O que vê o governador?

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco

Poema do Beco, de Manuel Bandeira
Como a todos – creio eu – abalou-me bastante a notícia da morte de Wesley Freire, garoto de 11 anos, assassinado durante operação policial na última sexta-feira (16). Wesley assistia aula de matemática, em uma escola municipal, quando uma bala de fuzil o “achou”.
Wesley não foi o primeiro e certamente não será o último – pelo menos por enquanto. Com ele foi diferente porque ao contrário do que acontece com a maioria das crianças que são diariamente assassinadas no Brasil e tornam-se uma estatística, Wesley ganhou uma história, um nome, uma capa de jornal e uma nota oficial do governador.
Sempre que vejo histórias como a de Wesley, exercito o hábito de tentar encontrar as razões que estão por trás da comoção. Dirão os mais óbvios: se ele morasse em Copacabana, a cidade iria parar. Concordo. Com um pouco mais de atenção reconhece-se que o contexto no qual se insere o fato também é decisivo para determinar seu apelo. Wesley estava em aula. Sentado em sua carteira com um lápis na mão. E mais, dias antes havia respondido ao questionário de um jornal, onde escreveu que tinha medo de tiros. Os elementos que compõem a cena e o histórico dos personagens, sem dúvida, são decisivos.
Não sou adepta de comparações, inclusive porque abomino formas de hierarquização. Mas a história de Wesley me lembrou muitas histórias. Relato duas, apenas para ilustrar o exercício que expliquei acima. Renan estava no colo da mãe em um dia de eleição, há quatro anos. A polícia entrou na rua atirando e perseguindo dois “suspeitos”que não atiravam. Acertaram Renan aos três anos de vida. Mateus saía para comprar pão. Assustou-se ao ver o cano do fuzil na esquina e correu para o portão de casa. Ele tinha 8 anos e o policial ao vê-lo correr, atirou “preventivamente”.
Quando li a história de Wesley pensei nestas duas e em algumas outras para tentar encontrar as razões que fazem de sua morte um acontecimento de maior apelo do que a de Mateus ou de Renan. Não tenho respostas. Apenas pistas, como as que apontei antes. De relevante, há a certeza de que vivemos tempos sombrios, onde a vida humana vale cada vez menos. Onde a hierarquização destas vidas torna-se hábito. Uns devem ser protegidos. Outros podem. Uns muitos não têm direito.
Até esta tarde, como afirmei acima, acalentava esta conclusão como uma certeza. No entanto, passei a me questionar quando li declarações do governador Sérgio Cabral, após ser provocado sobre as condições da morte de Wesley: “o Rio vive um momento maravilhoso”. Pensei se não estaria sendo pessimista. Diz ainda o mandatário: “há problemas? Há. Mas a agenda do Rio é muito positiva”.
Voltei a pensar e concluí que não há pessimismo. Que importa as Olimpíadas, as obras do porto, a UPA, a agenda positiva? O que eu vejo é o beco. O que vê o governador, eu não sei.
(*) Marianna Araújo é jornalista.

4 comentários sobre “O que vê o governador?”

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  2. marianna, belo texto..eu tb vejo o beco, o caos, a sujeira…de maravilhoso só a paisagem do rio que foi feita antes pela natureza…o que o governador fez e o que ele pode fazer nao tem nada de maravilhoso para nós, cariocas…infelizmente….nao sou pessimista, mas realista. com esse governo nao teremos paz…

  3. Perfeito seu texto, Marianna. É preciso enfrentar o problemas da (in)segurança pública com uma visão mais ampla, do que essa, da mera repressão policial, embora necessária, mas não suficiente, por que não combate as causas dessa vioência endêmica. É preciso encarar a Segurança Pública (não insegurança e com “S” maiúsculo) com o olhar hiolístico, entendendo-a como um “direito fundamental” da sociedade, e como tal, deverá ser fomentada por políticas públicas que priorizem a Prevenção pela promoção da dignidade da pessoa humana. Trabalhar simplesmente na repressão gera mais insegurança, atuando o Estado depois que o dano, o caos e a violência já se consumaram. Trabalhar na prevenção, ao contrário, é política de Segurança Pública.

  4. E sempre haverá um beco, não importa quão positiva seja a agenda. Enquanto o último beco ainda estiver lá, não haverá momento maravilhoso. Excelente texto, Marianna.

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