Dores antigas me visitam
Lembranças de vivências doídas
Encaro estas recordações como um lembrete do que foi a minha caminhada
Acolho a pessoa que sou com estas marcas
Sei que o tempo leva tempo para sarar as feridas
Trato de que nasçam flores destas dores
Não me impediram de chegar até aqui nem de ser a pessoa que sou
Passo de um dia para outro nesta luta cotidiana de ressignificar o vivido
Vejo a minha trajetória, a minha história, as minhas escolhas
O que eu quero.
Já tive o sonho e ainda tenho de um dia não ter essas marcas e essas dores
Até esse dia chegar me toca esculpir e apagar, aparar
Costurar e tecer
Refazer o que sou e onde estou e como estou
Sabendo que tenho um lugar no mundo do jeito que estou, do jeito que sou
Exatamente desse jeito.
O mundo em volta não pára para ver este argentino de Mendoza
Que 46 anos depois de ter vindo pro Brasil ainda sofre com recordações de desaparecimentos e medos
Lembro de pessoas e palavras
Mães de desaparecidos
Dores infindáveis
Tortura contínua
Venho me trazendo de volta e vez por outra uns raios de luz
Me repõem num tempo anterior e benigno
Somente bom
Apenas bom
Muito bom.
Sinto-me perto dessa luz e bondade sempiternas
Alguns segundos deste tempo sem igual me animam e me atiçam
A terra prometida.
Ilustração: “Mimos do céu”

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
