Esculacho pra que?

A Frente de Esculacho Popular revelou neste sábado (20/10) mais um torturador da ditadura civil-militar do Brasil. Dessa vez chegaram à rua do ex-militar Homero César Machado, que chefiou equipes do DOI-Codi (SP), apontado como um dos principais torturadores.
Presos políticos que passaram por suas mãos experimentaram e viveram as mais terríveis torturas: choques, espancamentos, estupros, “cadeira do dragão”, pau de arara, entre outras ferramentas. Há quem esteja vivo para recordar e afirmar tudo isso.
No panfleto distribuído durante a manifestação alguns nomes foram apontados, como o do professor Roberto Espinosa e do psicanalista Reinaldo Morano. Mas não é só a prática da tortura que está sob a responsabilidade de Homero.
Familiares do operário assassinado, Virgílio Gomes da Silva, identificado como primeiro desaparecido político do Brasil, estavam presentes e manifestaram sua indignação diante do edifício em que mora Homero Machado.
“Você matou meu pai. A dor perdurará, mas a alegria de ver condenado um torturador vai ser maior. Olha quantos Virgílios apareceram. Você é a vergonha do nosso país. Vida longa para você pagar o que fez”, afirmou o filho, que carrega o mesmo nome do pai, Virgílio Gomes.
Olhe bem nos olhos
“A próxima vez que vocês estiverem em uma reunião do condomínio olhe bem no fundo dos olhos do seu vizinho. Ele tem um nome, ele serviu ao Estado, ele serviu a você. Em nome da Pátria ele mutilou dezenas de militantes que lutavam por um projeto de país democrático”, afirmou a atriz Mônica Rodrigues, durante manifestação do Kiwi Grupo de Teatro.
O esculacho alertou a vizinhança. Nos arredores pessoas saíram na sacada ou na janela para assistir as pessoas que se reuniram em protesto, com gritos de repúdio à todas as formas de violências praticadas durante a ditadura.
No próprio edifício do Homero, era perceptível a perplexidade. Uma senhora, moradora do segundo andar, olhava atentamente, chorou, sacudindo a cabeça, indgnada. A surpresa desagradável de saber o passado do seu vizinho.
Nas calçadas pessoas paravam, liam o panfleto, e começaram a escutar atentamente as falas. “Eu entendo que é um constrangimento para quem mora e não teve nada haver com as atrocidades cometidas por esse bárbaro”, reiterou a atriz Mônica Rodrigues.
Quem torturou Dilma Rousseff?
Na porta do edifício os manifestantes deixaram uma coroa de flores com fotos de vítimas. Ao lado penduraram uma faixa com a frase “Quem torturou Dilma Rousseff?”
Se é que ele vai voltar…
O repórter da Folha de S. Paulo conversou com a vizinha de porta de Homero, a advogada Fernanda Souza que afirmou que ele estava viajando. Revelou-se surpresa, afirmou apoio a esse tipo de ação. “Vamos ver como vai ser quando ele voltar. Se é que vai voltar…”, disse a advogada.
A juventude acordou
A viúva de Virgílio Gomes, Ilda Martins da Silva, contemplou a iniciativa que foi sustentada por jovens membros da Frente do Esculacho Pupular. “A juventude finalmente acordou, depois de tanto tempo”, afirmou Ilda.
Para não esquecer
Personagens como o operário de origem nordestina, Virgílio Gomes da Silva, não podem ser esquecidos. Sua trajetória foi relatada no livro “Virgílio Gomes da Silva: de retirante a guerrilheiro”, que contem informações importantes para a memória política.
Também foram vítimas de Homero: Frei Tito de Alencar Lima, Jurema Valença, Marco Antônio Tavares Coelho, Heleny Guariba, entre tantos outros.
São todos vítimas do que se configura “crimes contra a humanidade”. Homero Machado nunca foi punido pelas atrocidades que cometeu. Beneficiou-se da Lei da Anistia de 1979, a qual, não custa lembrar, foi considerada inválida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A ideia dos manifestantes é que não há reconciliação e que a justiça precisa ser feita, além de preservar o direito à memória e à verdade, já que a maioria dos brasileiros só conhece a versão dada pelos militares.
(*) Reproduzido do blog da Thaís Barreto.

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