nos ajudam a manter uma ação missionária que se queira no seguimento do movimento de Jesus, é algo que supõe um processo formativo daqueles e daquelas que são chamados ao exercício da Missão proposta por Jesus, por meio do seu Espírito, que nos anima, diante dos grandes desafios do mundo presente.

Um dos graves equívocos em que se tem incorrido, quando não se tem clareza do significado próprio de Missão, consiste na substituição da fonte originária do envio, isto é, do próprio Jesus – Ele mesmo, o Enviado do pai (cf. Jo: 3, 34.). Com a instituição eclesial, que serve de mediação para a efetivação do chamamento em se substituindo à fonte originária, o Espírito do Ressuscitado, pela ação mediadora da comunidade eclesial, passa-se a se comportar como um funcionário desta ou daquela igreja, ao tempo em que se esquece ou se secundariza Aquele que nos envia. É claro que tal confusão implica em graves erros, à medida que perdemos de vista a figura de Jesus e, por conseguinte, seu apelo originário a cada um, a cada uma daqueles e daquelas chamados por Ele.

Com frequência, corre-se o risco de reduzir-se o campo de Missão ao território paroquial, enquanto muitos – a enorme maioria – daqueles e daquelas a quem se vai para anunciar Boa Nova do Reino de Deus e sua justiça, acabam sendo esquecidos ou marginalizados, uma vez que os/as que frequentam a paróquia constituem uma ínfima porção dos destinatários e destinatárias desta Boa Nova.

Equívoco em que se costuma incorrer também tem a ver com o próprio conteúdo da Boa Nova a ser comunicada. Quando não se tem clara a natureza da Missão a que Jesus nos chama, tende-se a confundir o conteúdo da mensagem, não com a fonte originária que nos confiou a Missão, mas com conteúdos mais do interesse institucional, de auto-preservação, do que com o que o Espírito do Ressuscitado nos manda anunciar e testemunhar.

No que diz respeito a como, isto é, a forma de atuação dos Missionários, das Missionárias, importa ter presente, de modo igual, a relevância do jeito do método, do modo de atuar. Diferentemente do modo predominante em muitas instituições eclesiásticas, inclusive ao interno da Igreja Católica Romana é fundamental ter presente a necessária humildade de quem se dispõe ao trabalho missionário, buscando evitar a impressão por tantos deixada, de que o aprendizado é algo exercitado apenas pelas comunidades alvo da Missão, quando devemos lembrar que missionários, missionárias e comunidades onde se realizam estas Missões, todos somos chamados à evangelização comum uns dos outros, uns aprendendo e compartilhando com os outros. Nunca se tendo uma atitude de que o missionário, a missionária seja portador exclusivo da Boa Nova, cabendo-lhe, ao contrário, perceber os sinais da presença do verbo naquelas situações de Missão.

 

O exercício da Missão requer um processo de formação 

Isto, no entanto, passa necessariamente por todo um processo contínuo de formação missionária. Lembremos o precioso tempo que Jesus dedicou ao processo de formação dos seus discípulos e discípulas a começar pelos apóstolos. Sua intensa convivência com seus discípulos e discípulas sempre implicava uma tarefa de formação, de preparação de instrução, de testemunho missionário, por parte de Jesus, Ele mesmo o Enviado do pai, o missionário por excelência.

Mas, de que formação se trata? Seria algo análogo ao que se passa em uma escola convencional ou mesmo em uma universidade? Ora, os espaços formativos oficiais tem uma característica própria, não se trata de uma formação contínua, permanente. O tempo da escola ou da universidade dura apenas alguns anos, diferentemente da formação missionária, na perspectiva do movimento de Jesus, implica dedicação permanente, por toda a vida, tanto dos formandos quanto dos formadores. Uma escola ou uma universidade, em sua maioria ou quase totalidade, controlada pelo Estado e pelo Mercado, não tem compromisso com a continuidade do processo formativo. Passados 4, 8, 10 anos, acaba o tempo da formação, os formandos, as formandas, uma vez tendo adquirido seu diploma, cuidam de sua vida profissional, que nem sempre tem uma exigência de continuidade formativa.

Outras que devem ser observadas: uma marca da formação missionária, na perspectiva da tradição de Jesus, tão fortemente lembrada pelo padre José Comblin, é a necessidade de formandos e formandas, formadores e formadoras se terem, antes de tudo, como aprendizes uns dos outros, até porque só reconhecem um único Mestre, Jesus de Nazaré. Outra diferença tem a ver com o exercício do protagonismo. Neste caso, formandos e formadores são chamados a exercerem um protagonismo, cada grupo ao seu modo, conforme seus dons, conforme sua função no processo formativo. Todos, no entanto, são chamados a tomarem parte nas decisões, em todos os momentos do processo formativo, seja na concepção do projeto formativo a ser realizado, seja na concepção, seja no planejamento, seja na implementação, seja na avaliação, seja igualmente no necessário processo de acompanhamento permanente.

Outra diferença também se observa quanto aos conteúdos oferecidos e quanto à metodologia seguida. Com relação aos conteúdos, trata-se de adotar critérios inspirados na vocação ao seguimento de Jesus, nas comunidades cristãs primitivas, nas experiências formativas, ao longo da história, que tiveram comprovação de sua eficácia, pela observação dos frutos oferecidos. Trata-se, portanto, de enfrentar temas os mais variados e de modo interconectado (tratando-se de um trabalho intertemático), decorrentes da conjuntura social e eclesial, bem como de estarem apontando para a necessidade, não apenas de uma compreensão intelectual do que se passa na realidade, mas também de pensar passos concretos de superação dos desafios identificados, seja no campo da sociedade civil e dos movimentos sociais populares, seja no campo eclesial.

Com efeito, o processo de formação missionária, na perspectiva da tradição de Jesus, seguida atentamente pela pedagogia de José Comblin, comporta uma série de requisitos. É uma formação que parte de um horizonte, do Reino de Deus. É um processo formativo que supõe um constante exercício da memória de Jesus e seus discípulos e discípulas, tarefa eminentemente cumprida pela ação profética, conduzida pelo Espírito do Ressuscitado. Constitui um processo de formação que assume o compromisso de superação entre teoria e prática, discurso e realidade. É um processo formativo que conjuga uma dimensão eminentemente pessoal com com uma dimensão fortemente comunitária, daí a necessidade de um processo formativo que se faça no convívio, na convivência fraterna dos participantes, quer se trate dos formandos, das formandas, quer se trate dos formadores, das formadoras. É um processo formativo que conjuga, de maneira orgânica, conteúdos e metodologia. A este respeito, tomamos a liberdade de recomendar a leitura do texto que orienta o primeiro ano do curso de formação da Associação Árvore, mais precisamente o curso base, editado pela Paulinas, há alguns anos. Nele se constata, de maneira enfática, o esforço contínuo de conjugação, de conexão dinâmica entre os conteúdos oferecidos. Naquele texto referente ao 1º ano do curso da Árvore, são propostos como temas 7 assuntos: 1. Igreja Comunidade; 2. O mundo dos pobres; 3. A Missão; 4. Vocação; 5. Oração; 6. Ministérios; 7.Povo de Deus. Com relação à metodologia vivenciada, o livro “Curso base”, propõe 8 passos a serem vivenciados: oração inicial, motivação, troca de experiências, caixa de retratos, história dos Santos, trechos de documentos da Igreja, nossa ação, oração final.

Mencionamos este exemplo como um meio de destacar o lugar privilegiado, no processo de formação missionária, atribuído à dinâmica e orgânica conexão entre conteúdos e metodologia. Acrescentando a observação de que o curso acentua bastante a intensa participação de formandos e formadores de modo a não permitir que a pessoa encarregada de animar/facilitar o curso seja entendida como um professor convencional, uma professora comum, a quem compete tudo transmitir, cabendo aos formandos apenas uma escuta passiva. Trata-se, ao contrário,de um processo formativo revolucionário, no sentido de levar a sério o protagonismo do conjunto de participantes deste processo.

Em que contexto, e que desafios somos chamados a enfrentar?

Com relação aos desafios mais relevantes que somos chamados a enfrentar, no exercício da Missão, destacamos os que consideramos mais tocantes. Um primeiro desafio tem a ver com a natureza da atual conjuntura Mundial, tanto no que toca aos aspectos macro sociais, quanto no que diz respeito à caminhada cristã, em nossas igrejas. Com efeito, os tempos de grave pandemia, de crise sanitária que enfrentamos, vem associada a outras crises não menos graves, tais como a crise socioambiental, a crise econômica, a crise política, a crise ética, a crise religiosa, entre outras. No caso da pandemia sanitária, ela vem organicamente associada às demais manifestações de crise acima mencionadas. É, por exemplo, o caso dos vínculos estreitos que a atual pandemia sanitária guarda com as agressões profundas que vem sofrendo a Mãe-Natureza, razão por quê os estudiosos apontam o comportamento dominante dos seres humanos como uma das causas do aparecimento do vírus que nos acomete, com seu enorme potencial letal, de modo a ter provocado até o presente, mais de trezentas mil mortes no Brasil, tendo chegado até a uma média diária de mais de três mil mortes.

Também, no caso do Brasil, vem sendo deletério o comportamento dos setores dominantes – as grandes transnacionais, o agronegócio, as grandes empresas de mineração, a agropecuária, entre outros fatores – vêm correspondendo a fatores determinantes das mais profundas degradações do nosso meio ambiente, bem como dos povos originários, das comunidades quilombolas, das comunidades ribeirinhas, dos agricultores, bem como de tantos grupos componentes da maioria da sociedade brasileira. Nossa querida Mãe Terra geme em profundas dores, e, com ela, seus filhos e filhas, não apenas os humanos, também os de outras espécies. Sofrem com os incêndios criminosos da floresta, sofrem pela invasão de seus territórios pelas práticas criminosas de garimpos ilegais, sofrem pelo espalhamento de agrotóxicos a envenenarem nosso solos, nosso subsolo, nossas fontes, nossos rios, nossas plantas, nossos animais, e a nós próprios que consumimos veneno, por conta da ambição do lucro de grandes empresas da monocultura e de outras atividades desrespeitosas de nossa Mãe Natureza. Somos chamados e chamadas a, não apenas expressar nosso sentimento de dor e de oposição a estas práticas, mas também a agirmos em defesa de nossa Mãe Natureza e de toda a criação, enquanto missionárias e missionários fiéis ao seguimento de Jesus.

Vivemos, ainda, além de uma crise sanitária profunda e uma crise socioambiental sem precedentes e sua estreita vinculação com a grave crise econômica que nos acomete, também uma crise política de enormes consequências. Movidos por um ódio cego a determinada força política, os eleitores brasileiros, em sua maioria, induzidos pela elite escravagista brasileira, acabaram cometendo um erro gravíssimo: o de elegerem para presidente e para representantes, no âmbito do congresso, pessoas, na enorme maioria, sem compromissos efetivos com a causa da vida do Planeta e dos humanos. Há três anos, amargamos terríveis consequências de um desgoverno descomprometido com a causa da vida do planeta e dos humanos, bem assim dos brasileiros e brasileiras. Uma gestão que se vem comprovando, dia após dia, desde o golpe perpetrado em 2016 e reeditado, ao seu modo, em 2018, um quadro deletério, de desordem generalizada.

A essas crises também importa acrescentar uma outra, de dimensão ética. Trata-se de uma completa inversão de valores: em vez de um compromisso assumido pela vida ambiental, sanitária, econômica, política, cultural do nosso povo, eis que as práticas governamentais e outras se tem, em grande medida transformado em práticas genocidas, racistas, misóginas, androcêntricas, ptocofobicas, ecocidas, desrespeitosas dos valores em defesa e em promoção de uma vida em plenitude. E o que é pior: muitas vezes, estes males são praticados em nome de Deus, em nome do cristianismo, convertendo-se exatamente no oposto do que foi anunciado e testemunhado por Jesus de Nazaré e a sua Tradição.

No plano interno às igrejas cristãs – Igreja Romana, Igrejas Ortodoxas, Igrejas Reformadas – , são igualmente de monta os desafios que nos cercam. Um primeiro aspecto pode ser observado em nossa incapacidade de ler a realidade em volta, de modo crítico, isto é, com critérios pertinentes à tradição de Jesus. Por vezes, temos a impressão de que incide sobre nós aquela alegoria referida no Salmo 115, atinente aos Deuses: temos olhos, mas não enxergamos; temos ouvidos, mas nos comportamos como surdos; temos boca, mas silenciamos, quando nos é mandado falar, denunciar, anunciar. Muitas vezes, por demais confiantes em que Deus fala por nós, sem nos exigir qualquer esforço de criticidade, pondo-nos a julgar e condenar o mundo, sem reconhecermos nossos próprios limites. Muitos de nós, ao estarmos por demais convencidos de que somos melhores do que os outros, aferrando-nos ao título de missionários e missionárias (leigas, leigos, religiosas e religiosos, diáconos, presbíteros, bispos e pastores, pastoras…), sucumbimos à tentação de pararmos acima dos demais, a quem nós dizemos comprometidos a evangelizar, mas, por outro lado, indispostos a perceber nestas mesmas pessoas e comunidades a presença da Boa Nova, em sua convivência. A consequência desta atitude não é outra senão a de cometermos os mesmos ou ainda maiores pecados que vemos nas outras pessoas, nas outras comunidades. Sobre isto, mais adiante, voltaremos, lembrando um episódio envolvendo o padre José Comblin, quando convidado a comemorar importante data da presença e da atuação de missionários “Fidei donum”, no Brasil, na Paraíba.

Na conversão, a que somos diariamente chamados e chamadas, temos a tentação de atribuir apenas aos outros, esquecidos do alerta paulino: “quem estiver de pé, cuide para não cair” (1 Cor 10,12).

 

Quais apelos sentimos da parte do Espírito do Ressuscitado?

Vem-nos à lembrança a conhecida passagem do Livro do Apocalipse, relatando o que o Espírito tem a dizer às diferentes igrejas (a partir de Ap 2). Aí se acham relevantes apelos, e extensivos, também para os missionários e missionárias dos dias de hoje.

Assim como ontem, o Espírito do Ressuscitado segue, também hoje, conduzindo missionárias e missionários pelos caminhos desafiadores que nos cercam. Muitos são os seus apelos pessoais e coletivos. Um deles prende-se à necessidade de termos sempre presente o conjunto das pessoas a quem somos chamados e chamadas a anunciar e a testemunhar a Boa Nova do Reino de Deus. Isso significa, na prática, assumirmos o tão conhecido lema do Papa Francisco, “uma Igreja em saída”. Neste sentido, o Bispo de Roma tem seguidamente dado testemunho da seriedade com que assume este chamado, fazendo seja em seus numerosos pronunciamentos, seja por meio de seus escritos, seja em suas 33 viagens apostólicas, alcançando os cinco continentes. Ao mesmo tempo, este chamamento nos alerta para os graves riscos de ficarmos limitados a uma ação missionária confinada no templo, em quatro paredes, contrastando com o exemplo de Jesus de Nazaré: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt, 8:20), e de seus discípulos e discípulas, das Comunidades cristãs primitivas, figuras proféticas de ontem e de hoje, inclusive na companhia do Bispo de Roma e do missionário José Comblin.

Mas é importante, ainda, sublinhar o sentido da Missão e itinerante, tal como aprendemos na experiência missionária do grande Peregrino Jesus de Nazaré e de seus discípulos e discípulas. De certa maneira, só podemos compreender bem o espírito da Missão dentro de uma experiência Itinerante, peregrina, inclusive  nas escolas de Formação Missionária, inspiradas na pedagogia de Padre José Comblin. Esta é uma marca importante, a dos missionários e missionárias peregrinos, itinerantes, a este respeito, vale a pena trabalharmos bem o livro proposto por Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, “experiência missionária no nordeste”, em que reflete, compartilha suas atividades missionárias no nordeste, em Sergipe, na Paraíba, em Pernambuco, no Ceará… no processo formativo a dimensão Itinerante há de ser alimentada continuamente, até porque somos todos peregrinos e peregrinos na Terra, chamados a testemunhar e anunciar o Reino de Deus.

Voltando ao que, de leve, acima assinalamos acerca de um episódio vivenciado pelo padre José Comblin, na Paraíba, em meados da década de 1990, quando foi convidado a refletir conjuntamente com outros convidados, sobre a presença dos Missionários “Fidei donum”, no Brasil. Esperava-se do padre José uma reflexão que trouxesse sobretudo elementos de reconhecimento e de aplausos a estes missionários, ele próprio, José Comblin, um desses missionários. As palavras dele, no entanto, sem deixarem de reconhecer a importância da Missão dos “Fidei donum”, no Brasil e na Paraíba foram bem além de tal reconhecimento. O forte de sua reflexão foi pautada em um questionamento incômodo. De tal modo incômodo que, o que estava previsto para refletir-se durante todo um dia, acabou resumindo-se a uma manhã. E de que se tratava? Fazia uma reflexão crítica, avaliativa acerca da tentação e dos riscos corridos, não raramente, por missionários e missionárias europeus ou não nascidos no Brasil, quanto a uma tendência colonialista, isto é, de quem se pretende muito mais a ensinar, “ex-cathedra”, do que a compartilhar, de igual para igual, as experiências que o Espírito do Ressuscitado nos inspira.

Também nos sentimos remetidos, quanto à tentação e aos riscos de uma prática missionária de caráter colonialista, a dois outros episódios, ambos atinentes à experiência missionária da igreja de Crateús, entre os anos 1964 e 1998. Dom Fragoso era o Bispo daquela diocese. Ao receber convidados e convidadas comprometidos com a ação missionária junto aos pobres de Crateús, tinha o cuidados de prevenir aqueles convidados e convidadas a não chegarem de vez com determinada pregação, mas delas e deles solicitava um período de inserção nas várias comunidades urbanas e rurais daquela diocese, com o propósito explícito de permitir um aprendizado prévio com com o povo dos pobres daquela região. Somente após esta experiência de inserção missionária, eram eles e elas convidados a atuarem, de modo mais direto, junto a esta ou aquela comunidade. Assim sucedeu a vários missionários e missionárias da região, diversos dos quais vindos de outros países, como no caso de Padre Alfredo, nosso querido Padre Alfredinho, de saudosa e rica memória. Assim sucedeu, também, a diversas missionárias, vindas ou não de fora da região: por exemplo, à irmã Siebra Oliveira e à irmã Ana Vigarani, entre tantas que lá atuaram.

Outro episódio assinando para a disposição daquele Bispo e de sua equipe de coordenação diocesana dizia respeito à preocupação zelosa do Bispo, quanto ao modo como aquela diocese recebia ajuda de igrejas particulares de outros países. Tal era a preocupação de Dom Fragoso, com relação a evitar que tais ajudas implicassem dependência de toda ordem, que ele sempre cuidava de alertar os doadores quanto à gratuidade de seu gesto, de modo a não implicar qualquer tipo de dependência por conta daquelas ajudas. Dom Fragoso levava esta questão ao ponto de chegar, em determinado período, já nos inícios dos anos 80, a negar toda e qualquer ajuda que implicasse algum tipo de dependência de ordem pastoral ou de outro tipo.

Consequência disto é que frequentemente se passa a impressão de que estes missionários têm sempre a ensinar e pouco ou nada a aprender. Esta tentação e estes riscos, bem o sabemos, não correm apenas os missionários e missionárias não nascidos no Brasil. Também os e as que são brasileiros e brasileiras, especialmente quando vindos de regiões desenvolvidas em direção a comunidades pobres nordestinas, também experimentam esta tentação e estes riscos.

Algo que, por outro lado, nos conforta, nestas situações, é nosso esforço de nos lembrarmos sempre de quem é a autoria da Missão, remeter à fonte do nosso envio, ao Espírito do Ressuscitado que nos conduz a diferentes comunidades, para nelas e com elas aprendermos o que o Espírito tem a dizer a todos nós.

Algo importante que o Espírito Santo não cessa de fazer às missionárias e aos missionários também de hoje, diz respeito à indispensável disposição de abrir-se em diálogo, não apenas ecumênico, mas também inter-religioso. Os missionários e missionárias são chamados a entender o significado do apelo de unidade feito por Jesus, pelo seu espírito, no sentido de reconhecer a presença do Reino de Deus entre todos e todas, independentemente de sua filiação confessional e mesmo independentemente de identificar-se com qualquer crença religiosa.

Outro apelo que o Espírito do Ressuscitado nos dirige, a cada uma, a cada um de nós, tem a ver com o relato do livro do Apocalipse. Assim como as igrejas destinatárias do apelo do Espírito Santo, naquele relato, nós somos chamados e chamadas a examinar nossa atitude de abertura ou de recusa ao que o Espírito tem a nos dizer.

 

À bendita memória do Pe José Comblin, missionário e profeta da liberdade

Ao concluirmos estas linhas, justamente na antevéspera das comemorações do décimo aniversário da Páscoa do padre José Comblin, de quem tivemos a ocasião de compartilhar recentemente cerca de 40 testemunhos, oferecidos quando de sua Páscoa, por meio da Revista Consciência Net, somos instados a nos associar a quantas e quantos lhe prestam justa reverência, pelo seu legado perene, motivo de nossa Ação de Graças ao Deus da vida.

De tantas iniciativas missionárias nele inspiradas, e que tem seguimento também no Nordeste, gostaríamos de destacar apenas uma delas – a iniciativa correspondente às Escolas de Formação Missionária, espalhadas pelo Nordeste e também presente em São Félix do Araguaia. Trata-se de uma experiência que já conta com mais de 30 anos e que vem apresentando frutos abundantes, em nossa região. Alegra-nos reconhecer os bons frutos que vêm sendo colhidos por parte daquelas e daqueles que se têm empenhado na manutenção, na animação das Escolas de Formação Missionária.

Ainda recentemente, o Pe Hermínio Canova, nas páginas do site Teologia Nordeste, teve a oportunidade de nos trazer uma reflexão densa acerca dos frutos destas escolas missionárias. Após ter feito repercutir importante documento elaborado por coordenadores, formadores e formandos destas escolas, em assembleia realizada em Juazeiro na Bahia, expondo as marcas centrais, as características básicas destas escolas, trazendo, inclusive, o perfil de seus formandos e formandas, as características desta experiência, bem como alguns desafios que todos são chamados a enfrentar, também ele, o Pe Hermínio Canova, trata de nos trazer segundas provocações, especialmente no que concerne à necessidade contínua de renovação deste tipo de experiência missionária. Um dos desafios apontados tem a ver com a necessária atualização da própria forma de nos organizarmos, especialmente com relação a um tópico indispensável: a urgência de assegurar um acompanhamento sistemático daqueles e daquelas que concluem a primeira etapa desta caminhada, tarefa que supõe várias equipes que acompanhem os formandos, em suas atividades contínuas. Isto atesta a vitalidade desta experiência missionária plantada, há mais de 30 anos, com o protagonismo de tantas e tantos, inspirados na pedagogia do nosso querido Pe José Comblin, a quem rendemos nosso preito de gratidão.

 

João Pessoa, 25 de março de 2021.

Foto: Pe. José Comblin

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