Entre a ressocialização, a vingança e a simples burrice

matematico

A mediocridade do pensamento limitado a polos pré-fabricados pelo senso comum continua a fazer mais vítimas, incluindo muita gente bem intencionada.

SE POLICIAIS TOTALMENTE despreparados começam a atirar que nem loucos sobre um bairro residencial densamente povoado, isso é uma barbárie sem possibilidade de qualquer tipo de argumentação contrária. Basta se colocar no lugar e fim.

Quem discordar dessa posição deve necessariamente aceitar – formalmente, favor enviar assinatura autenticada no cartório – ‘levar bala’ e arriscar sua vida apenas para que seja realizada a captura de um traficante, que será substituído uma semana depois (provavelmente com ainda mais contatos dentro de corporações oficiais). Mas deve fazê-lo sozinho(a), ou seja, deve morar num bairro bem afastado, apenas com pessoas que aceitem levar tiros mesmo com toda a tecnologia criminal disponível.

SE ESTES MESMOS POLICIAIS são alvo sistemático de ataques, estes são fatos igualmente importantes e a política de confronto deve parar imediatamente, a não ser que não haja qualquer outra alternativa, com a vida desses agentes públicos preservadas sem mais demora.

Quem discordar dessa posição deve se colocar na pele destes policiais imediatamente, cujo estresse profissional é um dos mais perversos, com prejuízo também para familiares, amigos, conhecidos.

A absoluta maioria dos policiais é composta de profissionais íntegros, recebendo ordens para prevenir o crime ou prender pessoas perigosas, e em muitos casos silenciados pela banda podre das polícias civil e militar, prejudicados pela mediocridade da formação da categoria ou impotentes diante da ineficiência das corregedorias.

SE CRIMINOSOS FORAM identificados como autores de ataques contra a população, tráfico de drogas e armas ou qualquer outro crime, hediondo ou não, devem pagar na forma da lei e dentro do Estado de Direito, pois não se trata de ganhar o campeonato nacional da barbárie.

A civilização já tentou a alternativa do ‘olho por olho, dente por dente’, atingindo apenas ainda mais barbárie, intolerância e regimes de apartheid contra minorias excluídas do jogo político dominante. Simplesmente nunca deu certo. A punição exemplar, essa sim, temos centenas de exemplos para exibir.

O QUE EU QUERO ENTENDER é: quem é que determinou que estas posições são inconciliáveis? Quem anunciou que acreditar na justiça e na igualdade é algo intangível, de ordem ilusória? Aqueles que ganham com esse caos e depois pintam de heróis. Os ‘xerifes’ e ‘justiceiros’. Enquanto eles estão vendo o circo pegar fogo, muitos continuam a se debater em torno de falsas polêmicas, criadas por quem está contente com nossos números de país em guerra, mesmo sem contestação do poder central por parte de qualquer grupo rebelde.

Quais foram os países que resolveram seus problemas de segurança pública? Países que fecham prisões, abrem escolas e acreditam no ser humano – não por bondade, mas sobretudo por uma questão de inteligência.

Dá certo nos países que decidiram não mais apostar na indústria da morte. Eles entenderam que a ressocialização gera cidadãos, enquanto a vingança gera assassinos.

PARA OS QUE VIRAM na TV as cenas do despreparo dos policiais na ação que executou o traficante Matemático, no Rio de Janeiro, fica a impressão de que a imagem deste texto é uma reprodução das filmagens da polícia civil.

Não é. São cenas de soldados norte-americanos e ingleses assassinando sem qualquer critério cidadãos iraquianos, em imagens liberadas pelo site Wikileaks. Porque, no final, o princípio é o mesmo. E o resultado final muito semelhante.

2 comentários sobre “Entre a ressocialização, a vingança e a simples burrice”

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