Deus e a instituição

Gostaria de dizer algumas coisas sobre algo que talvez seja tão velho como o mundo. Quem é que precisa de alguma mediação, de alguma instituição, para conversar com Deus, para se entender com Deus, com a Divina Mãe, não importa qual seja a nossa ideia sobre Ele ou Ela, e nem o nome que possamos dar ao Ser Superior?

O que eu preciso para me conectar com Deus, para viver de acordo com esse amor universal e incondicional, com essa ordem onipresente e abrangente, é ter uma profunda fe, e tratar de viver de acordo com princípios que me conduzam a essa harmonia.

No entanto, embora eu seja dos que acreditam nisto, também sou dos que vão a um templo, a uma igreja, e lá se ajoelha, ou ouve uma missa, ou ora, ou simplesmente pensa nesse lugar e se recolhe, conversa com Deus.

Eu não vejo um sacerdote como um mediador, embora tenha a certeza de que muitos deles vivem verdadeiramente segundo a vida do Espírito. Mas isto também se da com pessoas simples, donas de casa, trabalhadores, funcionários públicos, outras categorias profissionais e sociais.

Acredito que seja conveniente para nós, humanos, recuperarmos a noção de que tudo é sagrado, de que a vida é sagrada. Não importa se para alguns as instituições são importantes e outros acham que delas não necessitam.

O que me parece mais primordial é que não percamos a noção do sagrado, da sacralidade da vida. Me parece que nos dias de hoje, há uma espécie da cansaço com relação á vida, uma espécie de desencantamento.

Isto tem sido pesquisado por Max Weber, Peter Berger, e muitos outros sociólogos. Para José Comblin, cujos escritos venho estudando há vários anos, não há uma distinção entre o sagrado e a vida cotidiana. A vida é sagrada.

Creio que embora seja importante que a Igreja Católica se afaste das suas alianças com os poderes políticos que oprimem a humanidade, mais importante ainda é que, como cristãos, como seres humanos, como cidadãos e cidadãs, percebamos o quanto a vida é valiosa.

O quanto é precioso termos acordado, hoje, para mais um dia. Creio que ninguém possui receitas. Apenas me parece que é válido partilharmos o que vamos descobrindo, como por exemplo, o quanto é importante que vivamos em família, que valorizemos os laços familiares.

Que valorizemos o quanto é precioso que na nossa vida, tenhamos amigos e amigas, com quem possamos partilhar sonhos, ideais, trabalhos, alegrias, tristezas. Não adianta perdermos tempo e energia tentando mudar instituições que por si mesmas, são totalmente avessas à mudança.

Refiro-me à Igreja Católica Apostólica Romana, em particular, tão entranhada com a dominação da sociedade capitalista, que continua sendo um motivo de admiração, que nela coexistam seres devotados à libertação dos oprimidos, e sócios dessa mesma exploração.

O que quero dizer é que, na medida em que a vida é breve, pode ser mais valioso investirmos o nosso tempo e a nossa energia, em cultivar relações fraternas em pequenos âmbitos, capazes de nos sustentar no meio às tormentas e às adversidades, do que perdermos tempo em amolecer os corações endurecidos dos que pensam no poder e vivem com a expectativa de mudar alguma coisa desde as estruturas da dominação que dizem combater, e combatem.

Não seria mais efetivo, pergunto, combater essa dominação dentro de cada um, de cada uma de nós, nas redes relacionais de que fazemos parte, e tentarmos plantar e colher em pequenos âmbitos, o que alguns ainda sonham em grande escala?

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