Estar aqui, viver

montañaHá vários dias que venho refletindo sobre algumas coisas que gostaria de partilhar agora. Uma delas, pode ser resumida nestas frases a seguir: O problema não é o que está aqui, mas o que eu penso que aqui está, ou, ainda, o que penso que aqui deveria estar. O que aqui está, dificilmente é encontrado ou contatado.

Parece haver toda uma indústria para nos separar do presente, do que aqui está. Há muitos pensamentos, instruções, orientações, ideologias, sobrecapas encobrindo o que aqui está. Então se não vejo o que está aqui, o que vejo? Meus próprios pensamentos, ou, melhor (ou pior ainda) pensamentos alheios que aprendi a considerar como meus.

Não vejo você, não vejo a rua, a sala, as pessoas, mas o que aprendi a pensar que estava ali. Um pré-conceito, uma ideia falsa, feita pelas experiências de ontem. Não o agora, mas o ontem está aqui. Se não vejo o que está aqui, o que vejo? Não vejo. Simplesmente fiquei sem ver.

E há muitas interpretações acerca de por que não me contato, por que não encontro o que aqui está. Não importam muito essas interpretações agora, e, sim, registrar o fato. Não vejo o que aqui está, mas o que penso que aqui está, o que aprendi a pensar que aqui está.

Parece que não temos possibilidade de estarmos presentes, então criamos barreiras, separações entre nós e a realidade que nos rodeia, e da qual fazemos parte. A realidade interna e a externa, tudo fica como que separado da nossa percepção. Não vejo, mas penso que vejo. Mas posso tentar ver, se der um espaço, se constatar que algo está embaçando a minha visão.

Posso deixar uma réstia, uma fissura. Dizia no começo, que o problema não é o que está aqui, mas sim, o que penso que está aqui. O que penso que está aqui ou o que penso que aqui deveria estar, não estão, de fato. Isto cria uma reação de desgosto, de incômodo.

O que é isto que está aqui, ao invés do que penso que aqui deveria estar? Tenho medo. Então pode começar a se abrir uma porta. Por que temo o que está aqui? Aqui vem o passado, as experiências de ontem e de antes de ontem.

Eu não podia ser como era, tinha que ser como meus pais ou os professores ou o padre ou a polícia ou os vizinhos pensavam que eu deveria ser. Instalou-se então um barulho ensurdecedor dentro de mim.

Não sou o que sou, mas o que alguém com poder, pensa que eu deveria ser. Aprendi a fingir, como diz Allan Watts em Tabu-O que não deixa você saber quem você é. Aprendi não a ser, mas a parecer.

Ser e parecer se parecem, mas são muito diferentes. Se parecem fonéticamente, mas são muito distintos. Ser é o que está aqui, o que não contato, o que não vejo, o que não sei o que é, o que me amedronta. Por temer isto que está aqui, vivo fugindo, vou para outro lugar. Para o passado, para o preconceito, para o que não está aqui.

O que está aqui se desvanece. Mas eu também me desvaneço, neste des-conhecimento. Posso dar um passo em direção ao que está aqui, se percebo que não o estou a contatar. Pode ser que não seja tão amedrontador. Pode ser que seja algo muito bom, que aprendi a evitar.

Posso tentar estar aqui. Posso tentar viver. Talvez seja muito acolhedora esta experiência. Posso tentar. Vou tentar. Poso tentar viver numa fresta ou na plenitude. Posso brincar de esconde-esconde com a realidade, vir e fugir, como fiz durante anos. E, brincando, um dia descubro que aqui estou. Então, começa uma vida nova. Começa a vida, de verdade.

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