Folhas, coração, juventude e fé

Foto: Mídia NINJA
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O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva gravou este vídeo em 2020, muito antes das eleições de 2022, para ler a carta de seu neto, Thiago, que tentou listar as expectativas da juventude brasileira para seu avô.

A lista-carta elenca preocupações evidentes para todo e qualquer jovem, ou mesmo adulto de meia-idade, em relação aos rumos do Brasil.

Pouco após a eleição de Lula para um novo mandato em 2023, estava ouvindo uma música antiga e famosa de Milton Nascimento (e Wagner Tiso!) – Coração de Estudante –, que me lembrou esta carta de Thiago. Começa a canção do nosso grande Milton: “Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda, deve estar dentro do peito, ou caminha pelo ar”. A canção, como se sabe, é um hino contra a ditadura militar.

Milton se refere à “folha da juventude”, ao “sorriso de menino” (ou menina), e trata de renovar a esperança.

A minha inquietação e afetividade acrescida com a velha conhecida canção tinha como fonte a mesma folha da juventude – eu hoje na meia-idade, aos 40 – da qual falava Milton, os mesmos “sentimentos muito fortes” citados por Thiago.

Trata da esperança e da perspectiva de futuro, sequestrados pelo ciclo de retrocessos políticos que “roubam nossos sonhos”, como descreve a carta de Thiago.

Do ponto de vista macro – e cuja incidência atinge cada um de nós –, o jovem não acredita na política e no Estado, apostando na individualidade em todos os níveis, incluindo no seu âmbito mais perverso historicamente, que é o neoliberalismo.

As políticas neoliberais são uma relativa novidade histórica até mesmo em países desenvolvidos, nos quais os futuros coletivos de toda uma sociedade são substituídos pelas precárias condições da existência individualista, condições estas historicamente criadas, institucionalmente reforçadas diariamente e que ignoram por completo o senso comunitário – ou, por fim, comum – que permeia todas as nossas almas, o nosso mais profundo ser.

O protagonismo do qual falam Milton e Thiago são essencialmente coletivos – “há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo, tomar conta da amizade”, Milton nos guia.

Os projetos espúrios do poder patriarcal, dos homens brancos armados, evidenciam o que Thiago descreve: os jovens têm mais capacidade de governar que muitos “líderes”, e assim o potencial invisibilizado da nossa juventude se dilui no mar abstrato da esperança. A incompetência e o descaso com o coletivo parecem ter vencido, afinal.

Thiago reafirma os princípios coletivos desse debate: precisamos discutir as drogas, e sobretudo a falida política de “guerra às drogas”, que Thiago explica ser “mais um dos bodes expiatórios inventados para controlar, prender e matar a população jovem e negra desse país”.

Precisamos de líderes? Talvez, mas isso está longe de ser suficiente. Precisamos de projetos com a participação ativa da juventude organizada. “Não queremos ser tratados como algoritmos”, sintetiza Lula.

A minha inquietação com o tema – de Milton, de Tiso, de Thiago, de Lula – não diz respeito à juventude, me atrevo a dizer. O tema central aqui é apenas um: o futuro à vista. Nossos sonhos não sobrevivem sem esperança. Nenhum país sobrevive sem esperança.

A esperança é o combustível da juventude. E a boa notícia é que este combustível é renovável, e está dentro de todos nós.

“Folhas, coração, juventude e fé”, cantou Milton Nascimento em um momento em que foi tocado por uma força qualquer, maior que todos nós, mas que todos conhecemos.

3 comentários sobre “Folhas, coração, juventude e fé”

  1. A sua sensibilidade se expressa tanto no projeto desta revista –que criaste há já quase 23 anos e que se mantém a força de esperança e fé–quanto nas palavras deste texto que explicita com clareza a dimensão do retorno do Brasil à democracia. O lugar e o espaço da juventude nesta reconstrução social e nacional, assume as dimensões de um resgate histórico do exato tamanho da vida de cada um, de cada um dos e das que sentem em si o sentido de país. Quer sejamos migrantes ou nativos, desta ou daquela cor ou nacionalidade, a transgeracionalidade deste esforço editorial, ultrapassa nesta hora, qualquer fronteira restrita. Humanidade, é o que se pede de nós agora. É tempo de ação. Ação consciente. Racional e amorosa. O seu texto é uma convocação ao melhor que existe em nós.

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