Há algumas distorções gritantes no quadro atual da política nacional de educação superior. Que uma professora ou um professor universitário tenha um vencimento básico no valor de um salário mínimo, é por demais ofensivo, e fala de um esquecimento de um setor fundamental para o desenvolvimento social do Brasil. Isto é a continuidade da política de desmoralização do ensino superior executada por FHC, o lamentável professor que chamava seus pares de “vagabundos”.
Atualmente o salário das professoras e professores universitários é quase que completamente composto por gratificações, que podem ser retiradas a qualquer momento. Na atual greve, uma das reivindicações, é a incorporação das gratificações ao vencimento básico. Não adianta o Brasil se projetar para fora, para os mega-eventos, e esquecer da sua população. O ensino superior é de uma importância estratégica fundamental, tanto na produção do conhecimento, quanto na geração de cidadania.
Um governo que vise ao desenvolvimento integral do país, deve estar envolvido na valorização da carreira dos docentes universitários. Atualmente estes docentes são super-explorados, uma outra herança do lamentável FHC, o professor camaleão, marxista nos anos 1960, neoliberal nos dias atuais E toco deliberadamente na questão ideológica, pois é inaceitável que um governo se diga dos trabalhadores, e esqueça que os trabahadores não são uma categoria vaga e difusa. É nas universidades públicas que se constrói o futuro do país, em muitos sentidos.
FHC quando interrogado se não havia mudado demasiadamente, de marxista a neoliberal, respondeu, cínicamente: é o mundo que mudou, não fui eu que mudei. Isto é traição, é falta de ética. As universidades não devem produzir únicamente profissionais eficientes, capazes. Devem produzir se me permitem esta palavra aqui, cidadãs e cidadãos conscientes do dever ético para com os mais explorados, os que mais sofrem, os excluídos socialmente. A mudança social não se dá por megaeventos, megaconferências, mas por uma mudança contínua no tecido social, de baixo para cima, das ocupações e afazeres mais aparentemente inócuos e anódinos, até as ocupações mais rentáveis e elevadas na pirâmide social.
Não se pode mais pensar, em pleno século XXI, em países de costas para os seus cidadãos, alheios à destruição humana que o capitalismo processa continuamente, com a cumplicidade dos governantes e de uma classe intelectual corrupta e insensível. Para evitarmos outros FHC, é preciso não apenas pagar dignamente os docentes universitários das universidades públicas, mas mudar radicalmente o sistema educativo. O sentido da educação superior há de ser cada vez mais o da inclusão social. O da construção de uma consciência ativa e solidária entre todos os segmentos da população.
Para isto, o governo deve atender as reivindicações dos docentes em greve, e responder ativamente a este desafio, qual seja, o de contribuir para gerar, dentro das universidades públicas uma noção clara do compromisso que cada pessoa humana tem com o futuro e com o presente de todas as pessoas que moram e fazem um país. O Brasil não pode continuar a ser, como querem alguns segmentos das classes dominantes, um pais de uns poucos privilegiados, acobertados pela impunidade. Há de ser, cada vez mais, um pais de todas e de todos, e isto não pode ser apenas um slogan vazio.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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