ENTREVISTAS RECENTES DO CARDEAL MARTINI SOBRE A IGREJA, CONCEDIDAS A PE. GEORG SPORSCHILL E FEDERICA RADICE (EM 8/8/2012)

Pergunta: Como o Sr. vê a situação da Igreja?

Cardeal Martini: “A Igreja se acha cansada na Europa do bem-estar e na América. Nossa cultura envelheceu. Nossas igrejas são grandes. Nossas casas religiosas estão vazias, e o aparelho burocrático da Igreja levita, nossos ritos e nossos hábitos são pomposos. Mas, essas coisas expressam o que nós somos, hoje? (…) O bem-estar pesa. Aí nos encontramos como o jovem rico que vai embora, triste, quando Jesus o chamou para fazê-lo tornar-se discípulo dele. Eu bem sei que não podemos largar tudo, com facilidade. Mas tão pouco poderemos encontrar homens que sejam livres e mais perto do próximo, como o foram o bispo Romero e os mártires jesuítas de El Salvador. Onde estão, entre nós, os heróis em quem nos inspirar? Por nenhuma razão, devemos limitá-los com os vínculos da instituição.”

Pergunta: Quem pode ajudar a Igreja, hoje?

Cardeal Martini: “Padre Karl Rahner usava, de bom grado, a imagem da brasa que se esconde sob a cinza. Eu vejo na Igreja de hoje muita cinza sobre a brasa, que até me dá uma sensação de impotência. Como se pode liberar a brasa da cinza, de maneira a fazer revigorar a chama do amor? A primeira coisa a fazer é procurar de novo a brasa. Onde estão as pessoas singulares, cheias de generosidade como o bom samaritano?^Que têm fé como o centurião romano? Que são entusiastas como João Batista? Que ousam o novo como Paulo? Que são fiéis como Maria Madalena? Eu aconselho ao Papa e aos bispos a procurarem doze pessoas fora dos padrões para ocuparem postos de direção. Homens que estejam próximos dos mais pobres e cercados de jovens, e que experimentem coisa novas. Tenham necessidade de pôr-se diante de homens ardorosos, de modo que o Espírito possa difundir-se por taoda parte.”

Pergunta: Que instrumentos aconselha contra o cansaçõ da Igreja?

Cardeal Maritini: “Aconselho três bastante fortes. O primeiro é a conversão: a Igreja deve reconhecer os próprios erros e e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo Papa e pelos bispos. Os escândalos da pedofilia nos incitam a empreender um caminho de conversão. As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas que envolvem o corpo constituem um exemplo. Estes são importantes por tudo, e às vezes talvez sejam também muito importantes. Devemos indagar se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja, em matéria de sexualidade. Será que a Igreja ainda é, neste campo, uma autoridade de referência, ou apenas uma caricatura na mídia? O segundo conselho: a Palavra de Deus. O Concílio Vaticano II restituiu a Bíblia aos católicos. (…) Só quem percebe em seu coração esta Palavra poderá fazer parte daqueles que ajudarão a renovação da Igreja, e saberão responder às questões pessoais com uma justa escolha. A Palavra de Deus é simples e busca como companheiro um coração que escute (…) Nem o clero nem o Direito eclesiástico podem substituir a interioridade do homem. Todas as regras exteriores, as leis, os dogmas nos são dados para esclarecer a voz interior e para o discernimento dos espíritos. Para quem são os sacramentos? Estes constituem o terceiro instrumento de cura. Os sacramentos não são um instrumento para a disciplina, mas uma ajuda para os homens nos momentos da caminhada e das fragilidades da vida. Será que levamos os sacramentos aos homens que necessitam de uma nova força? Eu penso em todos os divorciados e nos casais re-casados, nas famílias ampliadas. Estes têm necessidade de proteção especial. A Igreja sustenta a indissolubilidade do matrimônio. É uma graça quando um matrinônio e uma família conseguem (…) A ligação que defendemos em relação às famílias ampliadas determinará a aproximação da Igreja, das gerações dos filhos. A mulher foi abandonada pelo marido, e encontra outro companheiro que vai cuidar dele e dos três filhos. O segundo amor tem êxito. Se esta família for discriminada, desprezada, não só a mãe, mas também seus filhos. Se os pais se sentirem estranhos à Igreja ou dela não têm apoio, a Igreja perderá a geração futura. Antes de comungar, rezamos: “Senhor, eu não sou digno…” Nós sabemos que não somos dignos. (…) O amor é graça. O amor é um dom. A pergunta se os divorciados podem comungar deveria ser invertida. Como é que a Igreja pode ajuda, pela força dos sacramentos, a quem tem situações familiares complexas?”

Pergunta: O que o Sr. faz pessoalmente?

Cardeal Maritini: A Igreja ficou para trás duzentos anos. Como nunca antes envelhece. Temos medo? Medo em vez de coragem? E, no entanto, a Fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. Eu estou velho e doente e dependo da ajuda dos outros. As pessoas boas que me cercam, me fazem sentir o amor. Este amor é mais forte do que o sentimento de desconfiança que tanto percebo nos confrontos da Igreja na Europa. Só o amor vence o cansaço. Deus é Amor. Eu ainda tenho uma pergunta para você: o quê você pode fazer pela Igreja?”

(Corriere della Sera, 1 de setembro de 2012)

Tradução: Alder Júlio Ferreira Calado.

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