Família e Igreja: Um Brasil “abençoado” por Deus

Por Fabio Nogueira e Marcio Roberto Carvalho,
Na noite de domingo (17), Deus deveria estar contente ao ver tantos cristãos no Congresso Nacional agindo em nome da ética e da boa decência condizentes aos ”cristãos” puros e amantes da verdade. Além disso, a Igreja e a família foram contempladas pelos nobres deputados da nossa casa legislativa. Se esperássemos mais, deus iria descer a Brasília e com certeza excomungaria quase toda a Câmara dos Deputados, pois com certeza estaria muito furioso ao ver tanta hipocrisia em seu nome.
Sou uma pessoa sem religião ou mesmo que não acredita mais em Deus. Já foi época em que acreditava, entretanto o ser humano passa por várias metamorfoses e o que falamos hoje com veemência pode ser diferente amanhã. Isto não quer dizer que sou intolerante aos praticantes nem será por causa da atitude errada de um membro de religião que vou considerar todas iguais. A vida e a convivência de pessoas de fé diferentes ensinou-me que não podemos aceitar a ideia de que todos são iguais só porque comungam a mesma fé. Existem pessoas que levam sua religiosidade ao pé da letra, segundo o cristianismo, o espiritismo, o candomblé e a umbanda pregam. Não fazem da fé um balcão de troca e tão pouco palco de politicagem.  Há poucos políticos religiosos sérios em Brasília que não maculam sua fé em troca de favores ou barganhas ilícitas.
Presenciamos um show de horrores no Congresso nacional. Acredito que nem Cristo conseguiria ficar por tanto tempo naquela casa infestada de tantos vermes e mercenários. Os escribas e fariseus sentiriam–se vergonhos tamanho era o grau de hipocrisia dos deputados federais .
A família, os netos, pais, avós e a Igreja entraram no bojo. Será que esses deputados usam da mesma consciência cristã na hora de beneficiar o povo?  Não, com certeza. Os mesmos pensaram no trabalhador quando aprovaram o projeto de terceirização dos empregos, onde os trabalhadores perderão todos os direitos conquistados a duras penas no século passado? Será que vão pensar em Deus quando votarão a lei que permitirá à mulher que for violentada pôr o sobrenome do estuprador em seu filho? Ou será que pensarão em Deus quando votarem na PL3722/12, que praticamente libera o uso do porte de armas para cada cidadão?
Estamos numa situação bizarra com este congresso nacional. Falta lideranças natas para dar dignidade congresso e ao povo.
Estamos numa situação que ainda não sabemos como administrá-la no futuro. O amanhã é incerto. Podemos dormir e acordar com direitos individuais sendo solapados, sem saber o porquê.  Mas com este Congresso não duvidamos que um dia pode refogar a carta da abolição assinada pela Princesa Isabel.
Estou defendo o meu voto, não tenham duvida, ao mesmo tempo me dar todo o direito de ser um cidadão critico aos tantos erros cometidos pelo governo Dilma. Defendo também a continuidade de estabilidade política que se iniciou há mais de 30 anos.
É inimaginável em qualquer democracia um vice-presidente cooperar  contra a chefe de Estado: sinal que não houve amadurecimento da democracia .
Também precisamos refletir sobre o assunto de maneira a não culparmos pessoas que nada tiveram a ver com aquele circo armado . Dito desta forma, separemos o” joio da trigo” , pois muitos cristãos posicionaram –se contra o indevido uso do nome de “Deus” naquela sessão , caso do posicionamento do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs , composto por Igreja Metodista Luterana , Episcopal e Luterana do Brasil . Lembremos também da Confederação dos Bispos do Brasil , que posicionaram –se contra o impeachment de Dilma Roussef .
Uma coisa é certa , esses eventos do último dia 17 , serviram para mostrar ao povo brasileiro duas coisas :a necessidade de  mudanças nas práticas políticas e religiosas de boa parcela de nossa população . Dito isto, é correto afirmar que nem todos os políticos são corruptos e outros que advogam não desejam participar dela ( “política e religião não se discute” ). Ainda existem muitos políticos sérios , e naquele dia foi possível constatar isso . Também não é correto atribuir de forma genérica a todos os religiosos a pecha de fanáticos e ignorantes , pois vimos também a presença de alguns cristãos  que se posicionaram contra aquele circo de horrores. Quando compramos o discurso do conformismo estamos inseridos dentro do conceito bourdiano de poder simbólico , isto é , ” poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnosiológica : o sentido imediato do mundo (BOURDIEU , 1989. P.7)
Quanto à questão de nossos políticos, fato é que nossa democracia está sob forte ameaça por conta de mau uso do direto de votar por parte de grande parcela dos cidadãos. Ainda impera em muitos lugares o chamado voto de cabresto, trazendo consigo a noção de curral eleitoral, esquema engenhosamente montado na primeira República, infelizmente ainda vigente em nosso país.
Segundo a pesquisadora Alice Melo, os evangélicos (lê-se, pentecostais e neopentecostais) vêm se firmando como produtores da cultura brasileira na área da música e modo de vestir. Além destas características, essas igrejas são marcadas pela lógica da disputa de territorialidade, isto é, visa ocupar espaços privilegiados no âmbito religioso ou político .
Em outro artigo da Revista História,  da Biblioteca Nacional , o professor Ricardo Mariano afirma: “Hoje o ativismo eleitoral e partidário dos pentecostais, a despeito de suas inclinações sectárias e fundamentalistas e de seu caráter moralista, é um dado da democracia e da cultura política brasileira”.
Como já disse, convém separarmos o “joio do trigo”. Não colocar no mesmo pacote aqueles que professam a sua fé com os que não concordam com este jogo político sujo, cuja função temos certeza que não é trabalhar à favor da democracia.
 
 
 

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