Eu e o umbuzeiro da minha infância

“Oh, velho umbuzeiro,
resistente árvore dos cariris do Nordeste!
Sob tua sombra, ainda criança, eu fiz as
primeiras interrogações ao mundo … ”
(Agassis Almeida)

Lembro-me de pessoas fotografando a minha velha e modesta casa, cujas paredes nem rebocadas eram, portas e janelas remendadas, e as brechas deixando à mostra o seu acanhado e despido interior.

Recordo das fotos das árvores que cercavam a nossa quase choupana. E das máquinas clicando instantâneos do roçado, com os pés de milho exibindo suas bonecas de cabeleiras vistosas, e do feijão macáçar, e dos pés de algodão com flores se abrindo em capuchos brancos.

Lembro-me das imagens fotográficas da velha casa de farinha com seus instrumentos rústicos: uma grande roda ligada ao caititu por uma corda que servia de transmissão. Dois homens giravam-na com esforço, e assim a mandioca era fragmentada, depois prensada para enxugar, e então ia para o forno para ser torrada de uma forma bastante primitiva. Eu admirava, deslumbrado, a coordenação de esforços e movimentos, cujo resultado final eram sacos de farinha.

Porém não me lembro jamais de alguém ter tirado uma foto do meu umbuzeiro.

Na minha ingenuidade de criança eu me perguntava por que aquela discriminação? Na verdade, minha árvore mais querida não era bonita, aliás, era muito feia, mas eu a amava e a sentia tão minha amiga, que não havia beleza igual.

Só numa metade do ano ela se vestia com suas folhas verde-escuro formando uma copa fechada, não deixando os raios de luz invadir a sua intimidade.

Seus frutos eram muito doces e apreciados. Muitas pessoas, sem lhe pedir licença, colhiam os umbus maduros ou inchados, e os saboreavam até se fartarem, porém nenhuma foto, pelo menos de agradecimento.

Sem compreender essa indiferença, eu te amava, meu velho umbuzeiro.

Tu eras o meu confidente. Quantas vezes, nas minhas muitas frustrações de criança, tu me acolhias e escutavas os meus queixumes, e teu tronco áspero foi regado por minhas lágrimas!

Certa vez eu dormi à tua sombra, embalado por uma canção que somente eu entendia: a voz dos teus galhos tocando uns nos outros. Para mim, não era ruído, talvez uma melodia no teu jeito roceiro de cantar. Sentia-me protegido, tu não deixarias que nada me perturbasse. Tu também me despertavas, se não tu os pássaros que abrigavas nos teus ramos.

Deixavas que eu subisse em teus galhos e de lá eu olhava para o tamanho do meu horizonte. Como era pequeno. Juntos, tu imobilizado por natureza, e eu movimento, procurávamos descobrir o que existia além do nosso diminuto mundo. Que haveria do outro lado daquela serra limite? Umbuzeiro, apesar de tua experiência, quem sabe secular, nunca me respondeste, porém me estimulavas a curiosidade, elevando os galhos para que eu subisse mais alto.

Ouvíamos as pessoas falar: fulano viajou “pra baixo”. Que seria esse “pra baixo”? Só poderia ser o outro lado daquela serra desajeitada. Para mim, lá estava a felicidade, a alegria, todos os meus projetos de criança.

Os carros vinham ou iam “pra baixo”, as pessoas viajavam “pra baixo”.

Tu nunca me explicaste que nós morávamos em cima de uma serra. Mas, não guardo mágoas, quiçá tu também nem sabias.

Lembras-te meu velho umbuzeiro como tu não gostavas que invadissem a tua sombra? Arranhavas as pessoas com teus galhos espinhosos. Tua sombra era tua, foi o que te restou.

Nasceste na fenda de uma laje de pedra. Sob teus galhos não brotava nada, nem ervas, e por que aquele ciúme de tua sombra? Será que tu a guardavas somente para mim? Por que escolheste (ou não foi tu?) aquela loca para nascer? Então quem teria colocado ali a semente que te deu origem? Com certeza foi um desafio para tua capacidade de resistência. Dali, daquele ínfimo espaço, tu tiraste a seiva que te fez crescer, que te deu folhas verdes e muitos frutos.

Numa noite de lua branca tomei coragem e penetrei na tua sombra. Tu não conseguias impedir que a lua, bisbilhoteira como sempre, entrasse no teu íntimo, e por isso pedias ajuda ao vento que, em vão, procurava fechar as brechas. O que a lua procurava? Não sei, mas sou testemunha de sua presença intrusa na noite escura do teu interior. Eu queria ver como era a tua noite, ou como tu eras na noite. Não me pareceste melancólico. Tenho a impressão que descansavas com o silêncio. O que é certo que acolheste minha presença sem rejeição.

Um dia cheguei até tu. Desconfiado. Olhei para todos os lados. Ninguém estava vendo. Entrei no meu refúgio, encostei-me bem em teu tronco, mas sem levantar a vista. De repente um dos teus galhos acariciou minha fronte, e eu entendi a voz daquele gesto: “Pode contar para seu amigo o que lhe aflige”. Tomei coragem e te disse: “Hoje aconteceu comigo algo muito estranho. Eu vi uma menina, cujo corpo começava a desabrochar. Por baixo do seu vestido os seios insurgentes rebentavam. Quando ela corria, a saia mostrava suas coxas e despertava uma grande curiosidade para saber o que existia mais acima. Contemplei aquele corpo em transformação e senti uma sensação inusitada. Pela primeira vez eu percebi uma ereção estimulada. Experimentei um grande remorso, pois até então conhecia tudo aquilo como muito imoral.”

Nesse momento eu imaginei que teus galhos riam muito, soprados pelo. vento. Fiquei envergonhado e furioso. Afinal, tu não tinhas dito que podia contar o que sentia? Logo depois entendi que tu querias dizer: “Isso é muito normal.”

Umbuzeiro, perdoa-me, mas houve uma grande lacuna no nosso relacionamento: nunca me ensinaste os segredos do amor. Por que me deixaste sair pelo mundo ignorando essa dimensão fundamental da vida humana? Ah! Umbuzeiro, se tu, nas nossas horas de confidências, tivesses apontado caminhos do amor sem dores, hoje eu não me curvaria ao peso da saudade.

Será que tu nunca amaste umbuzeiro? E então, por que te enfeitavas de flores? E por que, quando o vento, teu eterno cúmplice, soprava, teus galhos só se inclinavam para o lado sul? Confesso-te, em uma ocasião eu te vi sorridente e teu olhar tinha um brilho de flerte. E aqueles cantos dos passarinhos nos teus galhos? Não seriam mensagens de teus amores?

Sinto umbuzeiro que não me contaste tudo que hoje eu desejo saber. É claro, tu também tinhas teus segredos.

Um dia, umbuzeiro, te trouxe uma notícia triste: eu iria partir “pra baixo”, iria conhecer o outro lado daquela serra, iria sair da pequena bolha em que vivia para contemplar um horizonte, que eu pensava, sem limites. Dei-te a notícia, e fiquei observando os galhos, as folhas, o teu tronco e, nenhuma reação. O que sentiste minha querida árvore?

Fiquei pesaroso em não sentires tristeza com a minha ausência, porém quando te olhei pela última vez tive a clara impressão de que tuas folhas estavam todas murchas e que não tiveste animo para sequer dar-me um adeus.

Pensei sair de tua sombra, mas em vão. Percorri caminhos não sonhados. Conheci pessoas, conheci mundos, senti apelos. Deslumbrei-me com a grandeza do cosmos. Amei de dia, de noite, ou fora de ritmo. Percebi o conhecimento aflorar e com ele o nascer da consciência crítica. Intuí os desvãos da natureza humana. Comparei a beleza do mar, da lua, das estrelas. Acompanhei os extremos do amor e do ódio. Experimentei o abismo entre o pobre e o rico. Percorri o espaço entre a fé e o ateísmo. Quantas vezes recolhi-me ao meu interior procurando o que me faltava. Mas, ninguém, nada, me acolheu como tu o fizeste. Parece, meu saudoso umbuzeiro, que o destino não devia ter separado os nossos caminhos. Não me satisfez conhecer o clarão que eu via do outro lado da serra disforme. A ânsia de penetrar o desconhecido não me deu o que eu esperava. Acostumei-me como tu, nascido no insignificante espaço da fissura de uma laje, a viver num mundo muito pequeno. Sendo que tu conseguiste retirar a energia que precisavas de uma diminuta cavidade, desafiaste o mundo subindo com teus galhos até aonde podias, mas eu, querido umbuzeiro, não encontro a utopia das grandes aspirações, dos grandes ideais. Tu subiste até onde tuas forças permitiram, eu não consigo me erguer do meu desânimo. Tu sempre cresceste em direção ao alto, meu sonho era descer “pra baixo” na ilusão de que ali morava a felicidade, mais precisamente, a alegria.

E por que não passaste para mim um pouco da tua força?

Outro dia, umbuzeiro, eu me encontrava num desses dias neutros, em que o mundo se veste de cinza e a esperança cede lugar à lembrança, e esta se transforma em saudade. Aí me contaram que fizeram uma grande barragem e suas águas te cobriram deixando apenas teus galhos mais altos à vista, hoje, já totalmente nus. Parecem esqueletos em prece.

Senti muita tristeza e comecei a imaginar como foram teus últimos momentos. Sei que tu resististe. Tu subiste junto com as águas, e até chegaste mais acima delas.

Imaginei aqueles homens rudes demarcando o terreno que seria coberto pelas águas, e talvez nem te tenham olhado, desconhecendo o que representavas para mim.

Imaginei a água subindo, te sufocando, levando as lembranças dos meus, ou, dos nossos momentos felizes. Imaginei teu último olhar para a tua vizinhança que, como tu, também desaparecia.

Qual foi, umbuzeiro, a tua última mensagem, qual o teu último pensamento? Será meu querido amigo, que fiz parte dos teus derradeiros momentos? Filósofo, como tu eras, será que pensaste naquela água que te fez tanta falta e agora pelo excesso te asfixiava? E a serra que, juntos, contemplávamos? Ainda tiveste fôlego para acenar-lhe com o adeus definitivo?

Que fizeste, umbuzeiro, das minhas confidências de criança? Dos meus sonhos? Dos meus projetos infantis? Levaste contigo ou ficaram sepultados junto à laje que te serviu de berço?

Não importa, meu sempre querido umbuzeiro, tu continuarás em minha memória, mesmo que teu tronco, que tantas vezes me amparou sirva de pasto para os peixes, carregar-te-ei comigo pela caminhada da vida.

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