Tenho-me afeiçoado a este espaço. Um ritual de interação. Uma possibilidade de prosseguir nessa tarefa contínua de aprendizado que é a vida.
Uma oportunidade de costurar a totalidade da minha caminhada. Um momento para ir partilhando com quem esteja do lado de lá, as descobertas, perplexidades e desafios do existir neste mundo.
Talvez seja algumas das constantes mais permanentes na minha vida, a certeza de que é preciso lutar para sobreviver. Em todos os espaços me foi dado verificar que isto é assim.
Violência extrema e de diversas modalidades me visitou desde cedo. Aprendi que foram essas situações que me potenciaram para gerar força para superar.
Passaram-se muitos anos desde o começo da minha vida. Tenho agora uma visão integrada do percurso. A minha história se parece muito à de muitas pessoas.
Me reconheço como alguém que precisa de maneira indispensável, de uma contínua revisitação das dores que me potenciaram para ser quem sou.
É essa força a que me mantém no rumo certo. Isto é: na direção do amor, o valor supremo que sustenta, orienta e mantém a vida.
Confesso-me surpreso diante da situação em que se encontra o Brasil. Uma desconstrução do árduo trabalho que foi sendo feito para refazer o convívio social, valorizando as diferenças, promovendo o enriquecimento que nos tráz o fato de que necessitamos uns dos outros, umas das outras.
Rachar a cidadania, impor o império da ignorância, atiçar o ódio contra as pessoas mais vulneráveis, depredar o que de mais valioso temos: a certeza de que não podemos viver sós.
Necessitamos de maneira imprescindível, dessa outra pessoa que ali está. Não podemos viver de costas para o fato crucial de que apenas juntas, juntos, podemos seguir adiante na estrada da vida.
Estas não são afirmações abstratas ou genéricas. São uma recordação do que foi a minha trajetória de vida.
Talvez foi a minha própria vulnerabilidade que me fez estar desde muito cedo, lado a lado com as pessoas que mais sofrem injustiça.
Elas me lembravam de mim mesmo, e eu não sabia. Vim saber muito depois. Não se tratava, não se trata de uma questão ideológica. É uma questão de humanidade.
Continuo a acreditar cada vez mais que a vida apenas têm sentido quando é construída e mantida a muitas mãos.
Daí me apegar à escuta com o coração, aquela que me faz acolher as outras pessoas além da aparência.
Continuo vendo a educação como a porta de entrada das pessoas na vida. Pus nesta empreitada muito do meu esforço. Trabalho, confiança, criatividade.
Tudo isto se aprende desde cedo. Isto é o que nos faz humanos, humanas. Arte, a arte de viver, é imprescindível.
É ela que nos faz fazer beleza a partir da dor. É com arte que vislumbramos e construímos esperança para o futuro. Lembrar que nós podemos.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
