Domingo eu (não) vou (mais) ao Maracanã

IMG_2165Para muitos era um momento de festa. Para outros, oportunidade para manifestar indignação frente aos gastos públicos para receber os grandes eventos esportivos no Rio de Janeiro. Foram cerca de 400 pessoas  recebidas pela Polícia Militar com bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta. Manifestantes mostraram também cápsulas de pistola 9 milímetros, armamento da polícia, alegando o disparo por parte dos militares. Seis pessoas foram detidas. A polícia declara não ter se excedido na ação.
Era notável, no entorno do estádio, a presença ostensiva do aparato militar com agentes da Força Nacional, Polícia Civil e Militar, além da Guarda Municipal. Isolado pela Tropa de Choque, o movimento foi empurrado da estação do metrô de São Cristóvão até a Quinta da Boa Vista. Famílias que estavam a lazer no parque viveram momentos de pânico, com o estouro e a fumaça de bombas de gás lacrimogêneo. Vídeos nas redes sociais mostram pessoas cantando o hino do Brasil, sem nenhuma violência, sendo reprimidos pela força policial. Jovens foram detidos de forma violenta, mostrando o despreparo dos agentes militares.
A mobilização dá  sequência à onda de protestos em outros estados. Cresce, ao mesmo tempo, a preocupação com as violações por parte da força policial ao direito de liberdade de reunião pacífica, em locais abertos ao público, prevista na Constituição.
Está em tramitação no Congresso a nova lei que define os crimes de terrorismo, e há  a possibilidade da inclusão de ações consideradas violentas de movimentos sociais. O senador Romero Jucá  (PMDB-RR) é relator geral e defende a punição em caso de “motivo ideológico, religioso, político ou de preconceito racial ou étnico”, argumento contestado por Miro Teixeira (PDT-RJ). Caso aprovada, a lei seria mais um impedimento para os protestos que vêm ocorrendo.
No caso dos estádios, o próprio código de conduta do torcedor, confeccionado pela FIFA para a Copa das Confederações, já proíbe “promover mensagens políticas ideológicas” e “utilizar bandeiras para qualquer fim que não seja de uma manifestação festiva e amigável”. Apesar da injeção maciça de dinheiro público nas obras e no próprio evento, diretamente do bolso do contribuinte, o cidadão tem sido proibido do seu direito de questionamento.
Mas, ao que parece, o público que foi ao jogo não está nem aí para qualquer manifestação ou crítica à FIFA. Pelo contrário, nos momentos de conflito entre a polícia e os protestantes não houve nenhuma solidariedade por parte dos torcedores. Muitos, inclusive, defenderam a repressão.
O ingresso mais barato estava a R$ 50,00 meia [houve relatos de cambistas vendendo por até R$ 800,00 na parte da manhã na porta do Maraca]. Todos elogiaram a acessibilidade e os serviços, limitando suas críticas apenas às filas nos banheiros e bares dentro do estádio durante o intervalo do jogo. O povo, tradicional no Maraca, não esteve presente. Sem bandeiras ou tambores, a típica animação cultural e popular não foi vista. Até porque está proibida pela FIFA.
Todas as ruas em volta do Maraca estavam fechadas, também por determinação da FIFA, mas o trânsito não ficou prejudicado. Torcedores, no entanto, criticaram a distância dos locais para deixar seus carros, e alguns relataram que flanelinhas estavam cobrando até R$ 30,00 pelo estacionamento. A polícia registrou, até o intervalo do jogo, cinco ocorrências envolvendo cambistas. Três estrangeiros estavam com cerca de 20 ingressos, e os preços estavam variando de R$ 250 a R$ 500. Algumas mercadorias de ambulantes também foram apreendidas, e a reportagem viu um catador de latinha sendo levado pelo Choque de Ordem de forma bruta.
Ambulantes e bares
Os comerciantes estão insatisfeitos com as mudanças no Maraca, e as determinações do padrão FIFA. O tradicional Bar dos Sports, que fica onde era o portão 18, ponto de encontro de torcedores, fechou quatro portas do seu negócio e demitiu nove funcionários nos últimos anos. O pai de David Pontes, atual vendedor, tem o bar há 28 anos, e seu filho diz que nunca foi tão ruim o negócio. Segundo ele, além de o estádio ter ficado três anos desativado, após as obras recentes do Pan Americano, hoje o comércio popular é desestimulado e continua com os mesmos custos apesar do fluxo de venda ter diminuído radicalmente.
“O problema do Maracanã  é o preço do ingresso, três anos fechado, modo de procedimento, fora do estádio não está podendo vender bebida alcoólica, e estão promovendo uma segregação social dos torcedores. Com ingresso, transporte, bebida e comida para uma família, dá mais que 1/3 do salário mínimo. Esses eventos estão prejudicando a economia popular da região. Já estamos pensando em vender o bar para um chinês vender pastel e caldo de cana”, afirmou o vendedor.
Assim como os bares foram impedidos de vender bebida alcóolica duas horas antes e depois do jogo, segundo alguns comerciantes, todos os ambulantes estão proibidos de vender suas mercadorias no entorno do estádio. Camelô desde os 15 anos no Maracanã, Roberta Fonseca, de 29 anos, disse que hoje tem que vender seus produtos escondida com medo dos policiais. Ela estava a alguns quarteirões do estádio, quase na praça Varnhagem, na Tijuca, e diz que não consegue arrumar trabalho formal e vende uma coisa que o povo gosta.
“Proíbem a venda aqui fora para vender lá dentro, e ao dobro do preço. A gente tem um gasto com gelo, as bebidas, e pode perder o que vai repor. Já perdi várias vezes minha mercadoria, e quando eles pegam levam tudo, inclusive água, refrigerante, isopor e triciclo, sendo que só a bebida alcoólica é proibida. Isso porque a gente não consegue tirar nem R$ 200,00 de lucro”, critica.
De acordo com o delegado Fabio Barucke, da 18ª DP, responsável pelas operações, está proibida a venda de produtos não autorizados pela FIFA e a Prefeitura no entorno. “Quem estiver vendendo vai ser levado para delegacia, e vai responder pelo crime previsto pela Lei Geral da Copa, com uma pena de até dois anos de prisão”, disse. Se alguns estabelecimentos estão fechando, outros vinculados ao evento estão abrindo, como um edifício de aproximadamente três andares da Coca Cola, que, segundo informações na rua, será um restaurante. A reportagem não conseguiu verificar se há previsão de venda de bebida alcoólica no local.
Mutilação histórica e cultural
De acordo com o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, fizemos investimentos colossais no Brasil e no Rio em particular para reduzir a população que vai assistir aos jogos. No caso do Maraca, a redução foi dramática: estamos construindo aquilo que ele chamou de “casas de ópera climatizadas” para botar a torcida para fora.
“O fenômeno sociológico, antropológico, da torcida, que é do meu ponto de vista perfeito, em relação ao brasileiro, é considerado pela FIFA subversivo, perigoso e para ser eliminado. O Brasil cedeu e todos os projetos de reforma estão inspirados dessa maneira. Uma coisa que é absolutamente impressionante, um desses estádios fizeram cálculos de 146 jogos com alta lotação para começar a reverter a curva de prejuízo. É brutal”, afirma o professor, entrevistado por este repórter.
O Maracanã, ainda segundo Lessa, era símbolo da foto aérea carioca e com as obras sua tipologia foi completamente modificada, o que representa uma “mutilação na memória da cidade”. Outra coisa é a descaraterização da cultura do torcedor, pois o padrão FiFA impôs a instalação de cadeiras nos estádios.
“Você já fez ideia do torcedor brasileiro sentadinho numa cadeira? Eu espero que no Maracanã não dê o tipo de problema do Engenhão, que também teve que entregar suas obras correndo. Como é que se compatibiliza o Maracanã reduzindo sua população, com o amor brasileiro à pátria de chuteiras? Suponha que vamos muito bem na Copa das Confederações e na Copa do Mundo, como é que vai ficar o povão? Ele não tem dinheiro para comprar a entrada, que está cada vez mais cara, nem lugar porque não pode mais nem ficar em pé torcendo. Era um espaço social de integração, naquele curto período, e acabou”, conclui.
(*) Reportagem publicada originalmente no Impedimento.
 
 

Um comentário sobre “Domingo eu (não) vou (mais) ao Maracanã”

  1. Aquele maracanã perdeu sua essência de povo.Agora quem vai ao maracanã assistir não só futebol mais outros eventos,serão um meia dúzia de brasileiros privilégiados. Adeus,Maracanã.

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