Em 28 de novembro de 2010, o secretário José Mariano Beltrame, natural de Santa Maria, Rio Grande do Sul, proclama:
– O complexo do Alemão era o coração do mal onde havia a convergência de marginais. Isso mostra uma perda de moral dos traficantes. Se chegamos no Alemão, chegaremos na Rocinha e chegaremos no Vidigal.
Passados aproximadamente nove meses (tempo de gestação da invasão) temos as primeiras pistas sobre o que pode acontecer.
Muitos pesquisadores foram simpáticos e até demonstraram entusiasmo ao falar da política das unidades de pacificação. Sobre os ombros destes policiais, o governador foi reeleito para seu segundo mandato e anunciou:
“em 2014 não haverá uma comunidade, um bairro do nosso Estado dominado pelo poder paralelo, seja miliciano, seja traficante”.
Tarefa para um Hercules. Mas nosso demasiadamente humano governador não deu conta da própria segurança, posta em risco em evento recente, envolvendo sua família em uma tragédia que pode ser nomeada assim: “Ícaro em más companhias”.
As ações do Estado em relação aos servidores públicos, como no caso dos Bombeiros, coloca uma complicada questão para debate. É preciso que ouçam os especialistas, mas em 24 de novembro de 2010, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, ouvi pela décima vez desde que moro no Rio, a voz dos moradores de favela. E eles disseram, vindo do Dona Marta, do Borel, da Cidade de Deus e da Providência:
– É O MESMO, É O GPAE.
Acredito que estão mais uma vez, certos. Em 2003, a proposta do GPAE era, segundo livro “Cultura de Paz e Prevenção à Violência”, “adentrar e ficar na favela” – era a tentativa de uma reabilitação do modelo esgotado de polícia, apontando a solução para polícia comunitária nas favelas cariocas.
É certo que para os moradores fora da área de favela e no perímetro urbano que compreende principalmente, zona sul- Maracanã, a sensação de segurança aumentou, o preço dos imóveis disparou e a vida pareceu ganhar a tão sonhada rotina. Não fossem os bueiros sumidouros da cidade.
Já para os moradores de favela, o aumento dos custos e a especulação também estão presentes. Mas a principal questão permanece : os usos do território, o espaço dos bares e das casas, os horários de ir e vir e como transitar nestes espaços. A liberdade.
Seria a UPP Social, o que faltou para combater o medo dos moradores? Apagar a forma como os policiais têm sido vistos desde sempre na favela? Manchete de setembro de 2011:
“De acordo com o general Adriano Pereira Júnior, chefe do Comando Militar do Leste, o principal desafio é combater o medo da população através de um trabalho conjunto da comunicação social do Exército e da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos”.
São as mesmas metáforas bélicas, combate ao tráfico, combate ao medo, combate aos vândalos que sempre são “alguns” entre a maioria pacífica da população. Mas esta índole pacífica não é uma verdade precisa. Durante os anos de 2005-2009, em pesquisa em Acari, Maré e Rocinha, todos os entrevistados tinham uma posição muito firme em relação as instituições policiais : eram DESMORALIZADAS. Se o nível de intensidade do ódio variava, entre aqueles que já haviam sofrido diretamente e os que sofriam coletivamente o problema que era morar na favela, a percepção sobre a desmoralização era consensual. Como combater o medo com uma força usada para guerra, dentro da cidade? Vivíamos um quadro de pavor, pré UPP, com o veículo que buscava nossas almas. Preto, blindado, impávido. Mas o atual silenciamento seria possível por quanto tempo? E por quanto tempo mais será possível, manter uma política pública com base em “tentativas de ganhar a confiança dos moradores”? Estas piadas de mau gosto, que não combinam com a inteligência da população fluminense, mas são contadas décadas após décadas como mantras que se realizariam sem trabalho. Estes mitos de marginais fortemente armados em algum lugar. Acreditem amigos, provavelmente eles voltaram na semana passada, pelo mesmo caminho que todas as televisões do país mostraram na tomada de 2010: pelas galerias pluviais construídas pelo Plano de Aceleração do Crescimento. Explicações e mitos estão no mundo desde e Grécia Antiga. Cada um pode escolher o que melhor justifica a ação ou a inércia. A total ignorância ou a total incompetência. Ou todas as opções anteriores.
Portanto, secretário Beltrame, nobre secretário: O Complexo do Alemão não é o coração do mal da cidade do Rio de Janeiro. Se algum mal há nesta cidade, devemos chamar a luz dos fatos, o prefeito Candido Barato Ribeiro, o também prefeito e engenheiro Pereira Passos, ambos (para não citar outros) que com políticas urbanas segregacionistas impuseram a ocupação dos morros da cidade como lugares de habitação. Certamente estes homens, tinham lá seus ideais sobre a cidade, a cidade de Haussmann, a cidade-luz. Nosso ideal de Brasil tem sido este: importa-se o projeto de cidade, importa-se o projeto de segurança de N. Y. ou da Colômbia, importa-se. Mas não vai haver nada possível, governador, para que sua promessa se cumpra até 2014. Nem milicianos, nem traficantes? Mesmo que Padilha seguisse filmando suas ficções realistas, nem ele daria conta deste roteiro.
(*) Luciane Soares da Silva é socióloga e professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
