Ecologia pascal

Este texto do Pe. Vicente Zambello reflete o sentir e o movimento de resistência dos povos da floresta à devastação.

“Estamos vivendo um tempo de crise no planeta Terra: devastação, efeito-estufa, desastres naturais e humanos (ver Haiti). O projeto da hidrelétrica de Belo Monte que o governo brasileiro constrói, pela imposição, justamente na região da Amazônica Legal, aqui no território onde vivo e trabalho: Vitória do Xingu.

Os povos indígenas correm risco de vida. Por que toda essa situação dramática? O que significa e o quê fazer, diante dessa realidade? Como recriar a Mãe-Terra? Antes de mais nada, é preciso fazer memória de nossa origem: a terra. Somos feitos de terra, vimos da Mãe-Terra. A criação ocorreu há milhos de anos, e a pessoa foi o coroamento dessa criação. Fomos a culminância do mais belo trabalho do Artista, do Deus da vida. Contemplemos essa obra de arte divina! Sejamos sempre por ela agradecidos!

Já com Noé, o justo, quando o Senhor se arrependera de nos haver criado, por conta dos pecados gravíssimos da humanidade, Deus nos deu uma nova oportunidade, fazendo aliança conosco. É sempre Ele a recomeçar, a oferecer uma nova oportunidade, ainda quando nós estejamos rompendo pactos, alianças. A Aliança é sempre bondade d´Ele, dom do Espírito que espera nosso consentimento. Quis Deus celebrar essa aliança cósmica, representada no arco-íris, belíssimo sinal que joga sobre o céu cores de vida, com Noé, sua família, com uma nova criação.

As alianças se renovam com Abraão, com Moisés, e depois, de forma total e definitiva, com Cristo, primogênito de toda a criação.

Agora, toda a criação está a gemer de dores… Estamos vendo isto a olho nu. A cada ano que passa, o rio Xingu, na Amazônia, tem reduzido, em certos pontos, seu volume de água; durante a estação seca, pode-se passar a pé de uma ilha à margem do rio; os peixes diminuem. Aumenta a pesca predatória; as águas vêm sempre mais escassas. Há, sim, tentativas de revitalização, mas são irrisórias. É como dar uma aspirina a um doente cardíaco.

Devemos retomar a crença de que nós humanos somos terra; que a terra é nossa mãe. Uma mãe é sempre respeitada, amada, zelada, cuidada, honrada, festejada; a começar pelo nosso corpo-terra tão desprezado e mercantilizado; a começar pelo jardim de nossa casa até ao campo, até aos confins da terra. Os venenos lançados nas plantações para produzir mais são sementes de morte. As grandes propriedade, o latifúndio constituem um roubo ao Deus Criador, Pai-Mãe de todos. Os pobres pagam com a vida esse pecado contra a terra. É preciso recriar, recapitular tudo no Senhor da vida, em Cristo ressuscitado, onde toda a humanidade, toda a criação se fazem novas. Novos céus e nova terra: eis o sonho de Deus! A morte da floresta representa o fim de nossa vida, dizia a mártir Irmã Dorothy Mae Stang. A Amazônia pode ser a última terra-salvação do Planeta.

Na Páscoa, na vigília pascal, a Igreja, sacramento de Cristo, abençoa o fogo, a água… por que não também a terra? Desde sempre, os povos indígenas amam, dançam, curam com os frutos da mãe-terra, celebrando rituais com os seus Pajés (sacerdotes). A terra os abençoa. Eles se sentem abençoados pela mãe-terra, porque dela se sentem parte viva.

As raízes do pão de cada dia e do Pão Eucarístico estão fincadas na terra. Toda a criação sente necessidade deste momento sacramental para que a criação possa retornar ao Deus da vida. É a reconciliação de todo o cosmo no Cristo ressuscitado.

É importante fazer uma ecologia que tenha a Páscoa como ponto de referência. Aí, sim, a criação, já não mais sofrerá dores de agonia e de morte, mas dores de parto, de gestação, de nova gênese, de nova ressurreição, como canta a “Campanha da Fraternidade” da Igreja do Brasil, este ano: “Fraternidade e vida no Planeta”.

Que na Páscoa, cada comunidade faça a sua parte, para que a profecia dos novos céus e da nova terra possa tornar-se realidade na vida. Que nós possamos ser um pequeno sacramento de salvação do Cosmo, junto com todos os povos que vivem e que amam a mãe-terra.

Com tal visão cósmica, ninguém é mais tratado como estrangeiro sobre a terra, porque todos habitamos o mesmo Planeta, e é o único que temos como dom de Deus da vida: pensemos nisto!

Feliz caminhada pascal!”

Seu irmão Vicente Zambello

Padre “Fidei Donum”. Verona – Prelazia do Xingu

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