Do céu ao inferno

No dia 17 de outubro de 2009 o Rio de Janeiro parou. Todo o contingente policial do estado foi mobilizado, incluindo quem estava de folga. Quarteirões inteiros foram fechados. Motivo: a derrubada de um helicóptero da Polícia Militar por integrantes do Comando Vermelho, entre os bairros de Vila Isabel e Engenho Novo, na Zona Norte da capital. Tudo com direito a transmissão ao vivo de rádio, tevê e internet. Naquela madrugada, dezenas de bandidos tentaram invadir o Morro dos Macacos, atualmente controlado pela empresa Amigos dos Amigos (ADA). Foram cerca de seis horas de intenso tiroteio. Dezenas de famílias foram obrigadas a abandonar suas casas e a esticar colchonetes na Praça Sete, a dois quarteirões do pé do morro, onde passaram o resto da noite sem saber quando poderiam retornar.
No início da manhã, por volta das oito horas, a polícia começou a chegar. Ainda que tardia, a ação foi bem recebida pelos moradores – fato raro no Rio de Janeiro. A tentativa de invasão foi rechaçada, mas o helicóptero foi derrubado por bandidos em fuga, já na altura do morro São João – vizinho do Macacos. A versão oficial dá conta de que o aparelho estava sendo usado para socorrer policiais encurralados, mas moradores da região dizem que na verdade ele servia como ponto avançado de ataque: estava atirando. Assim como há exatos dois anos, em 17 de outubro de 2007, um outro helicóptero perseguiu e executou pessoas em fuga na favela da Coréia.
A derrubada do helicóptero (e não o sofrimento dos moradores) colocou novamente a cidade no noticiário nacional e internacional e mais uma vez o debate foi direcionado para o “combate ao narcotráfico”, a “guerra contra as drogas” e congêneres. O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que o episódio foi o “11 de setembro” carioca. O jornal O Globo manifestou preocupação com a realização das Olimpíadas – mais ou menos como quando diante de um tiroteio na favela da Maré estampa algo como “Pânico entre motoristas na Linha Vermelha”.
O governo Sérgio Cabral (PMDB) apostou, de novo, na repressão violenta: nos dias seguintes à queda da aeronave houve pelo menos 40 mortes informadas oficialmente, em decorrência de ações da polícia – no dia da queda do helicóptero, morreram três policiais e um número não informado de bandidos durante a troca de tiros entre as facções rivais.
A solução apresentada pelo governo não é nova, e nem eficaz. Basta lembrar da megaoperação realizada no Complexo do Alemão, há dois anos. Dois meses de ocupação e sessenta mortos depois, a favela continua sendo o principal bunker do Comando Vermelho, segundo reconhece a própria polícia. E mais: ninguém se sente mais ou menos seguro no Rio de Janeiro após essa e outras ações violentas do governo – a situação segue igual ou pior. Apesar disso, medidas repressivas são sempre elogiadas pelas corporações de mídia. É como se essas empresas clamassem por sangue, como se viu no diálogo entre dois apresentadores da TV Record a respeito dos acontecimentos no Rio: “Enquanto as armas da polícia falham, os traficantes tem poder até para derrubar um helicóptero”.
Quem ouve até pensa que os vendedores varejistas de drogas ilícitas estão em posição de vantagem bélica em relação à polícia. “Não é verdade”, diz, categórico, Nilo Batista. Um dos maiores juristas do país, professor titular da UFRJ e da UERJ, fala com conhecimento da causa. Basicamente por dois motivos: participou dos governos Leonel Brizola (como Secretário de Justiça e Polícia e vice-governador, além de ter chegado a governar o Estado durante dez meses); e atualmente preside o Instituto Carioca de Criminologia, centro de pesquisa reconhecido no Brasil e no exterior.
O professor propõe reflexões que, invariavelmente, são ignoradas pela mídia hegemônica. A diferença entre as facções criminosas, por exemplo, poderia esclarecer muito. Por que as ações policiais nos últimos anos têm sido direcionadas contra as favelas controladas pelo Comando Vermelho, se Terceiro Comando (TC) e Amigos dos Amigos (ADA) praticam os mesmos ilícitos? A mobilização da polícia no dia da queda do helicóptero foi para proteger a população local ou para impedir que o Comando Vermelho retomasse dos rivais o antigo ponto de venda, que abarca todo o entorno do Maracanã e adjacências?
(*) Matéria publicada originalmente na revista Caros Amigos de dezembro.

5 comentários sobre “Do céu ao inferno”

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  2. Em um momento em que todos falam do fracasso nacional e internacional do combate ao tráfico de drogas, essas questoes nao respondidas nos fazem pensar, seria a horA de descriminar o consumo recreativo das drogas para poupar vidas ? usar os impostos obtidos com a venda para reverter para a sociedade carente? Isso daria mais dinheiro do que o pré sal e resolveria todos os problemas do Brasil, visto a quantidade de consumidores e fornecedores dessas substancias nesse país.

  3. carioca é uma merda, sempre pedindo dinheiro – porque o site de vocês tá pedindo grana ? Daqui a pouco, consegue verba federal, patrocínio da Petrobrás, essas coisas que funcionários públicos federais provincianos estão acostumados …

  4. A sociedade do Rio reclama que está sendo invadida pela criminalidade, mas não quer assumir sua responsabilidade nisso. Quem consome (compra) droga viabiliza o tráfico.
    Por que os traficantes do morro “A” invadem o morro “B”? hein, Marcelo Salles? Eu respondo: para conseguir mais clientes, compradores de drogas que retroalimentam esse negócio mercantil: O TRÁFICO.
    Com o lucro, eles se armam, para garantir o negócio criminoso. No combate ao crime inocentes são vítimas.
    O traficante (vendedor) é marginal, criminoso, abstrato. Não pertence à sociedade. Já o consumidor (comprador/cliente), que alimenta o (crime) negócio comercial, tem nome, identidade; é membro “distinto” da sociedade. Quem contribui para o crime é, também, criminoso!!
    Logo, a sociedade do Rio acaba sustentando não só a comodidade e o vício, mas também a violência em geral: roubos, assassinatos, sequestros, que giram em torno dos agentes protagonistas desse negócio mercantil: os traficantes e os consumidores.
    Só existe produção, porque há demanda. Harrison Ford diz: “acabando com a compra, interrompe-se a matança de animais”. O mesmo vale para as drogas, para carnes de áreas desmatadas, etc.
    A sociedade do Rio precisa fazer sua escolha !!

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