ERIC HOBSBAWM OU A HISTÓRIA A PARTIR DOS DE BAIXO

Recebemos a noticia a pouco da morte do historiado Eric Hobsbawm. Professor de história social em Londres, nascido em Alexandria e educado em Viena, Berlim e Londres, participou ativamente do “breve século XX” (como cunhou em um de seus livros). Comunista por militância e convicção, fez da sua pena de escritor uma arma contra as opressões e as injustiças que sempre assolaram as classes trabalhadoras. No campo intelectual, uma inteligência investigadora, analítica, sem medo da teoria; um desejo de situar e ordenar cada fenômeno histórico e um estilo claro e conciso, deixando perceber um imenso cabedal de conhecimentos por trás da sintaxe elegante.

Outra marca de Hobsbawm era os temas que escolheu para investigar e o lugar interpretativo. Pesquisou, na linha da historiografia social britânica, trabalhadores e suas condições de vida; rebeldes de toda sorte; o jazz e os negros Norte-americanos; Mulheres rebeldes, escritores radicalizados. Tinha sempre claro uma linha metodológica em que os de baixo tinham relevância. Sabia ele como se fazia história na Europa e, em particular, na conservadora tradição inglesa. Pesquisar monarcas opulentos ou os costumes das classes dominantes era a tônica e dava fama ao escriba que se dedicasse a tal empreitada historiográfica. Mesmo assim, optou fazer o cominho mais ousado e digno de um homem de esquerda. Fez história a partir dos de baixo, sem pieguismos ou panfletarísmos.

Foi em um dos mais brilhantes ensaios, intitulado: “A primavera dos povos”, sobre as consequências da revolução de 1848 e a subida ao poder de um idiota como Luís Napoleão, que ele disparou algo típico de um historiador atento: “Sua experiência demonstra não apenas que a ordem social podia disfarçar-se de um força capaz de atrair a esquerda”. Nada mais atual na quadra contemporânea brasileira. Por essas e outras, foi ele um historiador que soube fazer do passado um lugar interpretativo para nos fazer entender o presente e atuar nele. História para ele jamais seria instrumento neutro de conhecimento e sabia ele que abrigava nas suas disputas posições perigosas quando não atentava o “digníssimo historiador acadêmico” a quem servia ou a quem serve numa estrutura de classe.

Na sua coletânea de nome “Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e Jazz”, num pequeno texto de beleza rara, fez uma afirmação sobre Billie Holiday definitiva: “Assim, foi ao recriar os barulhos insuportavelmente tristes, sensuais, sinuosos e de textura áspera que lhe garantiram imortalidade” (p. 4001).

Homem de concepção socialista, sempre teve um certo realismo na sua posição diante dos fato. No final de um ensaio sobre o “Radicalismo e Revolução na Inglaterra” afirmou categórico: “Ocorre que ser revolucionário em países como o nosso é difícil. E não há razão para acreditar que será menos difícil no futuro como foi no passado” (p.27). Lucido e engajado, assim foi Hobsbawm e imprimiu uma maneira de fazer história na linha de Karl Marx como poucos no século XX. Num momento que em vários lugares do mundo a historiografia esta tão pobre de reflexão, tão voltada para louvações de vultos das classes dominantes e cada vez mais dominada por um método minimalista sem totalidade e carente de crítica, um ensaismo rigoroso como o dele fará muita falta. E como!!! Salve Eric Hobsbawm.

O autor é docente na UFS

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